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As pessoas que viviam no teto e sem ruas: o impressionante assentamento de Çatalhüyük

Há 9 mil anos, na Anatólia, as pessoas estavam aprendendo como fazer cidades

Redação Publicado em 13/07/2020, às 08h00

Redução do assentamento de Çatalhüyük
Redução do assentamento de Çatalhüyük - Divulgação/Youtube/History with Cy

Há cerca de 12500 anos, aconteceu a maior de todas as revoluções. Uma que, defendem vários cientistas modernos, mudou a geologia do mundo, iniciando o Antropoceno, a Era do Humano: a invenção da agricultura. A Revolução Neolítica.

Isso levou à criação de fazendas, daí cidades, daí impérios e exércitos. E, dessa revolução, sobrou uma importante testemunha: o fascinante assentamento de Çatalhüyük (pronuncia-se “chatal-ruiuk”). Habitado entre 9500 e 5700 a.C. – 3800 longos anos, bem mais do que pode se gabar qualquer país moderno –, ele mostra essa transição. Ou, ao menos, uma das ideias que os humanos tiveram para resolver os novos problemas causados pela humanidade sedentária e agrícola.

O assentamento foi descoberto em 1958, pelo hoje bastante controverso James Mellaart. Morto em 2012, o arqueólogo britânico chegou a ser expulso da Turquia sob suspeita de traficar relíquias. Em 2018, foi revelado que forjou várias de suas descobertas, inclusive alguns supostos detalhes de Çatalhüyük que, naturalmente, não estão aqui.

Escavações no assentamento /Crédito - Divulgação/Flicker/Temikebot

 

Mas o assentamento em si nunca foi posto em dúvida, e continua a ser um dos achados mais espetaculares do século 20.

As casas eram feitas de tijolos de barro e o interior era coberto por gesso. Eram também impressionantemente limpas: os arqueólogos praticamente não acharam quase nada descartado dentro delas. A entrada era pelo teto, que também servia de chaminé e claraboia.

Os habitantes estavam desenvolvendo a agricultura e a pecuária. Há indícios de criação de cabras e gado. Plantavam trigo, cevada e ervilhas. Mas ainda coletavam na
natureza amêndoas e pistache e continuaram a caçar, e parecem ter mantido uma parte importante da dieta local.

Não havia ruas na cidade. Os telhados se juntavam numa espécie de grande praça bastante irregular: há 18 níveis diferentes entre as casas. As pessoas socializavam com os vizinhos – entre outras coisas, fornos comunais foram criados nos tetos – e faziam trocas comerciais lá em cima.

Assim seriam os interiores das casas / Crédito - Wikimedia Commons

 

Além disso, Çatalhüyük é o lugar mais antigo onde há evidências de metalurgia, de fusão
de metais – chumbo. Ali também foram encontrados os fragmentos de tecido conhecidos. Uma pintura que parece ser da própria cidade é considerada ao mesmo tempo o primeiro mapa e a primeira pintura de paisagem.

A religião tem semelhanças com o que era praticado antes da agricultura. Como no Paleolítico, as figuras eram femininas e obesas. Mas elas agora aparecem ligadas a símbolos agrícolas, como colocadas em cestas para proteger a colheita. Os mortos eram enterrados no andar inferior das casas.

Mais escavações / Crédito - Wikimedia Commons

 

Até 10 mil pessoas moravam em Çatalhüyük, ainda que esse número deva ter flutuado ao longo de sua história. A sociedade parece ter sido igualitária: não há diferença significativa entre as casas. E havia laços comerciais com outros povos, com conchas e pedras de sílex vindas da Síria.