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Por que as pessoas eram tão antissexo antigamente?

Religião estava longe de ser o único fator

Fabio Marton Publicado em 19/07/2019, às 19h00

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- American Gothic, clássico irônico da cultura puritana / Crédito: Wikimedia Commons

A reposta óbvia, que todo mundo tem na ponta da língua, é: Igreja. É resposta, mas nem de longe a resposta inteira, e talvez nem a parte mais importante.

Sim, o cristianismo é uma das causas para a cultura antissexo de antigamente. “O catolicismo pregava o celibato e tentava restringir o sexo”, afirma o professor de história da Universidade George Mason, EUA, Dr. Peter Stearns e autor do livro História da Sexualidade. A Igreja ensinava um certo desprezo por tudo que era pertinente ao corpo.

Sexo devia ser por uma fatal necessidade, cumprir a função de povoar o mundo. Luxúria é um pecado similar à gula. Comer de forma luxuosa é ir além do necessário para se manter vivo.

E, de forma parecida, posições tirando o papai-e mamãe, a mais óbvia, consistiam num pecado grave, assim como masturbação, contracepção e sexo fora do casamento.

Essas ações eram um pecado mortal, bilhete direto para o inferno — mas não um pecado eterno, imperdoável, como a blasfêmia. Bastava se confessar e se arrepender. E isso foi visto como carta livre. “Muitas pessoas faziam pouco caso da opinião da Igreja, especialmente homens das classes superiores”, afirma Stearns.

Os romances de cavalaria incluem sexo fora do casamento, como o clássico Amadis de Gaula, um cavaleiro nascido de uma relação ilícita e que comete o mesmo pecado.

Ao fim da Idade Média, a Reforma Protestante acabou com a onipotência do catolicismo. No século 18, o Iluminismo tornou a sociedade muito mais secular. Foi a época de libertinos como Sade e Casanova. O século seguinte foi o tempo de imenso avanço científico, com as teorias da evolução, dos genes e dos germes. E, mesmo assim, ficou famoso como um dos períodos mais reprimidos. Por que seria?

Porque nunca foi só religião. Antes do cristianismo já havia o patriarcado. Uma filha era uma moeda de troca social, estabelecendo casamentos de interesse. E nisso a virgindade era prezada — a noiva era a mercadoria que, digamos assim, valia mais numa caixa fechada.

E havia um motivo prático: quem não se casasse com uma virgem não tinha como ter certeza de ser o pai do primeiro filho. Assim, a repressão sempre caiu de forma mais intensa sobre as moças.

Há também a questão óbvia dos filhos. Os ricos podiam pagar por quantos herdeiros e bastardos criassem. Mas não os pobres — e isso era notado, com famílias sem condições de alimentar seus filhos vistas como uma consequência do desejo sexual descontrolado.

A classe baixa era tida como hipersexualizada. Em outras palavras, sexo era vulgar. Falar em sexo muito explicitamente era visto como coisa de pobre.

Na era vitoriana, a ciência se uniria à tradição. A descoberta dos micróbios como causadores de doenças levou à cultura da higiene. Sexo passou a ser visto como sujo porque era “sujo”, algo que transmitia doenças — até letais, como a sífilis.

Mas a revolução sexual do século 20 começou a ser gestada nessa mesma época, com autores como Freud, que colocou o sexo no centro da psique humana. O trauma da Primeira Guerra levaria à farra hedonista dos anos 1920. Surgiu então a ideia do namoro — até então era noivado ou nada.

Essa breve abertura foi interrompida pela crise econômica e a outra guerra. Até que, nos anos 1950, a farmácia daria as duas pílulas da revolução sexual: antibióticos e anticoncepcionais.

Tirando de jogo as doenças e a gravidez indesejada, estava aberto o caminho para os hippies e tudo o que se seguiu tornar a vida sexual um aspecto corriqueiro da existência humana. Com exceção dos realmente devotos, sexo não-reprodutivo deixou de ser algo a ser escondido como um crime, um excesso mórbido, uma doença do corpo e da mente.