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Por que os países de clima frio são mais desenvolvidos que os dos trópicos?

Alto lá! Não é bem por aí....

Nathália Bustamante Publicado em 29/05/2019, às 08h00

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Crédito: Reprodução

É um velho clichê dos momentos de baixa autoestima nacional. O Brasil não foi pra frente porque é quente demais. Será que há algum sentido nisso?

A teoria de que ambientes frios seriam mais propícios para o desenvolvimento de civilizações tecnologicamente avançadas foi bastante disseminada nos séculos 19 e 20.

O argumento por trás dela é de que o clima frio teria oferecido desafios extras à sobrevivência, favorecendo então um processo de evolução da sociedade. Nos trópicos, onde “bastaria estender a mão” para apanhar uma fruta, as pessoas teriam ficado indolentes, sem razão para avançar.

É uma farsa. Existem múltiplos exemplos de culturas avançadas nos trópicos. As mais antigas civilizações de que se tem registro se desenvolveram em regiões tropicais e subtropicais – os sumérios, egípcios e a civilização do vale do Rio Indo.

Nas Américas, os poderosos maias e astecas estavam em regiões tropicais, enquanto os nativos dos gélidos Canadá e Patagônia não atingiram a mesma sofisticação. No Pacífico, os reinos da Indonésia eram muito mais ricos que aqueles da Nova Zelândia, onde neva todo ano. E assim por diante: a História prova que não há nada de errado com os trópicos.

O “atraso” das regiões tropicais só surgiu com a Revolução Industrial, no século 18, que fez a Europa ganhar uma vantagem tecnológica - e, daí, militar - sem precedentes. Uma revolução que nasceu de condições bem específicas, que nunca antes existiram, nos trópicos ou no ártico.

Um evento que tem muitas explicações - mas o frio não é uma elas. E que se espalhou para outros países europeus não porque eram frios, mas porque estavam próximos, geográfica. econômica e culturalmente.

Antes da Revolução Industrial, os europeus estavam longe de ser imbatíveis. Basta pensar em como terminaram as cruzadas, em derrota após derrota, ou o fato de que grandes Estados orientais como a China só começaram a ser desafiados a partir do século 18, coincidindo com a industrialização. 

Segundo Eduardo Natalino, professor de história da USP, a narrativa climática é fruto da mentalidade colonial, justificando sua dominação dos trópicos: “Esse modelo, no século 19, via a si mesmo como o ápice da evolução humana”. 

Essa mentalidade não só explicou, como causou atraso. Na África, o colonialismo destruiu o modo de vida e as estruturas políticas tradicionais, favorecendo alguns grupos em detrimento de outros, e causando o rancor anticolonial – ingredientes para episódios explosivos ainda hoje. Em estado constante de guerra, nenhuma civilização pode florescer.