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Presidente morto-vivo: os bastidores da foto mais polêmica de Tancredo Neves

Produzida em março de 1985, a imagem buscava tranquilizar a população quanto à saúde do mandante, mas os boatos que se seguiram não poderiam ser piores

Pamela Malva Publicado em 06/05/2020, às 15h00

A icônica e polêmica foto de Tancredo Neves enfermo, ao lado de seus médicos
A icônica e polêmica foto de Tancredo Neves enfermo, ao lado de seus médicos - Divulgação/Gervásio Baptista

No dia 15 de janeiro de 1985, véspera de uma nova constituição, o Brasil conheceu seu último presidente eleito por voto indireto. Escolhido pelo colégio eleitoral, Tancredo Neves seria o primeiro mandante civil desde 1964.

Após anos como governador, senador e primeiro-ministro, a experiência de Tancredo já o classificava como um dos mais importantes políticos brasileiros do século 20. Aclamado pelo colégio, elegeu-se com uma larga vantagem.

Um dia antes de tomar a posse, entretanto, o figurão contraiu uma forte doença que o deixou de cama por meses. Foi nesse período que uma das fotos mais polêmicas da história brasileira foi tirada: com Tancredo enfermo, a imagem deixava diversas dúvidas sobre a saúde do mais novo presidente.

Tancredo Neves, o primeiro presidente civil desde 1964 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um clique icônico

Em março de 1985, Gervásio Baptista esperava no Aeroporto do Rio de Janeiro quando foi abordado por um policial. Com décadas de fotojornalismo nas costas, o profissional estava a caminho de novo um trabalho, cuja importância ele mal imaginava.

Quase cochichando, o oficial de segurança se aproximou de Gervásio e revelou o destino do voo: ele fotografaria o recém-eleito presidente Tancredo. “E lá eu fui”, contou o jornalista, em entrevista de 2015.

Uma vez no Hospital de Base de Brasília, Gervásio foi encarregado de criar uma imagem para tranquilizar o país. A ideia era representar Tancredo se recuperando em uma fotografia alto-astral, com todos seus médicos presentes.

A obra, no entanto, teve o efeito contrário e diversos boatos foram criados e disseminados pela imprensa da época. Tirada no dia 25 de março, a fotografia revelava um Tancredo abatido, claramente enfermo, quase deitado no sofá de seu apartamento.

Tancredo ao lado de seus médicos / Crédito: Divulgação/Gervásio Baptista

 

Uma dúvida cruel

Assim que a imagem foi divulgada, brasileiros começaram a questionar sua veracidade: Tancredo estaria realmente vivo no momento da foto? Reportagens da época diziam que o presidente estava, de fato, acordado, mas dependia de uma enfermeira escondida atrás do sofá — com frascos de soro nas mãos.

A revista Veja, por exemplo, tinha certeza de que, na hora do clique, Tancredo contava com duas sondas injetadas em seus braços. Todos os boatos, entretanto, foram rapidamente desbancados por Gervásio.

Por anos, o fotógrafo tentou desmistificar as ideias macabras por trás da imagem. “Se eu não estivesse acompanhando a trajetória da doença, eu não acreditaria que ele sairia tão bem na foto. Ele estava bem”, lembrou, em entrevista de 2008.

No dia da fotografia, inclusive, Gervásio fez questão de tirar todas as partes duvidosas do cenário. “Lembro que o principal médico dele o estava abraçado. Pedi ao doutor que tirasse a mão das costas do presidente, para não dizerem que ele estava sendo amparado”, afirmou o jornalista.

Tancredo, Risoleta e os médicos / Crédito: Divulgação/Gervásio Baptista

 

Provas de um dia normal

Os boatos, é claro, tomaram conta do país em pouco tempo, apesar das objeções de Gervásio. Uma outra imagem daquele dia, no entanto, era a prova concreta de que Tancredo estava vivo — e bem!

Durante o ensaio fotográfico, a esposa do presidente eleito, dona Risoleta, sentou-se ao lado do marido. Em seguida, um clique apenas dos dois mostrou um Tancredo animado, sorridente e de olhos bem abertos. “Ele estava vivíssimo. Eu me negaria a fotografar se não fosse verdade”, disse Gervásio, em 2015.

Tancredo Neves e sua esposa, Risoleta / Crédito: Divulgação/Gervásio Baptista

 

Segundo disse Antonio Britto, em Assim morreu Tancredo, a única armação da foto envolveu levar o presidente do quarto até a sala. “Ele vestiu o robe de chambre sobre o pijama e colocou uma echarpe”, conta.

Acompanhado de dona Risoleta e de sua enfermeira, que segurava os dois frascos de soro, Tancredo, então, sentou-se no sofá, ao lado de seus médicos. A especialista posicionou os soros atrás do presidente e saiu de cena.

Três horas depois da foto, uma má notícia: Tancredo havia sido acometido por uma hemorragia. Sem saída, os médicos o encaminharam até o Instituto do Coração, em São Paulo. Menos de um mês depois, o presidente sem posse morreu, aos 75 anos, no dia 21 de abril. Gervásio agora deveria fotografar o mais novo líder da nação: José Sarney.


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