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O inusitado dia em que Hebe Camargo quase tirou o SBT do ar por um mês inteiro

Em seu famoso programa, a apresentadora exibiu uma entrevista polêmica que repercutiu mal entre políticos do país

Letícia Yazbek Publicado em 13/11/2020, às 10h00

Hebe Camargo no final de 2006
Hebe Camargo no final de 2006 - Wikimedia Commons

Era 17 de fevereiro de 1987, quando Hebe Camargo recebia em seu programa o jornalista Gilberto Di Pierro, mais conhecido como Giba Um. Ao falar sobre o trabalho da Assembleia Nacional Constituinte, que preparava a Constituição de 1988, Giba despertou a raiva dos deputados.

Durante a entrevista exibida pelo SBT, o jornalista chamou os parlamentares de “malandros, patifes, corja de safados”, e afirmou que eles só trabalhavam “em benefício próprio”.

Então, o deputado Plínio de Arruda Sampaio, então filiado ao PT, sugeriu a Ulysses Guimarães (PMDB), presidente da Constituinte, que fosse convocada uma cadeia nacional de rádio e televisão para mostrar aos espectadores, durante 15 minutos, os trabalhos desenvolvidos pela casa.

Hebe Camargo em seu programa / Crédito: Divulgação

 

“A instituição foi ultrajada, talvez por leviandade, o que é inadmissível em um programa, principalmente com os meios de comunicação que atingem áreas ponderáveis ou muito grandes da população. O que é pior, no intuito de desmoralizar o Congresso Nacional na sua expressão mais alta, a Assembleia Nacional Constituinte, o que significa desmoralizar a própria democracia”, afirmou Guimarães, em discurso aplaudido pelos deputados.

O caso foi investigado pelo Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações), extinto em 1990, que requisitou a fita do programa. Ao exibir a polêmica entrevista, o SBT se enquadrou em dois artigos do Código Brasileiro de Comunicações.

“No 53, letra I, está prevista pena que vai de advertência à suspensão por até 30 dias nos casos de transmissão que seja considerada calúnia, difamação ou injúria aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ou aos seus respectivos membros”, explicou o Jornal do Brasil na época.

De acordo com O Estado de S.Paulo, o então superintendente do SBT, Luciano Callegari, encaminhou as cópias do vídeo ao Ministério de Comunicações para provar que não houve ofensa grave na fala de Giba Um. Já de acordo com Carlos Henrique de Almeida Santos, diretor regional do SBT em Brasília, a empresa não se responsabiliza pelo que é dito por um entrevistado em um programa ao vivo.

Segundo o Estadão, Giba Um lembrou-se de ter se referido aos deputados como “corja”, mas se defendeu: “Existe o direito ao livre pensamento no país; caso contrário temos de volta a censura”.

A emissora não recebeu a suspensão e o programa de Hebe Camargo foi exibido pelo SBT até 31 de março de 2010.


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