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Roedor Azul: O primeiro artefato nuclear detonado pela França

O teste ocorreu no Deserto da Argélia, em 1960, época em que o país enfrentava uma economia arrasada e uma política instável

Ricardo Lobato Publicado em 04/07/2021, às 11h00

Imagem meramente ilustrativa de explosão atômica
Imagem meramente ilustrativa de explosão atômica - Divulgação/Pixabay/geralt

Em 1945, encerradas as hostilidades da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a URSS emergiram como as grandes potências vitoriosas. Inglaterra e França, outrora grandes impérios ultramarinos, mesmo que estivessem sentados do lado vencedor da guerra, viram sua importância diminuída na nova ordem bipolar. Era o início de um novo mundo, uma nova era.

Cruzadores, blindados e grandes exércitos continuariam a ter importância, mas após a explosão de duas bombas em Hiroshima e Nagasaki, uma nova arma viria a ser o fator decisivo em uma eventual disputa: a bomba nuclear. Os EUA saíram na frente com o Projeto Manhattan, que culminara com as bombas lançadas no Japão em 1945.

Em 1949, foi a vez de a União Soviética, com um teste nuclear realizado onde hoje é o Cazaquistão. Em 1952, o Reino Unido tornou-se a terceira potência nuclear ao realizar um teste na Austrália. Dos Aliados que venceram a guerra contra a Alemanha, só faltava a França. O país era o que se encontrava em situação mais precária dentre os vitoriosos.

Tendo sido ocupada em 1940 e com parte de seu território devastado pelos combates, a França, mesmo que vitoriosa, ainda estava longe de se recuperar da devastação do conflito. Sua economia estava arrasada, a situação política era instável e seu povo ainda não se curara completamente dos traumas de uma guerra que dividira a sociedade.

A bomba conhecida como Fat Man lançada em Nagasaki / Crédito: Domínio Público/ Departamento de Defesa dos EUA

 

Para completar, a antiga potência colonial via seu império se esfacelar a cada dia. Com a precária situação da metrópole, vários foram os Estados que aproveitaram para se livrar do jugo colonial. Em 1954, após a derrota em Dien Bien Phu, a Indochina se tornara independente. No mesmo ano, se iniciou um novo confronto, agora na Argélia.

Este último afetava diretamente o brio da nação, pois ao contrário de outros países, considerados apenas colônias de exploração, a Argélia era uma colônia de povoamento. Para contornar a instabilidade, o general Charles de Gaulle, herói da Segunda Guerra, se tornou presidente em 1959, inaugurando a Quinta República.

No topo da lista de prioridades estava manter o status quo de potência da França. Foi então que o país deu início a um programa que culminaria em uma situação no mínimo curiosa: a detonação do Roedor Azul. Gerboise é nome francês de jerboa, um pequeno roedor que habita os desertos da África do Norte.

Fotografia do general Charles de Gaulle / Crédito: Domínio Público/ Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

 

Este foi justamente o nome escolhido para batizar o primeiro artefato nuclear detonado pela França, Gerboise Bleue, ou o Roedor Azul. O azul vem da primeira cor da bandeira francesa. O teste foi realizado em fevereiro de 1960 no Deserto da Argélia, e foi seguido por mais dois no mesmo ano, Gerboise Blanc e Gerboise Rouge, completando as cores da bandeira nacional, branco e vermelho.

Mesmo que a Argélia tenha conseguido sua independência dois anos depois dos testes Gerboise, a França, graças a uma cláusula no tratado de independência, continuou realizando detonações no país até 1966, migrando posteriormente seus experimentos para a Polinésia — os últimos foram realizados em 1996.

Mesmo tendo vivido um período de instabilidade interna (a exemplo dos levantes de maio de 1968), o país conseguiu fazer valer seu status internacional de potência. Muita coisa mudou após o fim de seu programa nuclear, inclusive a própria ordem internacional. Com a emergência de novas ameaças, ganham força os discursos que reavivam o debate sobre a importância de um escudo nuclear de defesa. Mais que nunca o Roedor Azul continua um tema atual.


Ricardo Lobato é sociólogo e mestre em economia pela Unb, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro e Consultor-Chefe de Política e Estratégia da EQUILIBRIUM — Consultoria, Assessoria e Pesquisa.


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