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Saudades de casa: A curiosa origem da música 'Lili Marlene'

Uma das mais famosas canções do século 20 nasceu em meio às trincheiras. Entenda!

Ricardo Lobato Publicado em 30/01/2022, às 08h00

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Divulgação/ Pixabay/ jarmoluk

O ano é 1915. Há meses, a Primeira Guerra Mundial vem devastando a Europa e mergulhando o mundo em uma maré de caos. No meio deste turbilhão, Hans Leip, um jovem professor escolar de Hamburgo, é convocado para servir a pátria alemã e mandado para a frente de batalha.

Porém, antes de ir para o front, recebe um beijo de despedida... ou melhor, dois. O que viria a ser uma das canções mais famosas do século 20, nasceu como um poema escrito por Leip em meio às trincheiras. 'Lili Marlene' não era uma pessoa, mas duas.

Lili, uma jovem cozinheira, e Marlene (Marleen em alemão), sua amiga de infância que se alistara como enfermeira do Exército imperial. Sozinho no campo de batalha, confortando-se nas lembranças de casa, Leip escreveu o poema para as duas moças.

Com o fim da Grande Guerra, em 1918, Leip voltou para casa, mas seus escritos ficaram esquecidos até 1937. Foi apenas durante uma arrumação doméstica de rotina que os versos foram redescobertos. Adicionou mais algumas linhas à poesia e resolveu musicá-la e publicar. Pronto! Estava traçado o destino de 'Lili Marlene'.

Fotografia de Hans Leip / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Na época, a Alemanha já vivia sob o jugo nazista e uma canção que falava das memórias de um soldado sobre uma garota enquanto este estava na guerra servia perfeitamente ao novo regime. Em 1938, o compositor Norbert Schultze, braço direito de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Reich, fez uma gravação e a levou ao ar em 1939.

O intuito dos nazistas era transformar 'Lili Marlene' em um hino de guerra do soldado alemão. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Quando os nazistas ocuparam Belgrado (atual capital da Sérvia) em 1941, se apossaram também de sua estação de rádio, a Rádio Belgrado, famosa em toda a Europa pelo alcance de seu transmissor — segundo a propaganda da época, ela alcançava “dos fiordes noruegueses até as areias do Egito, passando pelas estepes russas”.

Curiosamente, em todos esses lugares as tropas alemãs estavam combatendo. E todos os finais de tarde, a rádio tocava a canção 'Lili Marlene' na voz da cantora Lale Andersen. O sucesso em meio às tropas era tanto, que, pelos três minutos e 13 segundos que dura a canção original, havia uma trégua nos combates.

Contrário ao que os dignitários nazistas esperavam, ingleses, neozelandeses, sul-africanos, australianos, franceses, russos, gregos, e todos os demais que combatiam contra os alemães, se confortavam na doce voz de Lale, que os lembrava de suas namoradas e esposas em casa.

Inicialmente, Goebbels até ordenou que fosse gravada uma versão em inglês, no intuito de utilizá-la como ferramenta de guerra psicológica contra as forças da Commonwealth, mas o tiro saiu pela culatra: a canção fez ainda mais sucesso com as forças contrárias aos alemães. Para completar, Lale não era uma artista com muitas simpatias pelo nazismo e possuía vários amigos judeus.

Furioso, Goebbels proibiu a canção de ser tocada pela Rádio Belgrado e baniu Lale dos palcos. A reação foi imediata. Da gélida Stalingrado até as escaldantes areias do Saara, foram enviadas milhares de cartas para a rádio pedindo que a canção voltasse a ser tocada. Até o marechal de campo Erwin Rommel escreveu a seus superiores dizendo que o moral da tropa era melhor ao som da “doce Lili”.

Fotografia de Joseph Goebbels / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Enquanto os alemães decidiam o que fazer com a música, o serviço estrangeiro da BBC se antecipou e gravou uma versão com a cantora Marlene Dietrich. Notória por suas manifestações antinazistas, ela vinha trabalhando com o departamento de propaganda das forças Aliadas desde que os EUA se juntaram ao esforço de guerra.

'Lili Marlene' se tornou a mais nova gravação da cantora. Na primeira transmissão da BBC, o locutor se dirigiu às tropas e, por meio da tradução em alemão, para que o inimigo pudesse entender, disse: “Você já percebeu que sua canção favorita não tem sido tocada há algum tempo? Por que será? Será que Lale Andersen foi presa? O que será que aconteceu com a pobre Lili?” e, emendando, declarou: “mas não se preocupe, Lili cantará para você por aqui agora”.

Em Berlim, diante da rasteira que levara dos Aliados e das reclamações das tropas, Goebbels permitiu que a canção voltasse a ser tocada, agora em novo horário e com uma melodia regravada por Andersen em tom mais marcial, “mais patriótico” — algo condizente com os “valores sagrados”, como disse o próprio Goebbels. Porém a nova versão não fez tanto sucesso.

Os Aliados, que a essa altura já haviam virado a guerra a seu favor, também ganhavam com 'Lili Marlene'. Além das versões em alemão e inglês, havia em francês, russo e outros idiomas falados pelas tropas — inclusive uma “versão brasileira”. Com a chegada da FEB na Itália em 1944, foi traduzida para o português e incorporada pelos pracinhas.

Com o fim da guerra, o general Eisenhower, Supremo Comandante Aliado na Europa, chegou a dizer que Hans Leip, o autor da letra original, “era o único alemão vivendo na Alemanha de Hitler que trouxe alegria para o mundo durante a guerra”. E há relatos de ter emendado, “obrigado a essas duas moças” — referindo-se a Lili e a Marleen.

Findas as hostilidades, Lale Andersen recebeu seu disco de ouro por mais de 1 milhão de cópias vendidas. A canção era um verdadeiro sucesso. Ao longo das décadas seguintes, com a nostalgia do pós-guerra de Hollywood, várias foram as produções que contaram com a obra em sua trilha sonora.

Na Alemanha, o pai do Novo Cinema Alemão, Rainer Werner Fassbinder, revisitou Lili Marlene com seu filme homônimo de 1981. Gravada em tantos idiomas e sendo um símbolo para tantos soldados, independentemente do lado em que estavam, 'Lili Marlene' nos mostra que música não escolhe lado, é para todos.


Ricardo Lobato é sociólogo e mestre em economia pela UNB, oficial da reserva do exército brasileiro e consultor-chefe de política e estratégia da Equilibrium — consultoria, assessoria e pesquisa.