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Sem 'mimimi' ou 'lacração': Chucky sempre teve personagens LGBT, você que não viu

Novo filme da franquia, que estreia em outubro, trará o primeiro protagonista gay da saga, embora a sexualidade seja algo comum nas produções — o que não significa que todos foram capazes de enxergar isso

Fabio Previdelli Publicado em 06/08/2021, às 08h00

Chucky, o Boneco Assassino
Chucky, o Boneco Assassino - Divulgação/ Rogue Pictures

Na semana passada, nós da equipe do site do Aventuras na História publicamos a notícia sobre a nova produção da franquia ‘Chucky, o Boneco Assassino’. Conforme relvado pelo criador dos longas, Don Mancini, em painel da Comic-Con, a série, com estreia prevista para outubro, terá um protagonista homossexual.  

“Há muitas cenas ótimas entre Zackary Arthur, interpretando Jake, e o seu amigo e crush, Devon, vivido pelo ator Björgvin Arnarson”, declarou Mancini sobre o primeiro personagem abertamente gay a ser protagonista da produção.  

O fato, no entanto, parece não ter agradado muito os fãs da franquia, afinal, diversos comentários preconceituosos foram feitos sobre a novidade nos comentários de nossa publicação: “Essa porr* já está chata, passou de todos os limites, ser hétero vai virar crime. Só falta isso”, disse um leitor. 

“Aff, que abuso dessa insistência”; “santa paciência, que lavagem cerebral” e “daqui a pouco é o Thor, Homem de Ferro, Homem Aranha, e aí vai...”, foram algumas outras falas ditas.

Porém, nem todos criticaram a nova história, muito pelo contrário, há quem ache que o roteiro nem será tão inovador assim: “No ‘Filho de Chucky’, ele era transgênero. Não tô vendo a novidade”. 

E é justamente isso que vamos explicar, afinal, Chucky sempre foi a franquia de terror onde a comunidade LGBTQIA+ esteve mais representada. Ou será que as pessoas que reclamam falam isso só para criticar, sem nunca terem assistido a um filme sequer? 

Bom, vamos começar justamente pelo já citado ‘O Filho do Chucky’, que estreou em 2004. Na época, os executivos da Universal Picture, que haviam publicado os anteriores filmes da franquia, consideraram o roteiro da nova produção dessa maneira: “isso aqui é gay demais”. 

A fala se deu pela introdução do personagem que dá título ao filme: Glen/Glenda. No filme, o gênero do personagem já é questão de debate entre seus pais: Chucky e Tiffany. Por não ter uma 'anatomia definida', Chucky crê que ele é um homem, por isso o chama de Glen; já Tiffany a enxerga como menina e, por consequência, a chama de Glenda.  

Naquela época, o conceito do gênero não-binário já existia, embora, obviamente, não fosse tão discutido como é atualmente. Assim, podemos dizer que a saga trouxesse o pioneirismo do debate para as telonas. 

Glen/Glenda em 'O Filho do Chucky'/ Crédito: Divulgação/ Rogue Pictures

 

Mas se engana quem pensa que a discussão sobre o gênero do personagem era algo casual. O nome é uma homenagem e referência ao filme “Glen or Glenda?”, produzido em 1953 por Ed Wood. Na trama, Wood abordava, entre outros assuntos, o crossdressing e a transgeneridade.   

Assim como o novo longa, ‘O Filho do Chucky’ também sofreu críticas por sua narrativa, recorda Mancini em entrevista ao BuzzFeed. “Boa parte dos fãs mais dedicados de filmes de terror são caras jovens e heterossexuais. Eles falaram: ‘Que p*rra é essa?’”, recorda o cineasta.  

“Mas você nunca pode agradar a todo mundo. Eu prefiro fazer algo ousado e interessante, mesmo que vá alienar algumas pessoas”, completa.  

Mas essa inserção não começou apenas no longa de 2004. No primeiro filme da franquia, ‘Brinquedo Assassino’, de 1988, o protagonista Andy Barclay já demonstrava ser um garoto ‘fora dos padrões’, muito mais pertencente aos ‘excluídos da sociedade’ do que qualquer outra coisa.  

Afinal, além de ser uma criança sem muitos amigos, não faz muita objeção de fugir da escola para ajudar nas missões sangrentas de seu boneco macabro. Na continuação, de 1990, Andy entra no sistema de adoção, onde conhece Kyle, a garota órfã — que possui traços notáveis de androgenia — que se torna sua grande parceira.  

“Eu acho que a identificação de pessoas LGBTQIA+ com os filmes de terror tem a ver com a identificação dos outsiders, de figuras que vão do 'monstro de Frankenstein' a 'Carrie, a Estranha'", diz Don.

"Nos filmes, há sempre este monstro solitário e incompreendido, ou ao menos o que a sociedade vê como um monstro. Mas você, como espectador, está com eles, dentro do coração deles, e sabe que são lindos, ou que foram corrompidos por um mundo maligno”, comenta o diretor sobre o tema.  

A sexualidade também segue outros filmes da franquia — em uns mais explícitos que os outros, é verdade. Em ‘o Culto de Chucky’ (2017), por exemplo, o boneco assassino toma conta do corpo de Nica, e dá um beijo em Tiffany antes de partir.  

Sobre o momento, ele declara: “Isso aqui é diferente”, fazendo alusão a estar num corpo feminino e beijar outra mulher. Tiffany, por sua vez, normaliza a relação: “Não sei… Funciona para mim”. 

Antes disso, em ‘Brinquedo Assassino 3’, Chucky faz uma “declaração de guerra” contra duas garotas que, pouco antes, haviam passado batom em sua boca durante uma brincadeira. Isso sem citar os personagens gays ou o casal lésbico introduzidos nas outras películas.  

Por fim, o que se enxerga em tudo isso é que, realmente, ‘não há novidade nenhuma,’ Chucky sempre teve essa temática LGBTQIA+ presente em seus filmes. A grande questão é que, na época, a luta por representatividade não se fazia tão presente como hoje.

Assim, muitos do que reclamam dela, acreditam que essa discussão chegou em nossa sociedade agora, mas, na verdade, é que eles nunca foram capazes de enxergar sua importância. 


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