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Steve Biko, o símbolo da brutalidade do regime segregacionista

Conheça o ativista símbolo da resistência contra o Apartheid e líder da consciência negra

Danilo Santana Publicado em 21/03/2021, às 09h00

Steve Biko em imagem
Steve Biko em imagem - Wikimedia Commons, com direitos autorais são propriedade da Fundação Steve Biko

"O homem está morto e os olhos do mundo observam agora".

Em 1980, o músico britânico Peter Gabriel, produziu um álbum com a canção Biko, que se tornou um hino mundial contra o apartheid na África do Sul. O trecho da canção acima e o livro biográfico escrito pelo jornalista sul-africano Donald Woods, que fotografou o cadáver do ativista com vários hematomas, sugerem o assassinato de Steve Biko, símbolo da brutalidade do regime segregacionista, mostrando ao mundo sua história.

Stephen Bantu Biko nasceu em King William’s Town em 18 de dezembro de 1946. Filho de uma família humilde, perdeu o pai ainda criança, e à mãe, empregada doméstica, coube o sustento dos quatro filhos.

Com 15 anos, Biko, seu irmão mais velho, Khaya, e cerca de 50 outros alunos foram expulsos do Lovedale College, acusados de participar de uma divisão ilegal do Poqo, espécie de braço armado do Congresso Pan-Africano (PAC), naquela época banido.

Depois de concluir os estudos no St. Francis College, Biko entra no curso de medicina na divisão de negros da Universidade de Natal, em Durban. Foi nessa época, influenciado
pelo clima dinâmico e vibrante dos movimentos estudantis, que ele se engajou em grupos multirraciais, principalmente o NUSAS (União Nacional dos Estudantes Sul-Africanos), onde as vozes negras não tinham muita autonomia.

Em 1969, na união dos estudantes negros das Universidades do Norte e de Natal, foi criada a SASO (Organização dos Estudantes Sul-Africanos), e Biko foi eleito presidente.

Nesse cenário surge o Movimento de Consciência Negra (BCM), que pregava a necessidade de o povo negro agir como um grupo, juntar forças para se libertar das correntes da submissão e se enxergar não só como uma categoria de segunda classe da sociedade branca, mas como pessoas dignas e autoconscientes.

O grande envolvimento de Biko na luta contra o apartheid fez com que ele fosse expulso do curso de medicina em 1972. Um ano depois, também por ser participante ativo do combate contra a segregação racial, foi deportado de Durban para sua cidade natal pelo governo sul-africano e proibido de fazer discursos e de sair da cidade.

Em 1976, a luta do povo negro se intensificou quando se tornou obrigatório o ensino do africânder (idioma dos colonizadores), que servia como elemento de controle da sociedade negra por parte dos brancos.

O clima de insatisfação só crescia, atingindo o ápice em 16 de junho, quando policiais abriram fogo contra estudantes, no episódio conhecido como o Levante de Soweto, bairro de população negra de Johannesburgo.

Estima-se que centenas de jovens e crianças perderam a vida nesse massacre. Biko não participou pessoalmente do movimento, por causa da condenação judicial que o submetia a restrições de circulação.

O episódio de Soweto também foi decisivo para o destino de Biko, que mesmo sob os olhares atentos das autoridades conseguia militar, criando, com a ajuda de líderes locais, vários projetos sociais.

Biko era considerado perigoso pela habilidade em organizar e inspirar a juventude negra na África do Sul. Em 1977, o ativista foi preso em um bloqueio organizado pela polícia, levado sob custódia, interrogado, torturado e morto.

O governo deu várias versões para sua morte, tais como greve de fome e suicídio (segundo as autoridades, Biko teria batido a cabeça várias vezes na parede).

A brutalidade de sua morte tornou- o símbolo da resistência negra contra o apartheid. Ele morreu sem ver o fim do regime ou a posse de Nelson Mandela como o primeiro presidente negro da África do Sul, mas sua história segue viva e inspiradora para quem, mesmo sofrendo segregação, validada por lei ou não, grita por liberdade e por afirmação.


Este texto foi enviado por um leitor que participou da campanha “Eu quero colaborar com a revista Aventuras na História”, em 2016.