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Sucesso da TV chinesa: o programa que entrevistava condenados antes da execução

Por 6 anos, Entrevistas Antes da Execução foi uma das atrações mais vistas no país; e causou polêmica em 2012

Fabio Previdelli Publicado em 29/03/2020, às 09h00

A jornalista Ding Yu, apresentadora de Interviews Before Execution
A jornalista Ding Yu, apresentadora de Interviews Before Execution - Divulgação

Na província de Henan, no centro da China, milhões de pessoas se sentavam em frente a televisão todas as semanas para assistirem um exótico programa que entrevistava assassinos condenados à morte. Entrevistas Antes da Execução (em tradução livre) ficou no ar entre 2006 e 2012, e era comandado pela jornalista Ding Yu.

Toda segunda-feira de manhã, Yu e sua equipe se reuniam para vasculharem os relatórios da corte e encontrarem casos que poderiam ser pautados no programa. A pesquisa tinha que acontecer com muita rapidez, já que o prazo para a execução de um condenador era de uma semana.

As entrevistas eram realizadas, geralmente, horas antes da punição se concretizar. Segundo os produtores, o objetivo do show era impedir que outros criminosos em potencial cometessem atrocidades semelhantes, mostrando a eles as reais consequências de tais ações.

A jornalista Ding Yu entrevistando um criminoso para o programa Interviews Before Execution / Crédito: Divulgação

 

"Muitos espectadores podem considerar cruel pedir a um criminoso que faça uma entrevista quando ele está prestes a ser executado”, diz Ding Yu. "Pelo contrário, eles querem ser ouvidos".

Na época em que o programa estava no ar, a China aplicava pena de morte a 55 crimes. Entretanto, o programa se concentrava exclusivamente em condenações por assassinato de natureza particularmente violenta e em casos onde não havia dúvidas sobre a culpa do prisioneiro. Durante os menos de seis anos que a atração foi exibida, Ding Yu realizou 226 entrevistas.

"Alguns criminosos que entrevistei me disseram: 'Estou realmente muito feliz. Eu disse muitas coisas do fundo do meu coração neste momento. Na prisão, nunca havia uma pessoa com quem eu estivesse disposto a conversar sobre eventos passados”, se justifica.

O programa nunca entrevistou presos políticos ou casos em que o crime estava em aberto, e a equipe recebia o consentimento do tribunal superior de Henan em todos os casos. "Sem o consentimento deles, nosso programa terminaria imediatamente", disse Ding.

Transmitido todos os sábados à noite, o programa era frequentemente classificado como um dos 10 melhores shows da província de Henan. Semanalmente, a atração atingia quase 40 milhões de espectadores — os números eram exorbitantes pensando que 100 milhões de pessoas viviam na província.

Muitos dos casos apresentados no programa foram motivados por dinheiro, no entanto, um caso em particular se destaca por Ding. Os autores eram namorados, jovens, formados na faculdade e com um futuro promissor. O casal planejava roubar os avós, mas algo deu errado. Assim, um deles acabou os matando.

Gao Ping Phu, que assassinou sua ex-esposa, mostra remorso ao ser entrevistado por Ding antes de ser levado para execução ? Crédito: Divulgação

 

“Eles são tão jovens. Eles nunca tiveram a chance de ver este mundo, ou de curtir a vida, uma carreira, trabalho e o amor da família”, disse a apresentadora. "Eles fizeram a escolha errada e o preço é a vida deles".

Os mais de 200 programas fizeram com que os casos pouco surpreendessem a jornalista, que se recorda de outros dois que foram marcantes. "Eu entrevistei criminosos ainda mais jovens do que aquele jovem estudante, alguns com apenas 18 anos. Essa é a idade mínima para ser condenado à morte”.

Ou momento único foi o caso de Bao Ronting, que era assumidamente gay. Quando a entrevista foi ao ar, em 2008, a homossexualidade ainda era um enorme tabu na China. Então, quando Ronting foi entrevistado — condenado por assassinar sua mãe—, a audiência disparou.

"Eu nunca tinha chegado perto de um homem gay, então realmente não podia aceitar algumas de suas práticas, palavras e ações”, conta. "Embora ele fosse homem, ele me conversava comigo com tom muito feminino: 'Você se sente estranho falando comigo?' Na verdade, eu me sentia muito”.

A atração foi cancelada em março de 2012, depois que a BBC apresentou um documentário sobre. Os links para os episódios também foram removidos do site do canal. As autoridades chinesas estavam descontentes com a quantidade de informações que foram passadas ao canal britânico e houve um temor com que isso pudesse prejudicar a visão internacional que as outras nações tinham do país asiático.


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