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Tragédia escrita no gelo: Terra Nova, a expedição que (quase) deu errado

Há mais de 100 anos, um grupo destemido de exploradores e cientistas partiu da Inglaterra rumo à Antártida. O objetivo principal: ser a primeira expedição a atingir o Polo Sul

Alexandre Carvalho Publicado em 22/09/2019, às 10h00

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Crédito: Hebert Ponting / University of Cambridge

Terceira exploração britânica a se aventurar pela Antártida, entre 1910 e 1913, a Expedição Terra Nova acabou se tornando uma tragédia escrita no gelo, de confronto entre a força da natureza e os limites do corpo humano.

A jornada tinha, além de metas científicas, um objetivo maior: entrar para a História. O capitão Robert Falcon Scott deveria ser o primeiro a chegar ao Polo Sul. De fato, ele e mais quatro aventureiros conseguiram vencer as intempéries e atingir o ponto mais meridional da Terra em janeiro de 1912.

Crédito: Hebert Ponting / University of Cambridge 

 

Seria uma conquista gloriosa não fosse por dois motivos: uma vez no polo, Scott descobriu que outra expedição, do norueguês Roald Amundsen, tinha chegado primeiro. E também porque o capitão e seus companheiros morreram, de fome e de frio, tentando voltar à base.

Em janeiro de 2011, o navio da expedição chegou à região de Ross Dependency, parte do continente gelado ao sul da Nova Zelândia, área dominada por uma gigante plataforma branca, conhecida como “Grande Barreira de Gelo”.

Foi na borda dessa plataforma que os homens desembarcaram cães, trenós motorizados, pôneis e até uma cabana de madeira pré-fabricada. Mas a escolha pelos cavalos não foi das mais brilhantes: usados para o transporte de mantimentos pesados naquele ambiente inóspito, eles morriam de exaustão.

Dois foram vítimas de orcas quando flutuaram em um bloco de gelo. Os trenós motorizados também não resistiram ao frio: logo pifaram, deixando os aventureiros em apuros. A solução, no fim das contas, foi fazer com que os cães puxassem os trenós.

Dois destinos

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Dos dois homens acima, só um sobreviveu à Terra Nova: o fotógrafo Herbert Ponting, autor da bela foto da gruta de gelo à direita, com o navio ao fundo. Um senhor de meia-idade, Ponting não participaria da viagem rumo ao polo, permanecendo na costa e voltando à civilização.

Ficou conhecido como o grande fotógrafo da época heroica das explorações nesse continente. Já o capitão Scott, à esquerda, viu dois de seus companheiros de conquista do Polo Sul perecerem – de queimaduras de frio, gangrena e cansaço – antes que ele mesmo fizesse uma última anotação em seu diário: “O fim não pode estar distante. É uma pena, mas acho que não consigo escrever mais”.

Scott e dois homens estavam encurralados por uma nevasca. Morreram a 17 quilômetros de um grande depósito de suprimentos.

Vitória da ciência 

Os aventureiros abaixo são o geólogo Thomas Griffith Taylor e o meteorologista Charles Wright. Doze estudiosos participaram da expedição que, apesar de famosa pelas mortes do grupo que foi ao Polo Sul, realizou feitos científicos notáveis. Dos 2.100 animais, plantas e fósseis que a Terra Nova levou para a Inglaterra, 400 eram novidade para a ciência.

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Quando os corpos do capitão Scott e seus companheiros foram encontrados, eles traziam consigo fósseis antárticos de Glossopteris, um tipo pré-histórico de samambaia. Uma planta encontrada também em lugares muito mais quentes, como a Índia e a África.

A descoberta revelou que a Antártida já teve calor suficiente para abrigar árvores. E mais: que já foi unida a outros continentes da Terra. A morte dos expedicionários não foi em vão.