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Triunfo do bom senso: O encontro entre Lenin e Percival Farquhar

Os dois homens sentados naquela sala de aspecto espartano não podiam ser mais diferentes

Coluna - Ricardo Lobato Publicado em 15/05/2021, às 09h00

Percival (à esqu.) e Lenin (à dir.)
Percival (à esqu.) e Lenin (à dir.) - Biblioteca Nacional e Pavel Semyonovich Zhukov, via Wikimedia Commons

Em pleno inverno russo, com manifestações e tiros ainda sendo ouvidos do lado de fora, um pequeno gabinete seria o palco de um diálogo improvável. Essa não é uma história de heróis ou vilões.

Os personagens aqui retratados já foram chamados tanto de “visionários” como de “cruéis”. Apesar das diferenças, principalmente ideológicas, nada impediu que dialogassem.

A austeridade do local onde esse encontro se deu retratava especialmente a personalidade do primeiro, russo e um dos grandes protagonistas da “era dos extremos”:  Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido como Lenin – um dos arquitetos e o principal ideólogo da Revolução Russa, além do primeiro líder da União Soviética. Adepto de Karl Marx, tornou realidade o que eram apenas ideias, ao materializar a criação do primeiro Estado socialista do mundo.

Chamado por seus camaradas de “sonhador pragmático”, ele sabia ouvir e, principalmente, conseguia ser ouvido por múltiplos públicos. Tanto seus admiradores quanto seus críticos são unânimes em ressaltar que, não fosse Lenin e a Revolução por ele desencadeada, o século 20 teria sido bem diferente.

O segundo homem naquele gabinete era o norte-americano Percival Farquhar. Empresário e industrial, fazia parte da chamada “segunda geração de capitalistas”. Enquanto a primeira geração – de Rockefeller, Vanderbilt e J.P. Morgan – tornara possível a ascensão dos EUA a potência industrial, a geração de Farquhar buscava expandir as empresas norte-americanas para o mundo. Essas andanças o levaram a lugares tão distintos como Cuba, Brasil e o Império Russo.

Possuía diversos negócios, que iam de hotéis a siderúrgicas. No Brasil, foi o
idealizador de algumas empreitadas como a Light Power no Rio de Janeiro e o Grande Hotel no Guarujá, litoral de São Paulo. Entretanto, como sua principal área de atuação era a infraestrutura, ficou mais conhecido no país por conta das ferrovias: a malfadada Madeira-Mamoré e a Brazil Railway Company – esta última bastante associada à Guerra do Contestado.

As ferrovias também eram seu maior empreendimento na Rússia pré-revolucionária, onde conseguira a concessão das estradas de ferro com o monarca Nicolau II. Justamente por isso o caminho de Farquhar se cruzaria com o de Lenin.

No meio do processo iniciado com a Revolução de Outubro de 1917, todas as concessões estrangeiras haviam sido revogadas. Vendo seus investimentos ameaçados, Farquhar partiu para a Europa. Atravessou o continente – que ainda se recuperava da devastação da Grande Guerra – para chegar à Rússia e conseguir ser recebido por Lenin.

Passada a efervescência da Revolução, havia a Guerra Civil. Lenin, o revolucionário, sabia dos custos de uma guerra. Como o Comunismo de guerra não funcionara, acabara por adotar a Nova Política Econômica (NEP) e Farquhar, o Capitalista, se dispunha a investir no recém-criado Estado.

Se para um o investimento não apenas contribuiria para o esforço de guerra, mas também ajudaria a dar credibilidade à União Soviética perante o mundo, para o outro, representava a possibilidade de, mais que manter seus negócios, expandi-los.

Por mais que discordassem em muitos pontos, e representassem ideais opostos, os dois homens conseguiram enxergar o benefício mútuo. A despeito de suas diferenças, esse diálogo representou o triunfo do bom senso.


Ricardo lobato é sociólogo e mestre em economia pela Unb, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro e Consultor-Chefe de Política e Estratégia da EQUILIBRIUM – Consultoria, Assessoria e Pesquisa.