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Entenda o que foi a 'Revolução Cultural' na China

O plano resultou na perseguição de vozes dissidentes dentro do Partido Comunista e de intelectuais que questionavam o maoismo

Alexandre Carvalho Publicado em 04/07/2021, às 10h00 - Atualizado às 19h22

Mao Tsé-Tung, Lin Biao e os Guardas Vermelhos
Mao Tsé-Tung, Lin Biao e os Guardas Vermelhos - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Quando dezenas de milhões de pessoas morrem por culpa do próprio governo, a receita para que seus líderes continuem no comando costuma ser a mesma mundo afora: overdose de autoritarismo.

Essa sempre foi a marca do Partido Comunista Chinês, e tem sido o argumento dos que se dizem “anticomunistas” contra políticas consideradas socialistas — mesmo as que só propõem avanços sociais.

Isso, claro, é confundir socialismo com autoritarismo, mas a confusão tem razão de ser: tanto na União Soviética quanto na China, os expoentes comunistas do século 20, esses dois conceitos estiveram ligados como unha e carne.

Após o fracasso retumbante do Grande Salto, Mao Tsé-tung seguiu o manual dos ditadores da história e deu início a um movimento, a partir de 1966, de modo a perpetuar sua posição central na liderança do Partido Comunista — e, portanto, do país.

A desculpa da chamada Revolução Cultural era varrer da sociedade chinesa todas as
impurezas do pensamento capitalista, substituindo-o pelo maoismo, o pensamento vivo do próprio Mao.

Fotografia de Mao Zedong / Crédito: Domínio Público/ Hou Bo/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Na prática, ele promoveu uma perseguição sanguinolenta contra vozes dissidentes dentro do próprio partido, e mais violenta ainda contra professores, intelectuais, estudantes e qualquer outro tipo de trabalhador que não fosse a pura expressão da lealdade à sua figura inquestionável.

Para que ninguém tivesse dúvida sobre a filosofia a ser seguida, o PCC lançou seu Pequeno Livro Vermelho — uma coletânea de citações do próprio presidente, que se tornaria peça-chave do culto à sua personalidade.

Sob pretexto de educar ideologicamente a população, o Partido Comunista imprimiu cerca de 900 milhões de exemplares, o que torna esse guia do maoismo o segundo livro mais vendido da história, perdendo apenas para a Bíblia.

Se a questão toda se resumisse à obrigatoriedade dessa leitura, nem estaríamos falando da Revolução Cultural aqui. O problema é que esse movimento disseminou uma política de perseguição, desrespeito aos direitos humanos, prisões arbitrárias e assassinatos em nome do partido.

Fotografia de Mao Zedong, Deng Xiaoping e Wang Jiaxiang, respectivamente / Crédito: Domínio Público

 

Crianças eram premiadas se delatassem os próprios pais “conspiradores”. Os inimigos do Estado que não eram executados podiam passar por uma série de humilhações públicas, como a obrigação de caminhar com cartazes onde se liam seus supostos crimes — que podiam ser “apoio aos proprietários de terra” ou o vago “conspiração contra
o partido”, entre outros. E a população era incentivada a cuspir, ofender ou descer a porrada nos coitados.

Muitos cientistas fugiram do país na época ou cometeram suicídio. O número estimado de mortos chegou a 20 milhões de chineses. Nesse período, que duraria intermináveis dez anos, estudantes e outros jovens que idolatravam Mao Tsé-tung formaram uma Guarda Vermelha, organização civil policialesca incentivada pelo governo para perseguir suspeitos de oposição — com violência extrema — e destruir o que lembrasse a antiga cultura chinesa, tudo que fosse anterior ao pensamento de Mao.

Uma das vítimas da truculência desses jovens foi justamente o homem que lideraria a China após a morte do Grande Timoneiro: Deng Xiaoping.

Embora tivesse posição de destaque no Partido Comunista, Xiaoping não agradava a outros caciques da organização por causa de seu pragmatismo pouco doutrinário. Então, durante a caça às bruxas que foi a Revolução Cultural, ele se tornou um alvo.

Teve sua casa revistada e foi espancado e abusado junto com sua esposa, até ser exilado, longe dos centros de poder. Perdeu toda a sua autoridade e foi encaminhado para trabalhar como operário numa fábrica de tratores.

Seus filhos foram coagidos a delatar os crimes do pai, e um deles, durante um interrogatório, “caiu” de uma janela, ficando paraplégico. O terror particular desse chinês reformista só terminou quando Mao Tsé-tung morreu, em 1976, o que deu fim às barbaridades da Revolução Cultural.

Xi Jinping durante discurso para milhares de chineses em 2021 / Crédito: Getty Images

 

Xiaoping recuperou seus direitos políticos e logo se tornaria o número 1 do Partido Comunista — uma clara demonstração de que ninguém aguentava mais os descalabros da era de Mao. Ainda assim, a China não se permite até hoje — cem anos após a fundação do partido dominante — admitir que as décadas sob o Grande Timoneiro foram uma tragédia econômica e humanitária.

Preferem exaltar seus feitos, como a unificação do país e a expulsão dos invasores japoneses. De certa forma, o PCC teme que virar as costas ao período em que Mao foi o próprio rosto do partido abra janelas para questionamentos de um regime que, apesar de capitalizado pelas reformas de Xiaoping, não tem nenhuma intenção de se tornar uma democracia.

Os chineses viram de perto como as políticas de abertura da Glasnost contribuíram para o colapso da União Soviética, com agitações nacionalistas, separatismo e perda de relevância no cenário global.

A economia de mercado de Xiaoping, mantida por seus sucessores — incluindo o atual Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping —, foi responsável por transformar um gigante combalido numa superpotência, capaz de rivalizar com os Estados Unidos.

Mas essa revolução, se evitou aventuras tresloucadas, também não quis saber de direitos humanos ou liberdade de expressão. Mudou para não ter de mudar muita coisa. E assim o mausoléu com o corpo embalsamado de Mao Tsé-tung, o homem por trás de dezenas de milhões de mortes, continua uma atração turística na Praça Tiananmen,
o coração político e tradicional de Pequim.


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