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A Bíblia é verdadeira ao descrever o Cativeiro da Babilônia?

A visão que conhecemos do texto sagrado pode não ter sido escrita de uma maneira tão realista

Coluna - André Nogueira, historiador Publicado em 25/04/2021, às 09h00

The Flight of the Prisoners (1896), por James Tissot
The Flight of the Prisoners (1896), por James Tissot - Wikimedia Commons, Domínio Público

A história daqueles que escreveram a Bíblia é fortemente marcada pela invasão do Reino de Judá por Nabucodonosor II em 586 a. C., quando, em decorrência da expansão dos caldeus, o Templo construído por Salomão é posto ao chão e os judaístas passam a sofrer as mesmas pressões demográficas impostas sobre qualquer povo derrotado pelos babilônios.

O tema do Cativeiro é abertamente relevante para o mundo judeu (e, por consequência, o cristão) quando se trata, inclusive, à conotação dada à imagem da Babilônia entre os religiosos. Como tema, a questão do Exílio é corriqueiramente tratada no próprio texto bíblico (escrito máximo da história israelita), se demonstrando um ponto de abrupta relevância nos livros de Jeremias, Ezequiel, Daniel, Ezra, Neemias, Ester e, claro, no último livro de Reis, ao se tratar de Zedequias, o rei conquistado, além de aparecer tangencialmente em Lamentações.

Por outro lado, a vida desses judeus exilados é quase nada descrita na Torá. Ora, é clara a importância da Babilônia no texto do Antigo Testamento, e a ambientação da querela com Nabucodonosor é um elemento essencial para o judaísmo, uma vez que ela dá vida recente àquela narrativa mítica apresentada no Êxodo do Egito, dando historicidade a uma narrativa cuja memória já seria muito mais remota (pois nunca aconteceu efetivamente).

Isso é claramente visível na roupagem distinta dada a Nabucodonosor, que representa a chaga de um povo, e a, por exemplo, Ciro da Pérsia, a quem é estendida uma valoração positiva, um elemento de salvação em compacto com os planos divinos.

Crédito: Wikimedia Commons

 

À esquerda, fragmento de arte da Abadia de Zwiefalten representando Zedequias segurando o mapa de Jerusalém e sendo atacado por Nabucodonosor (com um capacete, elemento militar), em que o Rei de Judá aparece essencialmente numa roupagem régia (literalmente, usando como veste a pele de um leão), como é normal na tradução barroca de alegorização da imagem e representação épica positiva dos protagonistas bíblicos; à direita, uma marginália da Historia Scholastica, paráfrase da Bíblia escrita no século XII, ilustrando o exílio de Zedequias, que aparece tão rei quanto Nabucodonosor (repare as coroas), mas subjugado, inferiorizado.

Repara-se que as representações distintas do Rei de Judá leem o período de maneira distinta, e a Bíblia não poderia fugir a essa regra: há uma representação de Zedequias, um mau rei que mantém uma relação de vassalagem com a Babilônia (o mal).

Nessa visão, a queda de Jerusalém foi uma punição divina pelo afastamento da comunidade da Aliança declarada a Moisés, que fez dos judeus uma má comunidade. Depois, a reafirmação de ser o oposto do que foi este soberano, com o cumprimento estrito do Decálogo, será parte essencial do projeto de reerguimento de Jerusalém. Por conta dessa versão monofacetada da Bíblia, temos em mente, ao se abordar o Cativeiro na Babilônia, uma imagem amorfa e acrítica ligada à ideia de uma escravidão generalizada (como teria sido no Egito, a princípio).

Mas, documentos importantes do Oriente Próximo relativos ao Levante preenchem lacunas históricas do nosso conhecimento sobre esse tema. Conhecidos como Arquivos de Al-Yahudu (no acadiano, "Vila dos Judeus"), essa série de documentos em cuneiforme na argila é de um período anterior à Torá e a dominação Aquemênida e é composta por documentos corriqueiros do dia a dia econômico e social dos judeus na caldeia: contratos de aluguel e de trabalho, atas, laudas de documentos oficiais e burocráticos que mostram outro lado desse período mal conhecido, que fogem à visão tradicional do tema.

Isso porque os documentos históricos apontam para o desenvolvimento de uma comunidade judaica na Babilônia (o que era normal para qualquer povo conquistado) com vantagens e uma vida relativamente mais fácil que muitos subjugados.

Fato é que "as realidades cotidianas documentadas pelos arquivos de Al-Yahudu afastam-se significativamente da construção memorial negativa por parte dos textos bíblicos. Contrastam também com a vida de corte da família real e dos dignitários aprisionados no palácio da capital" aponta Marcelo Rede, especialista em antiguidade próximo oriental da USP, em Al-Yahudu: os arquivos do exílio babilônico.

Seguindo essa lógica, a descrição hecatômbica da suposta escravidão judia na Babilônia é, acima de tido, um encobrimento literário de uma realidade distinta e muito mais diversa que a conhecida. Diferente de povos que foram separados, exterminados, ou subjugados à venda como escravos, os judaítas levados à cidade imperial gozavam de status mais vantajoso.

De acordo com a documentação, os integrantes minimamente mais abastados dessa comunidade dominada foram realocados para as terras régias, que usufruíam de uma administração particular e, portanto, de regras específicas.

Tornar-se-iam administradores menores ou produtores ligados à terra, o que, no mundo antigo, era feito por trabalhadores que, mesmo fora do âmbito da liberdade plena, estavam longe de serem escravos. Condição conhecida como shushanu (originalmente, o homem que cuida dos cavalos), status que, à época, representava uma pessoa que era livre e tinha contato com o alto escalão ao trabalhar diretamente para o Palácio. Essa posição privilegiada colocava os judaístas em uma situação de dominação muito mais confortável e passível de recriação de laços vantajosos aos trabalhadores palacianos.

A destruição de Jerusalém /Crédito - Wikimedia Commons, Domínio Público

 

É o que sustenta Rede sobre a leitura dos documentos de Al-Yahudu: “A trajetória de muitas famílias mostra que, com o tempo, há um reforço de sua posição econômica e status social, inclusive com a ocupação de postos fundamentais na administração palaciana local , como responsáveis pelas corveias e pelo recolhimento de taxas (dekû) e mesmo como chefes de vilarejo (como Shalam-Yama, Yama-izri e outros)”.

Diretamente posterior ao Exílio Babilônico, à construção da Bíblia Hebraica partiu de uma necessidade de apontar os recém-destruídos caldeus como inimigos, opostos a uma nova sociedade que será reerguida (junto a seu templo a Yahweh e seu palácio para um rei descendente de Davi) em Jerusalém sob a égide do monoteísmo israelita e centralizador.

Nessa época, após 539 a.C., a Pérsia era mandatária no Oriente Próximo e possibilitou aos judaístas, retornados e fora de Babil, uma relação mais vantajosa como reino vassalo. Por isso, Ciro é descrito positivamente na literatura histórica da Torá.

Para tanto, foi necessária uma imagem de horror do tempo de submissão aos mesopotâmios e representação dos aquemênidas como libertadores.

Fruto do reerguimento centralizador, que envolveu uma reforma religiosa também centralizadora calcada no monoteísmo mosaico, é o texto bíblico que nasceu na Israel Antiga, oriundo de verbetes e literaturas ancestrais das mais diversas origens e naturezas, e com referências a exemplos como Moisés ou Josias.

A Bíblia Hebraica é, portanto, arte desenvolvida por um programa histórico, político e cultural (com isso, religioso) e possui uma valoração profundamente memorialística.

A lembrança do Cativeiro Babilônico, como é feito na Torá, tem razões históricas e, por isso, foi descrita assim, a partir de referências próprias daquele povo e das necessidades e agendas do período em que foi canonizada.


André Nogueira é historiador, formado pela USP (Universidade de São Paulo). 


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