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Energia elétrica na antiguidade? Conheça a curiosa Bateria de Bagdá

Recipientes de argila intrigaram pesquisadores há anos, contudo, o assunto é marcado por uma quebra de expectativas

Coluna - André Nogueira, historiador Publicado em 04/04/2021, às 10h00

Representação da Bateria de Bagá
Representação da Bateria de Bagá - Wikimedia Commons

Por dois anos, uma série de objetos bastante curiosos permaneceu intocada no acervo do então Museu de Antiguidades de Bagdá (atual Museu Nacional do Iraque).

Trata-se de receptáculos de argila encontrados em uma expedição no sudeste bagdali, área conhecida como Khujut Rabu, que conta com diversas características únicas, só reveladas com a descrição publicada em estudo de 1938, do arqueólogo alemão e diretor do museu, Wilhelm Konig.

Konig reparou que esses artefatos possuíam clara corrosão por ácidos em seu interior, que compartilhava espaço com um tubo interno feito em cobre e um tampo superior de betume.

Em um artigo em língua alemã publicado como ‘Um elemento galvânico da era parta?’ (em tradução livre), ele concluiu que aqueles elementos, em conjunto, poderiam ser ferramentas para a fabricação de pequenas correntes elétricas. Por isso, o vaso foi apelidado de Bateria de Bagdá.

Segundo o pesquisador, as partes que compõem o objeto são as mesmas necessárias atualmente para realizar a galvanização, processo que teria sido usado para folhear talheres em prata, ouro ou cobre.

Seria necessário encher o vaso com alguma substância ácida eletrolítica que produzirá corrente elétrica em interação com o cobre. O próprio Konig realizou testes com sucos ácidos e vinagre e concluiu que a reação é possível e capaz de produzir um volt de eletricidade.

Essa conclusão leva a uma instigação óbvia: tinham os antigos, portanto, acesso à eletricidade? Se sim, trata-se de uma brutal quebra de paradigma na arqueologia (o que Konig acreditava ter criado), e que, portanto, exige uma revisão panorâmica do nosso conhecimento sobre o mundo antigo (essencialmente, no caso, médio oriental).

Como é possível esse conhecimento sobre a eletricidade? Ele não foi usado de maneira ampla na sociedade? As fontes abarcam esse conhecimento que existiria 250 anos antes da Era Cristã? Há citações a essa tecnologia?

O que parece frustrante é o fato de nenhuma dessas perguntas apresentarem respostas que contribuam com a hipótese de Konig. Com a (não tão) vasta documentação que temos da realidade parta, persa, mesopotâmica etc.; não parece o caso de a eletricidade ser algo presente. Os vestígios descritos por Konig foram bem apontados, mas parecem merecer maior aprofundamento para compreender do que se trata a Bateria de Bagdá.

É possível?

Inicialmente, faz-se necessário perguntar: é possível realmente utilizar a eletricidade que Konig aponta ser crível de se produzir nesses vasos? A maioria dos pares que revisaram essa teoria, incluindo Lenny Flank, James Doeser e equipes da Universidade de Michigan, compreende que não há evidências dessa possibilidade.

Muitos, por exemplo, indicam que o betume seria uma péssima escolha de tampo para uma célula galvanizadora, uma vez que é isolante eletricamente. Ou seja, independente da capacidade do interior de produzir baixas cargas, seria impossível ter acesso a esse produto. Lack, pesquisador amador que publicou o artigo The Baghdad Battery, chega a apontar que não há qualquer conexão elétrica entre o interior e a tampa do vaso.

Onde teriam sido galvanizados os talheres folheados em metais preciosos? No interior do fluído? Essa confusão faz necessária a realocação do foco: esses talheres foram realmente galvanizados, como aparentam? Quem respondeu a essa questão foi Paul Craddock, especialista em metalurgia do Oriente Médio no Museu Britânico, que achou importante fazer uma análise mais profunda sobre esses objetos e concluiu que nenhum processo elétrico foi necessário para folhear o metal.

Quebra de expectativas

O material de garfos da época demonstra que, para a sua produção, foi somente necessário um já conhecido procedimento utilizando propriedades do mercúrio sob o ouro: "Os exemplos que vemos nesta região e era são o folheamento a ouro convencional e o dourado com mercúrio. Nunca houve qualquer evidência irrefutável para apoiar a teoria da galvanoplastia", disse ele em entrevista à BBC.

A quebra de expectativas criada por todas essas evidências torna-se confusa quando paramos para pensar nos registros de galvanização apontados por Konig no século 20: parece estranha a corrosão interna do objeto, como se por lá tivesse passado algum ácido intencionalmente.

Porém, explicações alternativas podem muito bem abranger esses apontamentos, se percebidos sob outras perspectivas. O arqueólogo do North Hertfordshire Museum, Keith Fitzgerald-Matthews, argumenta que os objetos descritos por Konig são similares a um objeto comum e muito conhecido: vasos para o armazenamento de textos sagrados em papiros, mais especificamente, os identificados na Selêucia do Tigre (procurar pelo blog Bad Archeology, The ‘batteries of Babylon’).

Esses artefatos foram encontrados poucos milhares de anos após seu abandono e devem ser lidos tendo a deterioração causada pelo tempo como fator crucial: os vasos portavam peças de material orgânico que, depois de longa decomposição e esquecimento, alteraram as “Baterias de Bagdá” mesmo após nenhum contato humano. Os detritos ácidos desse apodrecimento são uma explicação bastante plausível para as marcas de corrosão da argila.

Tudo leva a crer, portanto, que a hipótese das câmaras de galvanoplastia foge bastante à realidade possível de concluir a partir de todo conhecimento arqueológico que temos sobre o tema.

Fato é que, entre arqueólogos de carreira, leitores profissionais e críticos do passado, não há quem acredite na proposição das Baterias. Ao mesmo tempo, é uma pena que na atualidade seja impossível realizar mais estudos com esses objetos em mãos, uma vez que o arquivo em que eles estavam foi um desses muitos levados pela onda de destruição e saques movida entre o caos e a balcanização proporcionados pela invasão ilegal ocorrida no Iraque em 2003.