E Roosevelt inventou o chapéu

Feito para camponeses pobres no equador, o Panamá virou grife de luxo

Valéria França Publicado em 05/06/2017, às 10h12 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Roosevelt nas obras do Canal do Panamá: lançando moda
Roosevelt nas obras do Canal do Panamá: lançando moda - divulg
Em 6 de novembro de 1906, o presidente Theodore Roosevelt saiu dos Estados Unidos para negociar ajuda para o término da construção do Canal do Panamá. A obra, que ligaria o Atlântico ao Pacífico, havia começado em 1880 e se arrastava. Era um grande evento: pela primeira vez um presidente deixava o país em missão diplomática. Nas ruas de Porto Rico, para se proteger do sol, Roosevelt usou um chapéu comum entre os trabalhadores locais, conhecido como El Fino e fabricado
no Equador. A foto de Roosevelt com o acessório na cabeça foi estampada em todos os jornais do mundo. Bastou para criar uma lenda. Aquele chapéu usado apenas por latinos pobres ficaria famoso mundo afora. Roosevelt não tirava El Fino da cabeça. Foi com ele até o Panamá inspecionar as obras do canal. Batizar o chapéu como “panamá” pareceu algo natural.
O chapéu panamá explodiria depois da Segunda Guerra. Antes disso, era exclusividade dos guarda-roupas de homens poderosos – ou que desejavam ser –, como o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o aviador Santos Dumont e o presidente Getúlio Vargas. Astros de Hollywood , a exemplo de Humphrey Bogart e Clark Gable, também aderiram à moda. Foi nos anos 40, duas décadas após a abertura do Canal do Panamá, que o aumento da atividade econômica na região fez com que os
produtos dos países daquela região ganhassem projeção. O chapéu panamá transformou-se em uma marca desejada.
O chapéu parece ter surgido na cidade andina de Cuenca, 441 km ao sul de Quito. Patrimônio da Humanidade, o local começou a ser ocupado muito antes da chegada dos espanhóis.
Em 8000 a.C., caçadores-coletores já vagavam por ali. A região tinha vocação agrícola e sol forte, o que fez surgir o sombreiro de palha toquilla, a mesma do chapéu panamá, usado por agricultuores. A toquilla é tirada de uma palmeira (Carludovica palmata) típica de locais quentes e úmidos. A seleção para fazer os panamás é feita a partir das cores, elasticidade e espessura da palha. Quanto mais fina – daí o nome original El Fino –, mais caro o chapéu, que pode chegar a custar até US$ 3 mil. Fora do país, alguns modelos valem dez vezes mais. Até hoje os panamás são confeccionados por famílias de agricultores.
Ao menos uma vez por semana, representantes das fábricas passam nos povoados recolhendo os chapéus, que são levados para um processo de branqueamento, mergulhados em tanques. Uma vez por dia, são virados, para que fiquem com cor uniforme. Depois, secam ao sol, passam por prensas a vapor, que dão o formato final, e só então recebem enfeites, como fitas e outras variações de adereços. Cuenca tem o maior polo de fábricas. Uma das maiores, a Homero Ortega, abriga o Museu La Magia del Sombrero.

A cabeça da revolução
O republicano espanhol Manoel Alfaro, que chegou ao Equador como exilado político, foi o responsável por transformar a cultura artesanal dos chapéus em negócio sério no país. Em 1835, ele se estabeleceu em Montecristi com o objetivo de montar o que seria a maior rede de artesãos especializados em chapéus para exportação. Das cidades portuárias de Guayaquil e Manta, passou a enviá-los ao Panamá. De início, o principal cliente foi a Califórnia, nos EUA. Em 1850, a empresa de Alfaro
chegou a vender 220 mil chapéus para os americanos. Seu filho, José Eloy Alfaro, expandiu as vendas a ponto de transformar a economia local.
José Eloy tinha muita influência política. O dinheiro das exportações do chapéu panamá financiou a Revolução Liberal Equatoriana – que teve como conquistas notáveis a separação entre a Igreja e o Estado e a legalização do divórcio. Em 5 de junho de 1895, José Eloy tomou posse como presidente do Equador, fato que ajudou a fomentar ainda mais a indústria do chapéu no país. Governou até agosto de 1901, e voltou a assumir o cargo entre 1907 e 1911.