Inglesidade

Uma breve história do valor da liberdade para o povo inglês

Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke e Peter Burke Publicado em 10/09/2016, às 11h44 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Um contrariado rei João assina a Magna Carta
Um contrariado rei João assina a Magna Carta - Getty Images
As nações têm a história que merecem? Pode soar estranho colocar a questão nesses termos, pois assim como os poloneses não queriam ser invadidos no século 18 pelos prussianos, russos e austríacos e desaparecer do mapa até 1919, e muitos irlandeses não queriam fazer parte do Reino Unido, há muita coisa na História dos povos que acontece à revelia de suas vontades. No entanto, é difícil não admitir que a História das nações ao mesmo tempo molda e é moldada pelo seu meio geográfico e pelos valores de seus habitantes. Por ser uma ilha, a Grã-Bretanha, por exemplo, tornou muito mais difícil uma invasão externa; e por ter reservas de carvão, a Revolução Industrial, da qual foi a líder mundial, foi facilitada. Por outro lado, podemos ver a História de uma nação como expressão dos valores de uma cultura, valores cujas origens são remotas e difíceis de precisar com exatidão.

Anglofilia 
Nikolaus Pevsner, um historiador de arte alemão que se refugiou na Inglaterra quando Hitler subiu ao poder, publicou um livro intitulado A Inglesidade da Arte Inglesa, apontando para o que chamou de “understatements”, ou a ausência de qualquer ostentação, como um traço muito peculiar e louvável dos ingleses que se reproduzia na arquitetura. De modo semelhante, podemos explorar a ideia da “inglesidade” da História inglesa, que, ao lado da admiração pelas instituições que ela criou, está por trás do fenômeno da anglofilia.  
A anglofilia, ou a admiração pelos ingleses e por muito do que a eles se refere, tem uma longa tradição. O francês Voltaire, o alemão Goethe e Mazzini, o pai do nacionalismo italiano, estão entre seus mais ilustres representantes, assim como o barão Pierre de Coubertin, francês que fundou os Jogos Olímpicos modernos no final do século 19. Dentre os aspectos da “inglesidade” mais admirados estão as boas maneiras, estabilidade, moderação, bom senso, tolerância da diversidade, amor à Justiça, ao jogo limpo e à sábia combinação de mudança com continuidade; mas, talvez acima de tudo, o respeito pelo estado de direito (rule of law) e o culto à liberdade.  
 No Brasil, os escritores Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Gilberto Freyre se destacam entre os anglófilos convictos e confessos. Quando jovem e frustrado com sua condição de brasileiro, Freyre chegou a lamentar-se: “Por que não nasci inglês...?” E Rui Barbosa, grande admirador das instituições liberais inglesas, dizia que sua “pátria espiritual” era a Inglaterra.

Mito
Como em outros países, há muito de mito na História que os ingleses contam de si mesmos; nela se percebe muitas vezes a tendência a se representarem como um franzino David enfrentando o gigante Golias, este encarnado nas figuras de Felipe II da Espanha, Napoleão Bonaparte ou Adolf Hitler. O episódio da Batalha da Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial, quando Hitler tentou invadir a Grã-Bretanha em 1940, mas foi derrotado, é interpretado como uma reencenação da Armada Espanhola de 1588, quando os espanhóis tentaram atacar a Inglaterra por mar, e sucumbiram. 
Em ambas as situações o poder dos inimigos é exagerado. Esses mitos não estão dissociados, no entanto, dos valores compartilhados, e nesse caso é a compaixão pelos oprimidos que nele se expressa, especialmente quando o agressor com quem eles lutam usa sua força superior de forma abusiva, para intimidar e ameaçar. Há outros aspectos da História inglesa que expressam valores que os ingleses têm em alta estima, em especial a liberdade e o estado de direito, que estão intimamente interligados. 

Magna Carta
O estado de direito já era um ideal na Idade Média, mas foi a Magna Carta de 1215, selada como um acordo político entre o rei inglês João e os barões ingleses, limitando o poder absoluto do monarca da Inglaterra, que se tornou ao longo dos séculos um símbolo da liberdade e da ideia de que a lei governa a todos, sem nenhuma exceção. O ex-presidente americano Abraham Lincoln, por exemplo, se inspirou nela na luta contra a escravidão, e o líder sul-
africano e prêmio Nobel Nelson Mandela se referiu a ela durante seu julgamento em 1964, como “um documento venerado por democratas  ao redor do mundo”. 
Na Inglaterra, nos 800 anos desde a assinatura da Carta, a relevância desse documento feudal para o mundo moderno foi questionada e muitas de suas 60 cláusulas foram revogadas por serem consideradas obsoletas ou redundantes. O que se manteve, no entanto, foi a autoridade frequentemente invocada quando se trata de afirmar os direitos das pessoas comuns contra a opressão e o poder arbitrário de onde quer que venham; ou, como já se dizia nos séculos 13 e 14, o monarca deveria “manter e observar a carta das liberdades da Inglaterra”, e ninguém poderia ser aprisionado ou executado “sem o devido processo da lei”. 
No século 17, o Parlamento apelou ao documento para buscar apoio para o argumento de que o rei Carlos I estava infringindo as tradicionais liberdades inglesas. A Guerra Civil inglesa (1642-1651), o julgamento e a execução do rei e um governo republicano que se transformou em ditadura militar sob a liderança de Oliver Cromwell podem ser interpretados como eventos excepcionalmente violentos numa História marcada por “revoluções brancas”, em que as mudanças tendem a ser pacíficas e graduais. Mais condizente com a Magna Carta e com os valores que ela expressa foi a Revolução Gloriosa, de 1688, que terminou com a monarquia absolutista na Inglaterra, depondo o rei Jaime II e elevando ao trono o príncipe holandês Guilherme de Orange. As condições sob as quais o monarca deveria governar foram determinadas pelo Parlamento, com a Declaração de Direitos (Bill of Rights), de 1689, uma nova Magna Carta. 

Habeas corpus
Símbolo do venerado estado de direito é o requerimento legal conhecido como habeas corpus (literalmente, “você pode ter o corpo”), de acordo com o qual um indivíduo que foi preso deve ser levado a um tribunal para ser ou libertado ou acusado de um crime; ou seja, um instrumento jurídico que protege os indivíduos contra a detenção arbitrária. Tal costume medieval – cujo primeiro exemplo parece anteceder a Magna Carta – foi reforçado pelo Habeas Corpus Act, de 1679.  
O recurso legal do habeas corpus, que salvaguarda a liberdade dos indivíduos – e tem reconhecidamente “um status mítico na psique do país” – foi invocado numa ocasião memorável, em 1772, quando um escravo africano, James Somersett, trazido para a Inglaterra, foi libertado após ter impetrado habeas corpus. A defesa, que se baseou em questões legais, e não em princípios humanitários, alegou que sua escravidão era ilegal, pois nenhuma lei, escrita ou não, reconhecia a existência da escravidão na Inglaterra. “O ar da Inglaterra tem sido há tempo muito puro para um escravo, e todo homem que o respira é livre.” 
Já nessa época era comum a quem visitava a Inglaterra chocar-se com o “fanatismo” com que os ingleses defendiam as liberdades conquistadas. Um jornalista holandês, por exemplo, referiu-se em 1718 a “uma extravagância excessiva que vem do amor desmedido que eles têm pela liberdade. Tudo que incomoda, tudo que constrange, lhes é insuportável”. Em 1750, uma viajante francesa, a literata madame du Bocage, em visita à Inglaterra, fez a seguinte observação: “Aqui, o amor da liberdade parece tornar seus defensores escravos”. Um sinal da aversão dos ingleses pelo que compromete o seu profundo sentido de liberdade é a antipatia generalizada pela carteira de identidade, considerada uma invasão inaceitável à privacidade e liberdade.  A tentativa feita pelo governo de introduzi-la após os ataques terroristas de setembro de 2001 em Nova York e de 2005 em Londres encontrou uma ampla oposição e fracassou. As carteiras emitidas para voluntários de um projeto piloto – somente 15 000 se dispuseram a aderir a ele – foram consideradas inválidas em 2011 e todos os dados pessoais coletados foram oficialmente destruídos. O ministro da imigração Damian Green declarou: “Isso marca o final derradeiro do esquema de carteiras de identidade: morto, enterrado e esmagado”.