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Ermando Armelino Piveta: A guerra se ganha uma batalha por dia

Anos depois, ele enfrentou e venceu o diagnótico de coronavírus; Piveta, então, declarou: “Uma luta tremenda, mais do que na guerra”

M. R. Terci Publicado em 19/04/2020, às 11h00

Ermando Armelino Piveta, durante a Segunda Guerra
Ermando Armelino Piveta, durante a Segunda Guerra - Wikimedia Commons

Em agosto de 1942, quando a ambição monstruosa de Hitler transformou-se numa guerra total, dispostos a interceptar remessas de alimentos e matérias-primas para a Inglaterra e os Estados Unidos, os nazistas, sem nenhuma declaração formal de guerra, empreenderam uma campanha submarina no Atlântico, na qual atacaram cinco navios brasileiros: Baependi, Itajiba, Araraquara, Aníbal Benévolo e Araras.

E, entre fevereiro a agosto daquele ano, dezenove navios brasileiros foram torpedeados, o que causou a morte de 742 pessoas. Ataques traiçoeiros e covardes a embarcações civis, que levaram o Governo de Getúlio Vargas a abandonar a neutralidade e reconhecer a existência de estado de guerra entre o Brasil e as potências do Eixo.

Sabedor de suas obrigações, em setembro de 1942, o soldado Ermando Armelino Piveta viajou de trem até o Rio de Janeiro com ordens para se apresentar ao efetivo de guerra do 2º Grupo do 4º Regimento de Artilharia Montada – do qual fazia parte.

O 4º Regimento então seguiu a bordo do navio Almirante Alexandrino até Dakar, no Senegal, onde o soldado Piveta e seus companheiros, recebeu treinamento intensivo de guerra com o intuito de prepará-los, em poucos dias, para futuras mobilizações.

O rigoroso e extenuante treinamento ministrado em poucos dias, seguia a severa e inquestionável máxima do general George S. Patton de que quanto mais você transpira no campo de treinamento, menos você sangra no campo de batalha. Logo, o soldado Piveta e seus companheiros compreenderam que dia após dia, enfrentariam sucessivas batalhas e que não poderiam fraquejar, pois aquela guerra, a tal Segunda Guerra Mundial, uma guerra de muitos anos e sacrifícios, se ganharia uma batalha por dia.

Alguns dias depois, o efetivo do 4º Regimento retornou para Maceió-AL, a fim de cumprir missão de guerra. O Regimento, destacado em Pontal do Coruripe e Porto de Pedras, ao longo de todos aqueles dias, manteve-se em alerta total e em condições plenas de defender o nosso território e rechaçar o inimigo estrangeiro até o final da Grande Guerra.

Para quem morava no litoral do Nordeste, a guerra não parecia uma realidade tão distante quanto poderia parecer para os brasileiros de outras regiões. Anteriormente, os cadáveres de homens, mulheres e crianças, oriundos do navio Baependi, torpedeado pelos nazistas, apareceram, trazidos pela correnteza, na praia próxima à Vila de Mosqueiro, na costa do Sergipe. Duzentas e setenta pessoas morreram nessa ocorrência.

Ermando Armelino Piveta quando recebeu alta do Hospital / Crédito: Divulgação

 

Os outros dois navios brasileiros, o Araraquara e o Anibal Benévolo, igualmente atacados por submarinos alemães, somavam quase 300 mortes.

Em novembro de 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB), e soldados de diferentes partes do país foram convocados para formar um corpo de aproximadamente 25 mil militares, que ficariam conhecidos como pracinhas.

Integrados com o 5º Exército norte-americano, os brasileiros atuaram nos combates no norte da Itália, sofrendo pesadas baixas, face enorme e inconquistável contingente alemão, logo no primeiro combate.

Reequipado, o exército brasileiro foi lançado novamente à batalha e teve participação na Batalha de Monte Castello, cuja conquista foi realizada em fevereiro de 1945. Os pracinhas ainda participariam das batalhas de Castelnuovo, Montese – a mais sangrenta, com 426 baixas em quatro dias – e em Fornovo di Taro.

Ao final da guerra, a atuação brasileira havia resultado em 454 soldados brasileiros mortos em combate. Uma guerra de muitos anos e sacrifícios que, conforme profetizado, foi ganha uma batalha por dia.

Com o fim da guerra, em setembro de 1945, o soldado Ermando Armelino Piveta voltou para casa.

Em fevereiro de 2020, um homem de 61 anos de idade, com histórico de viagem para a região da Lombardia, na Itália, deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein. Um novo inimigo havia chegado ao Brasil e, assim, o primeiro caso de Covid-19 foi noticiado em São Paulo. 

Veterano da 2ª Guerra Mundial, o ex-combatente do Exército Brasileiro Ermando Armelino Piveta, aos 99 anos, não se furtou ao combate do inimigo. Após passar oito dias internado no Hospital das Forças Armadas em Brasília, vencendo uma batalha por dia, o segundo tenente Piveta, recebeu alta no dia 14 de abril – no mesmo dia em que se comemora 75 anos da Tomada de Montese, campanha de sucesso das tropas brasileiras na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.

Mesmo fazendo parte do grupo de risco, sendo pela qualidade de idoso mais suscetível a complicações do novo coronavírus, o veterano saiu vitorioso. Segundo Piveta: “Uma luta tremenda, mais do que na guerra”.

Na saída, o segundo tenente parabenizou a equipe médica do HFA e aos militares que lhe prestaram apoio, sendo saudado ao som de aplausos pela equipe da unidade de saúde. “Na guerra, você mata ou vive. Aqui, tem que lutar para poder viver. Saí dessa luta vencedor”, asseverou o corajoso veterano.

E, assim, seguimos na luta. Uma batalha por dia.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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