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Luc Montagnier: o polêmico cientista que afirma que o coronavírus saiu de um laboratório chinês

Um estudo publicado na Nature Medicine, por outro lado, dá a entender que a informação defendida pelo virologista é um equívoco

Vanessa Centamori Publicado em 17/04/2020, às 17h30

Luc Montagnier
Luc Montagnier - Wikimedia Commons

Premiado com o Nobel pela co-descoberta do HIV em 2008, Luc Montagnier é defensor de posições polêmicas, como a homeopatia e a onda da anti-vacina. Agora, a sua mais recente controvérsia é a origem do coronavírus: o pesquisador acredita que a doença foi desenvolvida em decorrência de experimentos feitos em um laboratório chinês. 

O professor comentou, em entrevista ao site francês "Pourquoi doctor?", que não crê que a Covid-19 tenha surgido a partir do mercado de animais de Wuhan. "É apenas uma história da Carochinha, mas não é real", afirmou.

Para ele, na verdade, o vírus teria saído de um laboratório da mesma cidade chinesa — uma instituição especializada no assunto desde os anos 2000. Ele teria chegado nessa conclusão após estudar "nos mínimos detalhes" a sequência genética do patógeno, junto de seu colega, o matemático Jean-Claude Perrez.

"Não fomos os primeiros, já que um grupo de pesquisadores indianos tentou publicar um estudo que mostra que o genoma completo desse coronavírus [possui] seqüências de outro vírus, o HIV, o vírus da AIDS", afirmou.

Luc Montagnier / Crédito: Divulgação / Nobel Prize.org

 

Segundo Montagnier, a sequência do HIV foi inserida no genoma desse coronavírus específico na tentativa de fazer uma vacina contra a Aids. Em decorrência desse processo, teria surgido por acidente o coronavírus causador da Covid-19, que se espalhou pelo planeta. 

Onde está o equívoco?

Um estudo publicado em março pela Revista Científica Nature Medicine explicou que, na verdade, o coronavírus é resultado de uma evolução natural. Para chegar à essa conclusão, cientistas dos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido compararam dados do sequenciamento de genoma das cadeias do vírus SARS-CoV-2, causador da Covid-19. 

"Os dados genéticos mostram irrefutavelmente que o SARS-CoV-2 não é derivado de nenhum antecedente de vírus usado anteriormente", escreveram os cientistas na pesquisa. 

Ao site Science News, a pesquisadora Emma Hodcroft, que faz parte do grupo que estuda mudanças genéticas do vírus, Nextstrain.org, comentou que o estudo publicado na Nature Medicine derruba a teoria que diz que há partes do vírus do HIV no coronavírus. 

Imagem ilustrativa do coronavírus / Crédito: Divulgação 

 

Se considerado o estudo internacional, a hipótese, defendida por Montagnier, muito provavelmente é um equívoco: a Covid-19 não foi originada do laboratório. No máximo, segundo Hodcroft, alguns trechos do material genético do vírus são semelhantes ao HIV, mas isso é apenas algo que deriva daqueles vírus que compartilham um ancestral comum durante a evolução.

Por isso, afirmar que a sequência do HIV foi inserida no genoma do coronavírus é errado. "Essencialmente, é o mesmo que pegar uma cópia do livro Odisséia e dizer: Ah, tem a palavra A aqui. E então, pegar outro livro, ver a palavra A nele e afirmar 'Oh, meu Deus, é a mesma palavra. Deve haver partes da Odisséia nesse mesmo livro", exemplicou a cientista.

Outras polêmicas de Montagnier 

Logo após ser consagrado com o Prêmio Nobel de Medicina, ao lado da pesquisadora Françoise Barré-Sinoussi, Luc Montagnier foi acusado de "desvios científicos". Em 2009, divulgou teorias controversas sobre a origem do HIV.

Em 2010, a Folha de S.Paulo divulgou que as teorias do pesquisador estavam relacionadas com a hemeopatia (uma forma de terapia pseudocientífica). Na palestra "O DNA entre a Física e a Biologia" ele discorreu por meia hora sobre marcas que suspostamente seriam deixadas pelo DNA de algumas bactérias e alguns vírus no arranjo de moléculas de água.

Tal tese era equivalente à "memória da água", um tabu científico que jamais foi comprovado. Além disso, em 2012, a Forbes noticiou que o pesquisador afirmou que, junto à sua equipe, eles teriam encontrado em crianças autistas "sequências de DNA que emitem, em certas condições, ondas eletromagnéticas". 

Imagem ilustrativa de máscara cirúrgica / Crédito: Pixabay 

 

"Análises de teorias biomoleculares nos permitem identificar que essas ondas estão vindo de espécies de bactérias", afirmou o pesquisador. O discurso foi, claro, muito criticado, pelo seu tom pseudocientífico.

Não por acaso, a teoria quântica (uma pseudociência) envolve justamente isso: ondas eletromagnéticas do DNA que supostamente curariam inúmeras doenças, como Alzheimer, Parkinson e Lyme.

Tais afirmações são reiteradas em um estudo de Montagnier, publicado no jornal arXiv. Em 2017, 100 acadêmicos denunciaram ainda o cientista por suas posições anti-vacina e pediram ao Colégio de Médicos que o condenasse à sanções. A polêmica só tende a continuar.