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Médico voluntário de vacina produzida por Oxford divide suas expectativas

Em entrevista exclusiva à AH, o reumatologista Fabio Jennings fala sobre a importância da pesquisa, os desafios da comunidade científica e faz um panorama sobre os próximos passos da vacina

Fabio Previdelli Publicado em 21/07/2020, às 15h34

Imagem meramente ilustrativa de cientista com vacina em mãos
Imagem meramente ilustrativa de cientista com vacina em mãos - Pexel

No dia 25 de fevereiro, o Brasil registrou o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus: um idoso de 61 anos que acabara de retornar de uma viagem para a Itália, na região da Lombardia.

De lá pra cá, cerca de 5 meses se passaram e agora os casos confirmados já passam dos 2,1 milhão e os óbitos bateram a triste marca de 80 mil vítimas. Nesse tempo, não só a vida do brasileiro mudou como o mundo inteiro teve de passar por medidas preventivas, com o distanciamento entre as pessoas se fazendo cada vez mais necessário. 

Se por um lado a sociedade teve de se adaptar, por outro a comunidade científica também mudou, trabalhando cada vez mais rapidamente para encontrar uma vacina que seja capaz de combater o vírus, e consequentemente, salvar inúmeras vidas.

Imagem do Coronavírus em microscópio / Crédito: Divulgação

 

Uma dessas alternativas desembarcou no Brasil no último mês, com origem direta na Inglaterra, mais precisamente da Universidade de Oxford. Inicialmente, os testes serão aplicados em 5 mil pessoas (2 mil voluntários em São Paulo, 1.5 mil no Rio de Janeiro e o restante em Salvador), a maioria delas profissionais de saúde — considerados combatentes da linha de frente do vírus.  

Uma dessas pessoas que recebeu a o teste da vacina foi o reumatologista Fabio Jennings, membro da Sociedade Paulista de Reumatologia e Médico Assistente da Disciplina de Reumatologia na Unifesp, que se diz orgulhoso em fazer parte da equipe de testes.

“Apesar de ser só uma fase de controle, eu já sai contente daquele processo que pra mim é histórico. Não por tomar a vacina em si, mas por fazer parte de um grupo de testes que, se bem sucedido, pode contribuir em algo por um bem maior”.

Assim como os outros voluntários, Jennings será monitorado durante um ano, período capaz de identificar possíveis efeitos colaterais e onde também analisar a durabilidade da imunização da vacina. “Não me sinto preocupado por a vacina já estar em fase final de desenvolvimento, o que praticamente anula quaisquer efeitos reversos mais graves”. Já sobre a probabilidade da vacina ser aprovada, Fabio se diz “confiante”.

O reumatologista Fabio Jennings / Crédito: Arquivo Pessoal/ Fabio Jennings

 

O médico conta, entretanto, que o que mais o assustou durante todo o processo foi a desconfiança de algumas pessoas que questionaram a real eficácia das vacinas. “Foi estranho contar para algumas pessoas que sou voluntário em testes das vacinas e elas me olharem de um jeito diferente, como se perguntando: ‘Como você teve coragem de ser cobaia para uma vacina que ainda está em teste?'".

Tempos de desinformação

Jennings acredita que esse questionamento muito se dá a pouca credibilidade que a comunidade científica tem recebido nos últimos anos, principalmente pelo movimento antivacina estar crescendo cada vez mais. “É estranho ver que as pessoas ainda não acreditam nesse tipo de informação, da ciência, do estudo, da pesquisa, do valor das vacinas”.

Porém, o médico voluntário vê esse momento como uma oportunidade de virar o jogo. “[A produção da vacina] também é importante pelo aspecto de produção científica, pelo processo de estar o mundo inteiro envolvido no mesmo objetivo. E dentro do Brasil também, por ser um processo de aprovação que foi feito em tempo recorde”, comemora.

“Eu acho que haverá uma mudança nesse sentido, mas que será uma mudança gradativa. Muito impactante para a maioria da população. Mesmo que haja aqueles negacionistas e por mais que haja esse confronto de pontos de vista, no final, tudo vai acabar tendo um denominador comum”.

A distribuição

Questionado sobre se a população mais pobre terá acesso a vacina contra a Covd-19, Fabio diz que a vacina será ‘democrática’. “Temos que colocar [a vacina] em todo o Sistema Único de Saúde (SUS), na Fiocruz, no Butantã. Todos esses são institutos do governo, ou estaduais ou federais. Então é uma coisa que será democrática, que tem que ser democrática”.

Mas com todos esses testes e experimentos acontecendo ao redor do mundo, por que cientistas da Universidade de Oxford escolheram o Brasil para firmar a parceria da vacina?

Um dos pontos levantados pelo reumatologista foi o fato de o país ser um dos epicentros da doença no mundo, afinal, o número de infectados e mortes daqui só perdem para os relatados nos Estados Unidos. “Acho que isso foi um dos motivos, você tinha que testar [a vacina] em uma população que está exposta”, explica.

Todavia, Jennings também credita a importância da comunidade científica brasileira para a firmação da parceria. “Em segundo lugar, eu acho que foi pelas Universidades e os Institutos Federais, por terem esse know how de pesquisa que o mundo inteiro reconhece. Por serem Instituições de impõem confiança no mundo inteiro”, aponta.

O reumatologista Fabio Jennings / Crédito: Arquivo Pessoal/ Fabio Jennings

 

Por fim, apesar do otimismo em relação ao sucesso do teste, ele alerta: “Será uma coisa gradativa, já que não vai dá pra imunizar todo mundo de uma vez só. Então, acho que a gente vai voltar a um certo “normal”, mas não vai ser como antes. Eu acho que essa pandemia veio, para quem consegue discernir tudo isso, para ter uma outra valorização dos profissionais de saúde, dos pesquisadores, dos profissionais científicos... de valores mais sólidos”.

“Eu acredito que tenho uma visão enviesada, por ser profissional de saúde. Também acabei perdendo alguns colegas de trabalho, familiares. Não só pela perda da pessoa, mas por você não conseguir se despedir das pessoas, você não pode fazer velório, etc... Acho que isso é muito impactante. Então, acho, que pra quem viveu uma história dessas, a volta à normalidade não vai ser tão normal assim”.


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