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De 'Round 6' a 'Parasita': Qual é, afinal, a receita de sucesso das produções sul-coreanas?

Identificação com o real ou pura imaginação? Diretores asiáticos vem fazendo sucesso na indústria

Daniel Bydlowski, cineasta Publicado em 13/10/2021, às 16h23

Cena de 'Round 6'
Cena de 'Round 6' - Divulgação/Netflix

Se você ainda não assistiu a série de maior sucesso da Netflix, certamente já ouviu falar. “Round 6 – Squid Games” tem dominado a internet desde seu lançamento, em meados de setembro.

Idealizada, ao longo de dez anos, por Hwang Dong-hyuk, a narrativa sul-coreana apresenta a história de pessoas que vivenciam a dificuldade financeira e disputam entre si por um alto prêmio em dinheiro. Mas para isso elas devem participar de brincadeiras infantis com um conceito ultraviolento para sobreviverem. 

Apesar do foco estar nos jogos mortais, não muito original para o cinema, a série surpreende pela perturbadora forma como cativou o público. Talvez seja pela identificação ao momento atual ou pela mórbida imaginação. Não importa, a verdade é que as produções sul-coreanas há algum tempo tem mostrado sua potência na sétima arte. Separei alguns exemplos: 

Desde 2003, que temos sido presenteados com grandes obras como “Memórias de um assassino”. O filme, dirigido por Bong Joon Ho, apresenta uma história fictícia baseada dos assassinatos em série de 10 mulheres, que aconteceram entre 1986 e 1991, na região de Hwaseong, na província de Gyeonoggi.  

Os crimes jamais foram solucionados, apesar de cerca de 3 mil suspeitos interrogados. Pela similaridade nos fatos, o longa acabou sendo comparado com o americano Zodíaco, dirigido por David Fincher em 2007 e estrelado por Robert Downey Jr., Mark Rufallo e Jake Gyllenhaal que mostra aquele que já foi um dos maiores mistérios enfrentados pelas autoridades americanas — sua identidade só foi descoberta recentemente, após mais de 50 anos: Gary Francis Poste, que faleceu no ano de 2018, enviava cartas enigmáticas para a imprensa.

Mas embora existam elementos em comum, o filme sul-coreano usou os assassinatos para expor injustiças e a violência brutal que ocorriam na sociedade em 1980. 

Cena de “Memórias de um assassino”/ Crédito: Divulgação/Sidus Picture

 

Joon Ho também é responsável por “Parasita”, de 2019, primeiro longa não falado em inglês a vencer a estatueta de Melhor Filme no Oscar, além de ganhar outros prêmios como roteiro original, diretor e filme internacional. Assim como suas outras produções, Parasita aborda temas controversos, no entanto, comuns à sociedade, como a ausência e abundância do dinheiro. 

Já a diretora Han Ka-Ram, trouxe em seu longa de estreia “Our Body” questões voltadas ao universo feminino. De forma sensível, ela nos convida a uma viagem pelos dramas psicológicos da jovem Ja-young que ao buscar se tornar a melhor versão de si mesma fisicamente, expõe suas dificuldades na saúde mental.  

Também voltado às mulheres, temos o longa dirigido por Kim Do Young, “Kim Ji Young: nascida em 1982” de 2019. Baseado no aclamado livro de Cho Nam Joo, a trama, de forma sutil, explora muito bem os desafios enfrentados pelas mulheres na Coreia do Sul, tais como a discriminação feminina.  

Interpretada por Jung Yu Mi, a personagem Kim Ji Young se vê obrigada a abandonar seu emprego após se casar e ter filhos. Após anos de sufocamento e frustrações, Kim passa a apresentar sinais de doenças mentais. Todo o processo relacionado, claramente, a problemáticas sociais e culturais são apresentados em situações cotidianas e do íntimo dos personagens. 

Cena de “Kim Ji Young: nascida em 1982”/ Crédito: Divulgação/HelloKpop

 

“House of Humminbird” ou Casa de beija-flor, longa de 2018, dirigido por Kim Bora, é uma envolvente e realista narrativa de uma adolescente de 14 anos, vivendo na classe média de Seoul, em 1994.  

Eun-Hee, interpretada por Park Ji-hoo, é infeliz e recebe pouca atenção em casa dos pais que, além de serem duros na educação, não partilham de bons exemplos. Seu pai tem um caso extraconjugal e sua mãe está sempre exausta. Em busca de amor e compreensão, Eun-hee foca no mundo exterior que apesar de repleto de problemas, traz consolo e gratidão.


Sobre o cineasta

O cineasta brasileiro Daniel Bydlowski é membro do Directors Guild of America e artista de realidade virtual. Faz parte do júri de festivais internacionais de cinema e pesquisa temas relacionados às novas tecnologias de mídia, como a realidade virtual e o future do cinema. Daniel também tenta conscientizar as pessoas com questões sociais ligadas à saúde, educação e bullying nas escolas. É mestre pela University of Southern California (USC), considerada a melhor faculdade de cinema dos Estados Unidos. Atualmente, cursa doutorado na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. Recentemente, seu filme Bullies foi premiado em NewPort Beach como melhor curta infantil, no Comic-Con recebeu 2 prêmios: melhor filme fantasia e prêmio especial do júri. O Ticket for Success, também do cineasta, foi selecionado no Animamundi e ganhou de melhor curta internacional pelo Moondance International Film Festival.