Testeira

Do céu ao inferno: quem é Morgan Freeman?

Da voz de Deus, para trotes, Mandela, até assassinato, uma vida como nenhuma

Coluna - Daniel Bydlowski, cineasta Publicado em 05/06/2021, às 09h00

Morgan Freman em 'O Todo Poderoso' (2003)
Morgan Freman em 'O Todo Poderoso' (2003) - Divulgação/Universal Pictures

Há quem pense que a voz dele é a de Deus, ou que poderia ser. Também, com tantos questionamentos que a vida nos traz, quem melhor para nos guiar do que... Morgan Freeman? Sim, os americanos têm a opção de escutar o ator, que acaba de completar 84 anos, como narrador no GPS. E eu, duvido que você não seguiria os caminhos dele.

Até a ciência explicou porque gostamos de escutá-lo, mesmo que seja com efeito de gás hélio, como fez para promover suas séries Through the Wormhole, da Science Channel, ou passando trotes para caridade. Isso, combinado a sua presença imponente e o olhar amistoso são uma marca registrada.

Morgan Porterfield Freeman Jr, nasceu em 1 de junho de 1937, em Memphis, Tennessee. Filho mais novo de uma família grande e de baixa renda, morou com a avó materna, depois que seus pais sucumbidos pela pressão de Jim Crow (leis estaduais e locais que impunham a segregação racial no sul dos Estados Unidos) foram para Chicago em busca de emprego. Quando sua avó faleceu, ele também se mudou para o Norte com a mãe, já divorciada de seu pai alcoólatra.

Desde criança, Freeman já revelava sua paixão por cinema. Boa parte de seu tempo era dedicado a economizar dinheiro para assistir filmes, principalmente com atores como Sidney Poitier, a quem demonstrou enorme admiração em seu discurso, em 1992, no 20º Prêmio AFI-Life Achievement, dedicado pelo conselho de diretores do American Film Institute para homenagear uma única pessoa por sua contribuição vitalícia para a cultura americana por meio do cinema e da televisão. Neste caso, Poitier.

Cena de Invictus (2009) /Crédito: Divulgação: Revelations Entertainment Malpaso Productions Spyglass Entertainment

 

Na ocasião Freeman chegou a dizer: “todo individuo idealiza seu próprio paraíso, o meu sempre foi estar no cinema, e desde que o imagino há uma luz brilhando forte. Essa luz é Sidney Poitier.

Embora atuar fosse um talento natural e uma paixão, outras emoções também o instigavam. Voar. Mais especificamente se tornar um piloto de caça. Ao terminar o ensino médio, ele recusou uma bolsa para estudar teatro na Universidade e aceitou o convite do Tio Sam, entrou em um ônibus e se alistou na Força Aérea dos Estados Unidos. Mas ser um homem livre e militar, não são exatamente uma combinação esperada. Em vez dos ares, Freeman ganhou a terra como mecânico, e também, atirar em alguém não estava entre suas expectativas.

Apesar de sua primeira atuação ter acontecido ainda quando criança e como punição na escola, por puxar a cadeira de um colega, Freeman foi obrigado a participar do grupo de teatro, e se deu bem – esse hiato só voltou pós exército.

Das asas do Tio Sam, Freeman decidiu ir para Hollywood, fez aulas de atuação e tentou alguns trabalhos, sem sucesso. Em 1960, ele muda-se para Nova Iorque para ingressar no teatro musical, Opera Ring. Sim, ele foi dançarino. Com o grupo realizou algumas turnês, mas sua grande chance de atuar no off-Broadway surgiu em 1967, com Viveca Lindfors em uma peça chamada The Nigger Lovers, sobre os direitos civis americanos. O qual segundo ele, foi seu primeiro emprego remunerado nos palcos.

Cena de Os Imperdoáveis (1992) /Crédito: Divulgação/Malpaso Productions

 

A vida começa depois dos 50? Definitivamente sim! Morgan tornou-se um ator de verdade aos 50 anos quando fez “Armação Perigosa” (1987) e ganhou sua primeira indicação ao Oscar como Melhor Ator Coadjuvante.  Mas a popularidade chegou com “Conduzindo Miss Daisy”, em 1982, em que interpreta o motorista de Jessica Tandy. O personagem lhe rendeu O Globo de Ouro de Melhor Ator e a indicação ao Oscar na mesma categoria.

A partir de então começaram a vir os sucessos como “Os imperdoáveis” (1992) de Clint Eastwood, o clássico “Um sonho de Liberdade” (1994), “Se7en - os sete crimes capitais”, ao lado de Brad Pitt (1995), “Impacto Profundo” (1998), “A soma de todos os medos” (2002), “Todo Poderoso” (2003) em que interpretou Deus (!!) e muitos outros, mas obviamente alguns merecem destaque. Vou citar dois, frutos de uma parceria incrível com Clint Eastwood.

O longa “A menina de Ouro” (2005), em que Freeman contracena e é dirigido por Clint, não só o rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, como mais três outros prêmios; Screen Actors Guide e festivais no Canada e Itália.

No filme, Freeman é Eddie Dupris o melhor amigo do treinador de boxe Frankie (Clint), que resolve se tornar mentor de Maggie (Hilary Swank). A produção que apresenta uma história sobre os laços que escolhemos fazer na vida, também levaram a estatueta do Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz.

Nelson Mandela e Morgan Freeman. Por muito tempo, o ator esperou fazer um filme sobre o lendário advogado e ex-presidente da África do Sul, até tentou adaptar a autobiografia de Nelson em um roteiro, no entanto o projeto nunca foi finalizado. Então em 2007, em mais uma fantástica parceria com Eastwood na direção, ele interpretou Madiba, em “Invictus”.

Baseado no livro Playing the Enemy: Nelson Mandela e o jogo que fez uma nação de John Carlin, o longa apresenta a história da união de uma nação pela conquista da Copa do Mundo de Rugby, de 1995, pela seleção Sul-Africana, organizada após o fim do Apartheid. Matt Damon interpreta François Pienaar, o capitão do time.

Do recebimento de medalhas do próprio Barack Obama por sua incrível contribuição como ator, diretor e narrador, até acidentes, assassinatos e outras acusações sobre imoralidades, essa é a vida pessoal de Freeman. Em 2018, a imprensa reportou diversas acusações de mulheres pelo comportamento inapropriado de Morgan. Que não foram provadas.

Pois é, talvez ser divindade seja mais complexo do que se imagina.


++Leia também: Dos bons, ruins e feios aos heróis: Clint Eastwood é o verdadeiro menino de ouro de Hollywood


Sobre o cineasta

O cineasta brasileiro Daniel Bydlowski é membro do Directors Guild of America e artista de realidade virtual. Faz parte do júri de festivais internacionais de cinema e pesquisa temas relacionados às novas tecnologias de mídia, como a realidade virtual e o future do cinema. Daniel também tenta conscientizar as pessoas com questões sociais ligadas à saúde, educação e bullying nas escolas. É mestre pela University of Southern California (USC), considerada a melhor faculdade de cinema dos Estados Unidos. Atualmente, cursa doutorado na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. Recentemente, seu filme Bullies foi premiado em NewPort Beach como melhor curta infantil, no Comic-Con recebeu 2 prêmios: melhor filme fantasia e prêmio especial do júri. O Ticket for Success, também do cineasta, foi selecionado no Animamundi e ganhou de melhor curta internacional pelo Moondance International Film Festival.