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Paulo Gustavo: Entre tantos personagens, uma janela para histórias com alma

O ator faleceu na última terça-feira, 4, aos 42 anos, por complicações causadas pela Covid-19

Daniel Bydlowski Publicado em 07/05/2021, às 10h41

Paulo Gustavo como Aníbal, em Minha Vida em Marte (2018) e Paulo Gustavo como Dona Hermínia, em Minha Mãe é Uma Peça 2 (2016)
Paulo Gustavo como Aníbal, em Minha Vida em Marte (2018) e Paulo Gustavo como Dona Hermínia, em Minha Mãe é Uma Peça 2 (2016) - Divulgação/Downtown Filmes / Divulgação/Globo Filmes

Quatro de maio de 2021 mudou para sempre a história das artes brasileiras. Seguiremos, no entanto afortunados por termos tido a beleza de caráter e generosidade do ator, humorista e roteirista, Paulo Gustavo.

Muito além dos palcos e telas, Paulo entregou em cada um de seus personagens uma janela para histórias com alma. Dona Hermínia, não só nos apresentou um humor ácido repleto de amor, como também trouxe cenas familiares à todas as classes. A personagem, inspirada em sua mãe, dona Déa Lucia, apareceu pela primeira vez na peça “O Surto”, em que dividia a direção com Fernando Caruso, em 2004.

Em 2006, o humorista deu à Dona Hermínia o espetáculo, “Minha mãe é uma peça”. Sua atuação rendeu uma indicação ao prêmio Shell. Adaptado para o cinema em 2013, o texto sobre a mãe superprotetora, engraçada e que fala alto foi um sucesso, e o levou ao estrelato.

Com direito a quatro sequências, Paulo ganhou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de roteiro adaptado por “Minha mãe é uma Peça 2” e o terceiro filme, em 2019, foi recorde com a maior arrecadação do cinema brasileiro.

Mas ali, além daquela personagem que não economiza na linguagem, havia muito mais. Paulo nos deixou um legado de amor, de inclusão, aceitação, quebra de tabus e confiança na cultura brasileira. Com a genuína certeza de que a realidade e a identificação com o coletivo é a melhor contribuição que temos para a arte.

Paulo Gustavo em evento, no ano de 2018 / Crédito: Getty Images 

 

Dona Hermínia, o alterego do ator, que faz e é parte de todas as mães brasileiras, vendeu mais de 26 milhões de ingressos. Fruto de uma mente genial, um sucesso de inspiração, que remodelou a escola Zé Trindade e Dercy Gonçalves, ajustou ao século XXI, e porque não até XXX, e estourou todas as expectativas do público brasileiro.

Nem pense que é tão simples, e que brasileiro tem gostos baratos, não tem. Essa fórmula foi cuidadosamente criada com carisma e alegria, de fato, Dona Hermínia era a representação de nosso país e por mais que pareça, nunca foi caricata. Todos somos, de alguma forma, Paulo Gustavo, Dona Hermínia, Aníbal, Valdomiro, Senhora dos Absurdos, Ivonete, entre tantos outros.

Ainda, não podemos deixar de evidenciar que ele reinventou os filmes de comédia brasileiros. Inclusive o terceiro foi campeão, na rede brasileira que o exibiu, durante a pandemia. As piadas deixaram de evidenciar coisas ruins de grupos sociais e passaram a retratar o cotidiano como ele é, com leveza, emoção e superação.

Cena da franquia Minha Mãe é uma Peça /Crédito: Divulgação/Globo Filmes

 

Um camaleão, isso definiria bem, Paulo Gustavo. Apesar de já ter falado que não sabia fazer hétero, estava errado. Ele se encaixava como uma luva em cada personagem, dava tudo de si e brilhava em qualquer tela. Realmente, o cinema nacional perdeu muito, em partes também, por não o ter visto em papéis mais sérios, acredito que iria se reinventar.

O colosso em bilheterias, mesmo quando coadjuvante ocupava espaço, como o personagem Aníbal, em Minha Vida em Marte. Tomou conta e foi, para muitos, um dos motivos de ir ao cinema assistir o segundo filme.

De fato, ele se conectava com o público, sua maior característica era essa. Ele criava laços, as pessoas imaginavam tanto o ator e quanto seus personagens sentados ao sofá de suas salas, conversando e tomando o bom e velho café brasileiro. Isso que ele representava, a visita, a mãe, o pai, o tio, a irmã, qualquer familiar e amigo, em uma conversa bem humorada e instigante que varam as madrugadas.

Amigo, filho, marido, pai e irmão. Ator, humorista, diretor e roteirista, Paulo Gustavo faleceu no dia 04 de maio, terça-feira, aos 42 anos, em decorrência de complicações da covid-19. Seus amigos, familiares e fãs foram incontestáveis em sua fé e apoio durante sua internação, desde o dia 13 de março em um hospital particular do Rio de Janeiro.

Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros, nasceu dia 30 de outubro de 1978 em Niterói. Estudou teatro na Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio, com Fábio Porchat, com quem mais tarde contracenou na peça “Infraturas”.

Ascendeu no teatro, na televisão, no cinema e em sua vida pessoal com a construção de uma família, inúmeras ações de esperança e doação, e amigos e fãs que perpetuarão sua história para sempre. Como disse, seu marido, Thales Bretas, em homenagem póstuma: “de tão intenso, fez-se eterno".