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A perturbadora saga da 'mulher dos cachorros' da ditadura Pinochet

Íngrid Olderöck era conhecida pela crueldade a partir do uso de técnicas de tortura

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 24/04/2022, às 09h00 - Atualizado em 05/05/2022, às 09h18

A história da torturadora é retratada no curta 'Bestia'
A história da torturadora é retratada no curta 'Bestia' - Divulgação/Vídeo

Em 1996, a jornalista chilena Nancy Guzmán foi até a casa da cruel mulher a respeito do qual publicaria um livro mais tarde. "Ela estava usando uma saia florida, um suéter feito à mão vagamente rosa e botas curtas", relatou a respeito do encontro em sua obra. 

Guzmán foi uma das poucas pessoas a conseguir entrevistarÍngrid Olderöck, uma ex-agente de alto escalão da Direção de Inteligência Nacional (DINA), a polícia secreta da Ditadura Pinochet. 

La Mujer de los Perros

O verdadeiro aspecto pelo qual Olderöck ficou conhecida, porém, era seu hábito de usar de bestialidade para impor sofrimento aos dissidentes do regime.

Especialista em treinamento de cachorros, ela usou seus conhecimentos para fazer os animais estuprarem inúmeros prisioneiros, o que lhe rendeu o infame título de "mulher dos cachorros". 

Um dos prédios clandestinos onde a ex-agente atuava bastante ficou inclusive conhecido como "La Venda Sexy", justamente pela frequência com a qual aqueles considerados uma ameaça ao governo Pinochet eram submetidos a abusos sexuais. 

Íngrid Olderöck /Crédito: Divulgação/ Museu de La Memoria

Um dos mais famosos cães do local era o Volvodia, um pastor alemão (que é uma raça fácil de adestrar) frequentemente usado para os abomináveis atos. 

"Íngrid comandava o animal, enquanto os outros torturadores obrigavam os detentos a ficar em posições que facilitavam o abuso. Homens e mulheres que passaram pela Venda Sexy foram vítimas dessa atrocidade", explicou Guzmán, segundo repercutido pela BBC.

Talento para o mal

Não é uma surpresa que Olderöck tenha sido recrutada para o DINA: além de ser criada por um pai alemão que seguia fervorosamente a ideologia nazista, ela teve grande destaque no exército chileno. 

Foi a primeira mulher paraquedista de América Latina, era faixa azul no judô e teria alcançado a proficiência em tiro, equitação e adestramento de cães, além de praticar esportes como esqui e montanhismo.

Ela era uma mulher violenta e agressiva que não tinha piedade", afirmou Guzmán, ainda de acordo com o veículo. "Ela era uma personagem terrível em um mundo de horror. As sociedades têm esses monstros. E esses monstros não acabam junto com ditaduras. Os monstros estão permanentemente nas sociedades", acrescentou. 

Impunidade

A ex-agente acabou deixando a DINA no ano de 1981, ainda durante a ditadura Pinochet, após ser baleada na barriga e na cabeça na frente de sua casa. O segundo projétil se alojou em seu crânio, mas, surpreendentemente, o ataque não a matou. 

Os responsáveis pelo atentado são alvo de debate. Na época, ativistas de esquerda foram culpados, no entanto, Olderöck defendia que tudo foi arquitetado pelo governo chileno como retaliação por uma tentativa de deserção da parte dela. 

Aposentada, a ex-torturadoraviveu o restante de seus anos sozinha, sem formar família. Ela tampouco respondeu na justiça pelos crimes cometidos durante o regime militar: quando convocada para falar sobre La Venda Sexy em tribunal, alegou amnésia. 

Íngrid Olderöck morreu devido a uma hemorragia digestiva quando tinha 58 anos de idade.

A história da temível "mulher dos cachorros" inspirou um curta-metragem chamado "Bestia", que foi indicado ao Oscar de 2022.


Ditadura brasileira 

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