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Akhenaton: Revolucionário ou golpista?

Pacifista para uns e herege para outros, o faraó que reinou por 17 anos dividiu opiniões

Hugo Oliveira Publicado em 05/01/2022, às 08h00

Representação do faraó Akhenaton
Representação do faraó Akhenaton - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Existe uma expressão popular que, grosso modo, talvez consiga resumir de forma satisfatória a opinião que muitos defendem quanto à trajetória do faraó Akhenaton no período em que ele dominou o Egito e ditou os rumos do país: acabou de chegar e já quer sentar na janela.

Pois bem. Sucessor de seu pai, Amenóphis III, tendo como esposa ninguém menos que a bela e influente Nefertiti, ele inseriu — ou tentou inserir — uma série de novidades dentro da sociedade egípcia, fazendo com que seu nome ficasse marcado para sempre na história, para o bem e para o mal.

Ele teria chegado ao poder provavelmente em 1.352 a.C e governado o país até 1.336 a.C, ano de sua morte — embora algumas correntes histórias defendam que o falecimento do faraó tenha acontecido em 1.334 a.C. Datas conflitantes à parte, é principalmente nas diferenças de percepções que se encontra o cerne da popularidade de Akhenaton ao longo do tempo.

Sabe a ideia de que religião, política e futebol não se discute? Se modificarmos essa tríade levemente, mantendo o primeiro tópico e trocando os dois seguintes por “artes” e “mudança de capital”, negando de forma veemente a afirmação, teremos um panorama básico sobre os tipos de vespeiro aos quais Akhenaton ousou não apenas mexer, mas bagunçar radicalmente.

Antes mesmo de o faraó tentar instituir o monoteísmo em face do politeísmo vigente no Egito, ele já era um adorador ferrenho do deus Aton, ligado diretamente ao sol. Akhenaton era daqueles que engrossava o coro de que existem “deuses e deuses”. Ou seja: maiores e menores, superiores e inferiores.

Com essa máxima na cabeça, o faraó caminha firme em direção ao estabelecimento de uma nova religião, defendendo Aton como uma entidade superiora em detrimento a todo e qualquer mero deus anteriormente adorado pelo povo egípcio. Tranquilo colocar em prática uma nova diretriz que vai de encontro aos costumes religiosos e monárquicos aparentemente imutáveis, certo? Vai nessa.

Ao tentar apresentar uma nova configuração religiosa, afastando-se do panteão egípcio, ele conseguiu a atenção e o respeito do povo... Ao menos, por alguns anos. O fato é que, após sua morte, a religião tradicional foi sendo retomada pela população e, em pouco tempo, o faraó que era reconhecido como um verdadeiro pacifista, transformou-se em “inimigo”, “herege” e “instaurador do caos” em registros que datavam posteriormente ao seu falecimento.

Quanto às artes, as mudanças também foram significativas, embora avaliadas a posteriori mais positivamente — o que não impede que possamos enxergá-las como uma tentativa subliminar de autopromoção. Tomemos como exemplo aquelas que retratavam a realeza egípcia. Se antes elas eram não apenas idealizadas, mas também reservadas a lugares específicos, com Akhenaton, elas entraram em locais limitados aos deuses. Daí para fazer uma associação entre o faraó e as divindades era um pulo.

Aliás, um pulinho, já que ao divulgar a intimidade familiar de um jeito mais ordinário e, ao mesmo tempo, com figuras mais espontâneas — modus operandi da inovação amarniana —, configura-se um conceito senão maquiavélico, inteligente.

Já a ideia de mudar a capital do país veio à tona no sexto ano de governo do faraó... E também dividiu/divide opiniões. Na intenção de homenagear Aton, utilizando-se da desculpa de que o deus não tinha um local de culto para chamar de seu, eis que surge Akhentaton, com direito a um grande templo de oitocentos metros de comprimento e trezentos metros de largura. Lá, as salas escuras normalmente utilizadas para os cultos religiosos davam lugar a espaços ao ar livre, em comunhão com os raios solares emitidos pelo deus do momento.

Deu certo? Bem, pelo menos até o último ano de vida do faraó, sim. Depois de seu falecimento, a cidade foi simplesmente abandonada, o que muitos historiadores sugerem como um ato referente à infelicidade da população quanto às mudanças empreendidas por Akhenaton e sua “frente armaniana”. 

A imposição de um novo esquema religioso que não foi bem aceito, uma corrente artística aparentemente relevante — mas com aspectos possivelmente estratégicos — e uma mudança de capital repentina em prol do deus que era considerado “top” pelo faraó foram algumas das ações que transformaram Akhenaton numa figura controversa e até mesmo indecifrável.

Estaria este conjunto de medidas jogando a favor de uma tentativa benéfica de revolução ou apenas disfarçando uma jogada de mestre golpista quanto a um líder que almejava ser ainda mais poderoso e longevo em relação ao governo do Egito? 

Historiadores, arqueólogos, jornalistas e estudiosos em geral não conseguiram responder a essa questão com exatidão. Nem mesmo o tempo deu conta de mostrar o que o faraó queria com isso. Resta-nos olhar para o sol e tirar nossas próprias conclusões... Usando óculos escuros, por favor: o poder — solar — pode cegar.


No novo episódio do podcast ‘Desventuras na História’, o professor de História Vítor Soares, dono do podcast 'História em Meia Hora', apresenta de forma descontraída a saga completa de Akhenaton, o faraó do Egito Antigo visto como representante de Aton.

No 'Desventuras na História', você também pode conferir a jornada de outros nomes histórios, como Gengis Khan, Dom Pedro I, Carlos Marighella e Cleópatra. Abaixo, você confere o episódio "Akhenaton, o faraó visto como representante do Deus Sol":


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