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Antes dos europeus: o desenvolvimento e as habilidades das civilizações pré-colombianas

A história do continente americano não pode ser contada apenas a partir da chegada dos europeus

Diego Antonelli Publicado em 19/03/2022, às 06h00 - Atualizado em 08/04/2022, às 06h00

Representação do Quetzalcoatl, deus importante para os astecas
Representação do Quetzalcoatl, deus importante para os astecas - austinstar, via Pixabay

Cidades desenvolvidas e extremamente organizadas, interligadas por redes de estradas e equipadas com complexos aquedutos para a distribuição de água. Uma sociedade que, para muitos, estaria à frente do seu tempo e que não cansava de investir em técnicas de cultivo, de irrigação e em edificações de imponentes palácios e pirâmides – algumas permanecem em pé desde o século 1. Esse era o continente americano antes da chegada dos europeus no final do século 15.

Um território ocupado por vários povos indígenas que, em comum, desenvolviam diferentes tecnologias – nas mais variadas áreas – antes mesmo de Cristóvão Colombo desembarcar no continente americano, em 1492. O desenvolvimento da região chegou a impressionar os colonizadores espanhóis.

Os chamados povos pré-colombianos eram formados por diversos grupos étnicos – desses, os astecas, os incas e os maias se tornaram os mais conhecidos.

Astecas, incas e maias desenvolveram diversas técnicas de irrigação, aproveitamento do

solo para atividade agrícola, construíram templos, pirâmides, palácios, construíram uma rede de estradas e meios de comunicação, sem utilização da roda e pouco uso do metal”, ressalta a professora de História da América da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Juliana Beatriz de Souza.

Essas civilizações eram sociedades consideradas complexas, tomadas pela urbanização e com um desenvolvimento agrícola de alto rendimento. Além disso, como salienta a pesquisadora, eram comunidades com hierarquias sociais e uma estrutura de poder definida.

“Estima-se que havia uma população de 25 milhões na região do México Central, e no Império Inca, 10 milhões antes da chegada dos espanhóis a essas regiões”, complementa Juliana.

A América, portanto, já vivia a sua história e isso já acontecia há pelo menos 20 mil anos, conforme escreve o historiador Ivo Canabarro no livro História da América Meridional, sobre o continente que já construía sua própria trajetória.

Tecnologia indígena Incas, maias, astecas e os demais povos que habitaram o continente americano até o século 15 (como nazcos e toltecas, por exemplo) desenvolveram verdadeiros avanços tecnológicos para o período.

Basta imaginar que a Pirâmide do Sol, no México, figura como a terceira maior do mundo. Com 71 metros de altura e 223 metros de cada lado, ela foi construída entre os anos 1 e 150 depois de Cristo por uma civilização praticamente desconhecida chamada de “teotihuacanes”, que antecedeu o povo asteca.

Os astecas, por sua vez, encontraram essa localidade em ruínas e batizaram a região de Teotihuacan, que significa “local onde os homens se tornam deuses” ou “cidade dos deuses”. Eles consideraram o lugar sagrado e fizeram dele cenário de suas celebrações religiosas.

Segundo a Unesco, documentos do século 16 apontam que o imperador Montezuma realizava sacrifícios no local. E a pirâmide está lá, preservada, até hoje.

Para garantir a própria sobrevivência e a expansão das comunidades, essas civilizações pré-colombianas se viram obrigadas a criar novas técnicas agrícolas. “Somente o controle da água para irrigação permitiu que a população crescesse do modo que cresceu”, explica o professor de História da Universidade Federal do Paraná, Carlos Medeiros Lima.

Sofisticação maia

Em relação aos maias, a arquitetura, por exemplo, era extremamente desenvolvida, proporcionando a construção de cidades com templos, palácios e observatórios. Os maias já utilizavam naquela época argamassas nas suas edificações – mistura obtida com a queima da pedra calcária.

“Os instrumentos da cultura material também são expressivos, pois já trabalhavam com alguns metais como o ouro e a prata. Também utilizavam a pedra polida para a confecção de instrumentos, tanto para o trabalho quanto para a guerra”, escreve Canabarro.

A cidade guatemalteca de Tikal, berço da sociedade maia, possuía um avançado sistema de captação e distribuição de água. Segundo o artigo Controle da Água pelos Antigos Maias, publicado em 2013 pela revista científica Contributions in New World Archaeology, eram quilômetros e quilômetros de dutos que canalizavam a água da chuva
para os reservatórios e, dali, seguiam para o abastecimento humano e para a agricultura.

Um novo artigo, Purificação de Água Zeólita em Tikal, publicado em 2020 na revista Nature, apontou ainda que lá foi inventado o primeiro sistema de filtração de água de todo o hemisfério ocidental.

A filtragem era realizada com o uso de minerais vulcânicos com estrutura extremamente porosa que funcionavam como uma espécie de “peneira”. Os maias ainda criaram um sofisticado sistema de escrita – o chamado logossilabário.

Crédito: Pixabay

“Não era exatamente um alfabeto, mas era uma escrita. Uma das áreas mais complicadas dos estudos sobre eles se liga à decifração dessa escrita, que já foi realizada, mas não se pode considerar como se estivesse completa”, ressalta Lima.

Os povos maias se dedicaram também à matemática, sistema astronômico e o desenvolvimento de um complexo calendário – que se tornou famoso por supostamente ter apontado o fim do mundo para o ano de 2012.

Astecas em todas as áreas

Os astecas, assim como os maias, também se dedicaram à matemática e à astronomia e chegaram a elaborar um calendário muito próximo ao atual, com 365 dias, mas dividido entre os ciclos Ritual e Agrícola – em que, juntos, formavam um “século” de 52 anos.

O ciclo ritual, Tōnalpōhualli, tinha 260 dias divididos em 20 símbolos divinos contendo 13 dias cada um. Já o ciclo agrícola tinha 365 dias divididos em 18 meses de 20 dias cada, aos quais se adicionava um período extra de cinco dias de azar.

A arquitetura asteca era tão evoluída que os povos edificaram a principal cidade de toda a era pré-colombiana, Tenochtitlán (atual Cidade do México), chegando a ter entre 150 e 300 mil habitantes.

O local possuía ainda aquedutos para o fornecimento de água para a população. “A vida cultural também era intensa e o sistema educacional era dividido em dois lugares: na escola Calmecac estudavam os filhos dos nobres e na escola Telpochcalli frequentava os jovens do ‘povo’”, conta Canabarro.

No setor agrícola, a plantação do cacau foi fundamental para a economia local. Graças aos astecas, o mundo conheceu o chocolate, que mais tarde foi levado pelos espanhóis para a Europa.

Assim como os maias, os astecas dominaram a extração de borracha e, com o látex, produziam sandálias, faixas de borracha e bolas, usadas para os jogos cerimoniais em pátios compostos por paredes de pedra.

O avanço também se encontra na área da saúde: os médicos astecas, por exemplo, já conseguiam tratar fraturas e fazer obturações em dentes.

Incas: comunhão com a natureza

Já os incas, que pertenciam originalmente à etnia quíchua, desenvolveram diversas cidades imponentes, como Cusco e Machu Picchu. Viviam da agricultura e cultivavam principalmente batata e milho.

Machu Picchu /Crédito: Pixabay

Como os terrenos eram íngremes, eles desenvolveram uma técnica eficiente de plantio em degraus. Além disso, construíram estradas e diversos templos. Segundo Cristiana Bertazoni, doutora em História Pré-Colombiana e pesquisadora associada da Universidade de Zurique, muito dessa tecnologia inca foi herdada de sociedades “pré-incaicas e em muitos casos eles as tornaram mais sofisticadas e complexas”.

Ela ressalta que a arquitetura inca é famosa por “sua impressionante precisão e comunhão com o meio ambiente ao seu redor”.

“Por comunhão quero dizer que a arquitetura inca claramente tentava simultaneamente se amalgamar com a natureza ao redor e, ao mesmo tempo, fazer uma certa mimésis de formações naturais próximas. Para os incas, algumas pedras ou formações rochosas eram consideradas sagradas e até mesmo animadas. Por isso, em Machu Picchu, por exemplo, vemos rochas deixadas por eles propositadamente em seu estado natural e cercadas ou protegidas pela arquitetura inca”, explica Cristiana.

Além disso, os incas também possuíam um sistema numérico decimal. Para isso, “utilizavam uma espécie de nós de cordas de lã chamados quipo, que permitiam que conseguissem contabilizar os tributos, a quantidade de mercadorias, as entradas e saídas, a quantidade de animais e o recenseamento da população”, escreve Luciane Chaves.

Eles também eram muito eficientes na área da metalurgia, trabalhando com ouro, prata, cobre e bronze. Os incas criaram um sistema de tecelagem extremamente desenvolvido, cuja técnica ainda é utilizada pela população peruana.

A construção de pontes com fibra têxtil é outra grande contribuição deixada pelos incas e é uma das obras de engenharia mais impressionantes do período. “De tão complexa, tal tecnologia serviu de inspiração para a construção de pontes atuais”, conta o pesquisador Rômulo Navarro.

Diante de tamanho desenvolvimento social, intelectual e tecnológico das civilizações pré-colombianas, a história do continente americano não pode ser contada apenas a partir da chegada dos europeus.

A presença das populações indígenas, com toda a sua diversidade, jamais deve ser ignorada. Como salienta a professora Juliana, “negar a história, a cultura das populações indígenas antes da chegada dos europeus é reproduzir o pensamento e ação dos conquistadores e colonizadores, que desprezaram a cultura, tradições e valores indígenas”.


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