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Cleópatra: enigma empoderado e caso atemporal

Celebridade política cuja fama atravessa séculos, a rainha que liderou o Egito por mais de duas décadas era uma brand manager de seu tempo

Hugo Oliveira Publicado em 16/12/2021, às 17h14

Elizabeth Taylor no papel de Cleópatra (1963)
Elizabeth Taylor no papel de Cleópatra (1963) - Getty Images

Trinta e nove anos (69 a.C.–30 a.C.): este foi o período em que Cleópatra VII Thea Philopatorviveu neste planeta, deixando marcas cuja história mundial não ousa passar incólume. Nascida em Alexandria, cidade portuária na região do Mediterrâneo, no Egito, ela, ao contrário da imagem que a cultura pop cismou em passar, não conquistou sua notoriedade baseando-se em atributos físicos, mas sim, por conta de uma inteligência notável e um jogo de cintura imprescindível aos círculos poderosos da época.

Determinados aspectos de sua vida são imprecisos ou até mesmo desconhecidos. De sua mãe não se sabe quase nada. A origem norte-africana, grega ou macedônia da rainha é discutida até hoje, sem uma conclusão razoável. Não menos importante, a causa de sua morte segue sendo debatida: entregou-se à picada de uma cobra ou tirou a própria vida ingerindo veneno? Mistérios. O que não é segredo tem a ver com sua inteligência e erudição, principais ferramentas quanto à criação da persona femme fatale da última rainha da dinastia ptolomaica a comandar o Egito.

Muitos também atribuíam esse poderio humano relacionado à atração que Cleópatra exercia a questões de ocultismo e, mais especificamente, bruxaria. Ok: é ponto pacífico que versões baseadas em lendas geralmente têm mais apelo – as fake news sedutoras e ordinárias estão aí para provar. Ainda assim, no caso dessa mulher única, que assumiu o trono egípcio com apenas 17 anos, não se tratava de magia fantasiosa, mas de uma “tecnologia cerebral” engenhosa quando o assunto era o convencimento na área diplomática, intelectual e emocional.

Cleópatra, mesmo com pouca idade, aprendeu rápido que ascender ao poder como rainha do Egito, menina dos olhos de parte considerável do globo, era difícil. Perpetuar-se por lá era missão ainda mais complexa... Principalmente porque tinha um exército romano no meio do caminho, que só fazia crescer. Fora isso, também já existia algo como o “centrão” naquela época, e a distribuição de agrados na intenção de pavimentar a tal governabilidade era prática comum àqueles que não conseguiam pensar em outras maneiras de não jogar a toalha quanto à realeza.

Daí que a rainha do Egito, uma mulher estranha e diferentona para muitos resolveu, guardadas as devidas proporções, seguir o famoso clichê que diz que “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Como se vislumbrasse cliques e likes numa rede social da época, que bem poderia ser a “A.C.Book”, a aspirante a influencer do Rio Nilo bolou algo que soou como uma publi mirabolante: transformar-se em amante nada mais nada menos do que do ditador romano, Júlio César.

Pintura representando Júlio César / Crédito: Domínio Público via Wikimmedia Commons

 

Político, militar, pontífice máximo e cônsul vitalício, entre outras dezenas de adjetivos do tipo, César teria conhecido Cleópatra quando ela travava uma quebra de braço com seu próprio irmão, Ptolomeu XIII, já que ambos passaram a dominar o Egito no ano de 51 a. C., quando da morte do pai. Em testamento, o genitor escreveu que o reino deveria ficar tanto para o filho – com 10 anos na época – quanto para Cleópatra, sacramentando a decisão com um pedido de casamento não apenas figurado entre os irmãos, mas real, baseado nas tradições daqueles tempos. Sentiu um cheirinho de problema? Sentiu certo.

Os primeiros anos no poder foram repletos de intrigas, e a rainha foi afastada do trono. Mas ela não iria desistir. Aproveitando que Júlio César estava no Egito fazendo o que mais gostava – caçando rivais –, abriu o verbo ao ditador quanto à necessidade de apoio na briga pelo reinado. Mesmo inicialmente tentado a ajudar o irmão de Cleópatra, o político acabou reformulando sua opinião. O motivo? Ptolomeu era bom... Mas sua irmã era ótima: enrolando-se literalmente num tapete e, como um presente, chegando às mãos de Júlio César, ela fez dessa entrada triunfal uma ponte para o coração e o apoio do ditador, que convenceu o irmão dela a partilhar o trono entre os herdeiros.

Dali para a morte do irmão, em 47 a.C., e a prisão da irmã, Arsinoé, foi um pulo. Caminho quase livre para a dominação da rainha e do ditador, não fosse por Ptolomeu XIV, outro irmão dela. Mas nada que um novo casamento entre Cleópatra e o irmão da vez não resolvesse, certo? E que fique claro: isso não impediu que ela seguisse grudada em Júlio César.  

Representando Roma e, por conseguinte, de olho em tudo de valor que o Egito podia oferecer, o líder romano harmonizou de vez com a amante, numa relação marcada por uma espécie de “separação de bens dominados”. Ele ficaria com as riquezas daquele país, dispondo-as em prol de seu poderio militar; ela, com carta branca para dar continuidade ao seu plano de poder, multiplicando o fã clube que a via como alguém que disputava o que quer que fosse em pé de igualdade, com qualquer um.

Além de ambiciosa e empoderada, com o passar do tempo ela também fechou o pacote de uma postura moderna defendendo dois novos “projetos”. O primeiro tinha a ver com transformar o Oriente num império sob o comando dos Ptolomeus – Alexandria sendo a capital; o segundo, no terreno do amor/cobiça, tinha ver com jogar a sementinha da sedução em Marco Antônio, sucessor de Júlio César na Itália, já que este havia falecido no dia 15 de março, no ano 44 a. C.

E não é que a rainha fisgou o bonitão? Também pudera: o investimento na imagem transformava-a numa espécie de “Cleópatroa”, aquela que todos invejam, imitam e desejam possuir, que tem milhões de seguidores, uma vida aparentemente perfeita e um final feliz sempre à espreita.

Elizabeth Taylor como Cleópatra - Divulgação/20th Century Fox

 

Fora dos stories da época, infelizmente, não acabou tudo bem para a mulher mais famosa do Egito, quiçá do mundo. De qualquer forma, a lenda continua. Ou melhor, o case. Caso existisse um túmulo oficialmente reconhecido, com os restos mortais dela, um bom epitáfio para dar a dimensão aproximada de seu poder de encanto seria: meus mistérios, minhas regras.

A última faraó 

A saga da última faraó do Egito é abordada no último podcast da Aventuras na História, o 'Desventuras na História'.

A produção conta com a narração de Vítor Soares, que é professor de História e também o idealizador por trás do criativo podcast 'História em Meia Hora'.

O episódio relembra a vida e a morte da figura eternizada na história da civilização que prosperou às margens do Nilo.

Confira o episódio abaixo!