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A curiosa saga das pernas mumificadas de uma rainha egípcia

Quando descobriram uma enorme tumba, arqueólogos perceberam que aquilo era só o que restava da antiga nobre esposa de Ramsés II

Isabela Barreiros Publicado em 14/12/2021, às 14h42

Os joelhos da rainha Nefertari
Os joelhos da rainha Nefertari - Divulgação/Habicht et al., PLOS ONE 11

A luxuosa tumba da rainha Nefertari foi descoberta por arqueólogos em 1904, no Vale das Rainhas, em Luxor, no Egito. Ela foi a esposa do faraó Ramsés II e viveu entre 1290 a.C. e 1254 a.C.

Conhecida como uma das rainhas mais poderosas do Egito Antigo, Nefertari foi dona de uma beleza exuberante e inteligência esplêndida. Isso fica claro com seu nome significando "a mais bela" e o fato de ela ter participado ativamente na política egípcia.

Quando seu túmulo foi encontrado, os pesquisadores perceberam que o cemitério havia sido esplêndido no passado. No entanto, acabou sendo saqueado com o tempo e teve inúmeros artefatos quebrados, que foram deixados para trás danificados.

Com cerca de 520 metros quadrados, o local de enterro da icônica rainha passou a ser objeto de estudo dos egiptólogos que se surpreenderam com uma descoberta feita lá dentro. Eles se depararam com nada mais nada menos que seus restos mortais.

A rainha egípcia Nefertari / Crédito: Maler der Grabkammer der Nefertari via Wikimedia Commons

 

Na verdade, o que os pesquisadores encontraram foi parte da múmia da nobre egípcia. Em vez de todo o corpo mumificado, como geralmente acontecia quando descobriam as tumbas dos antigos membros da realeza do Antigo Egito, observaram apenas joelhos.

Os membros haviam passado pelo processo metódico de embalsamamento da antiga civilização e estava bastante preservado. Ainda assim, o par de joelhos não passou imediatamente por análises e ficou esquecido por anos.

Foi apenas em 2016 que cientistas decidiram examinar os membros mumificados descobertos na tumba de número QV66, identificada como da rainha, para se certificarem de que se tratava das pernas da esposa de Ramsés II.

Um time de arqueólogos, liderado por Stephen Buckley e Joann Fletcher, do Departamento de Arqueologia da Universidade de York, no Reino Unido, foi responsável pelo estudo nos joelhos embalsamados há cinco anos e chegou a conclusões interessantes.

Os pesquisadores usaram diferentes métodos para comprovarem o DNA das pernas, ao armarem-se de técnicas como datação por radiocarbono, antropologia, paleopatologia, genética e análise química para identificar a parcela da múmia encontrada.

Ainda que "não exista nenhuma certeza absoluta, o cenário mais provável é que os joelhos mumificados realmente pertençam à rainha Nefertari", escreveram os especialistas em um artigo com suas conclusões sobre os joelhos mumificados na revista científica PLOS One em 2016.

Como noticiou o jornal O Globo na época em que o estudo foi divulgado, a equipe sugeriu que as pernas pertenceram a uma mulher adulta que morreu com cerca de 40 anos, uma descrição que batia com os poucos registros restantes da lendária rainha egípcia.

Entrada da tumba da rainha Nefertari/ Crédito: Steve F-E-Cameron via Wikimedia Commons

 

O material analisado consiste em três fragmentos, ainda envoltos em lençóis de múmia. Um deles é parte de um fêmur, com mais de 30 centímetros de comprimento, a patela, e parte da tíbia.

Além dos próprios ossos, o material também foi analisado quimicamente, o que levou os pesquisadores a concluírem que se tratava de uma pessoa da alta sociedade egípcia em decorrência de sua qualidade. As tradições também estavam ligadas àquelas usadas durante o século 13 a.C. no Egito Antigo.

“Eles [os joelhos] foram mumificados com um padrão muito alto, usando os ingredientes mais caros. Foram envolvidos de forma muito cuidadosa, com muita atenção aos detalhes”, explicou a egiptóloga Joann Fletcher.

“Tanto Stephen como eu temos uma longa história estudando as múmias reais do Egito, e as evidências que pudemos reunir sobre os restos de Nefertari não só complementam a pesquisa que temos feito sobre a rainha e seu túmulo, mas realmente nos permite acrescentar outra peça para o quebra-cabeça do que é até agora conhecido sobre a mumificação egípcia”, completou.

Os restos mortais da rainha Nefertari e muitos dos objetos encontrados em sua tumba foram enviados ao Museu Egípcio de Turim, na Itália.


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