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É ruim em exatas? Faça como Marighella e use a poesia a seu favor

Antes de ser considerado um terrorista pela Ditadura Militar, Carlos Marighella usou a poesia para se dar bem na escola

Victor Alexandre Publicado em 07/12/2021, às 16h00

Carlos Marighella, guerrilheiro baiano
Carlos Marighella, guerrilheiro baiano - Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, via Wikimedia Commons

No cenário político brasileiro, falar sobre os períodos que o país viveu sob uma ditadura sempre foi algo complexo e delicado. Essa dificuldade é agravada quando colocamos na equação figuras como Carlos Marighella.

Em determinado momento de sua vida, ele decidiu que a única saída para vencer o autoritarismo de Estado seria pegar em armas e iniciar uma luta revolucionária. Isso já é um fato mais conhecido sobre o guerrilheiro, mas o que poucos sabem é que ao longo de sua vida, Marighella usou as palavras para se expressar e comunicar suas ideias.

Infância

A história de Marighella é semelhante a de muitas famílias do século passado. Você deve concordar comigo que “Marighella” não é um nome tipicamente brasileiro. Temos essa impressão porque de fato não é.

Carlos Marighella é filho de um imigrante italiano chamado Augusto Marighella, que chegou em São Paulo em novembro de 1907. Assim como muitas famílias, os Marighella encontraram no Brasil uma oportunidade de ascenderem socialmente e terem melhores condições de vida.

Carlos Marighella em diferentes retratos / Crédito: Comissão da Verdade do Estado de São Paulo e Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj) via Wikimedia Commons

 

Augusto Marighella se mudou para Salvador com o objetivo de encontrar um emprego. Como tinha experiência como operário metalúrgico, Augusto conseguiu um trabalho como motorista de caminhão de lixo e mecânico.

Foi através desta ocupação que Augusto conheceu sua esposa, a jovem Maria Rita dos Santos que trabalhava como doméstica. Nascida em 1888, mesmo ano da assinatura da Lei Áurea que libertava os escravos brasileiros de uma vez por todas, Maria Rita era negra, filha de africanos escravizados e neta de africanos vindos do Sudão.

Assim que se conheceram não demorou muito para que o casal se apaixonasse e em pouco tempo se casassem. Através dessa união, Augusto e Maria Rita tiveram 8 filhos, sendo que o mais velho era Carlos Marighella, nascido em 5 de dezembro de 1911 na cidade de Salvador, Bahia. 

Mesmo tendo uma infância simples, de acordo com o biógrafo Mário Magalhães, o sr. Augusto, "em vez de introduzi-lo [Carlos Marighella] nos macetes das chaves de fenda, distanciou-o da graxa”. Ao invés de acompanhar os passos do pai, o pequeno Carlos se interessava mais em livros e no estudo.

Ainda adolescente ajudava seus vizinhos com o reforço escolar e passava horas estudando em seu quarto. Para Mário Magalhães, mesmo vindo de uma origem humilde, o apoio e o incentivo que Augusto Marighella e Maria Rita deram ao seu filho foi crucial para o desenvolvimento de Carlos Marighella.

Fotografias dos pais de Carlos Marighella / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

A prova de física

Mesmo gostando bastante de estudar, Carlos Marighella nunca foi um aluno exemplar ou o primeiro da sala. Mário Magalhães conta que Marighella chamava mais atenção pelo seu comportamento peculiar em comparação com seus colegas do que pelas suas notas. Mas isso mudou no ano de 1929, quando Marighella estudava no Ginásio da Bahia e decidiu responder uma prova de Física usando um poema de sua autoria. 

Poesia e Literatura eram as grandes paixões que Carlos Marighella tinha desde a infância. Suas principais referências eram Castro Alves, que fazia parte do movimento romântico brasileiro e Gregório de Matos Guerra, um importante poeta baiano do século 17 que tinha como principal característica a sátira ácida.

Foi inspirado nesses dois autores que Marighella começou a escrever poemas e algumas sátiras de seus professores. 

Em 1929, quando Carlos tinha 17 anos, precisava resolver uma questão de Física que versava a respeito de óptica e o estudo do reflexo da luz. Pela lógica, uma prova como essa pediria que o aluno respondesse com cálculos ou esquemas visuais. Mas o que Carlos Marighella fez foi totalmente inusitado, respondeu seu professor com versos. O livro “Marighella — O Guerrilheiro que incendiou o Mundo” traz essa resposta:

“Doutor, a sério falo, me permita, 

em versos rabiscar a prova escrita.

Espelho é a superfície que produz,

quando polida, a reflexão da luz.

Há nos espelhos a considerar

dois casos, quando a imagem se formar.

Caso primeiro: um ponto é que se tem;

ao segundo um objeto é que convém.”

O livro contém a resposta completa caso queira consultar. Assim que Marighella terminou essa prova, se tornou uma sensação. Seus amigos fizeram cópias da resposta, publicaram no jornal do colégio e nos murais onde todos os alunos tinham acesso.

Marighella filiado ao Partido Comunista do Brasil / Crédito: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro via Wikimedia Commons

 

Para a surpresa de todos, o professor Clemente Guimarães também respondeu a prova de Marighella em versos. O que mais surpreendente, no entanto, foi Carlos ter atingido 8,2 em sua nota final em Física. 

Para Carlos Marighella, recorrer às palavras e à poesia não foi útil apenas para passar em uma prova, mas também para se expressar ao longo da vida. Marighella é autor de uma série de poemas, inclusive alguns feitos dentro da prisão quando lutava contra os interventores de Getúlio Vargas em 1937.

O guerrilheiro ainda screveu “A Crise Brasileira”, em meados de 1966, onde fala de forma teórica sobre o contexto político brasileiro e a atuação do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Mas seu texto mais famoso sem dúvidas é o “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”, escrito em 1969. O renomado texto relata e ensina como deveria ser o papel da luta armada revolucionária frente aos militares brasileiros.


No episódio de hoje do podcast ‘Desventuras na História’, o professor de História Vítor Soares, dono do podcast 'História em Meia Hora', resgata a história de Carlos Marighella, em um especial dividido em duas partes.

No 'Desventuras na História', você também pode conferir a trajetória de Maria Antonieta, Dante Alighieri, Alexandre, O Grande, Gengis Khan e Dom Pedro I.

Abaixo, você confere o episódio 'A intensa saga de Carlos Marighella' #Parte 1 e #Parte 2: