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Inimigo da gourmetização: Napoleão Bonaparte gostava de comer com as mãos

Glutão raiz, o imperador e temido estrategista militar francês curtia um banquete simples depois de transpassar seus inimigos nas batalhas

Hugo Oliveira Publicado em 23/11/2021, às 11h56 - Atualizado em 26/11/2021, às 10h11

O estadista francês Napoleão Bonaparte
O estadista francês Napoleão Bonaparte - Getty Images

– Boa noite. Qual é o pedido do senhor?

– Vou querer um trio com Ovos Fritos G, Tinto-Córsega gigante e um Big Chicken Marengo. Embrulhe tudo pra pilhagem, por favor. Quer dizer, viagem.

– Ok, senhor. Qual é a forma de pagamento?

– Dióxido de enxofre... Brincadeira! É no dinheiro. E pode adicionar uma porção de linguiça também.

– Perfeito. O senhor não gostaria de pagar um pequeno adicional para transformar a refeição em “premium artesanal gourmet”?

– Deus me livre. Prefiro cair de quatro em Waterloo do que abrir mão do meu rango clássico!

O diálogo reproduzido acima é fictício. A ideia seria aludir ao “comportamento alimentício” do imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821), caso o próprio ainda estive entre nós, vivenciando a era da gourmetização, dos fast-foods e dos lanches artesanais.

É ponto pacífico que pode soar como um exercício de futurologia um tanto forçado para muitos. De qualquer forma, alguns dados históricos oferecem terreno fértil para tal, e é por esse caminho um tanto delicioso – e gorduroso – que seguiremos, no ritmo do galopar não apenas do cavalo branco de Napoleão, mas do preto, do marrom, do malhado e afins, já que ele teve vários animais do tipo.

Militar de renome, líder político reconhecido e imperador do povo francês, Napoleão conquistou na marra um gigantesco espaço territorial para seu país, constituindo aquele que ficou conhecido como o Império Napoleônico, terror das monarquias e oásis de ideias liberais.

Também caiu no colo dele a solidificação interna e a divulgação externa quanto aos êxitos e diretrizes primordiais da Revolução Francesa, efetuada entre 1789 e 1799. Pois bem: hora de parar de arrotar caviar e de voltarmos nossa atenção ao que realmente interessa.

Muitas fontes históricas dão conta de representar o imperador da França como um homem extremamente guloso e pouco afeito às boas maneiras à mesa. Napoleão gostava de comer com as mãos e limpar as próprias no pão que devoraria em seguida, quase que já temperando-o de forma rústica. Além disso, teria verdadeira adoração às guloseimas banhadas em gordura.

O café da manhã desse verdadeiro glutão raiz era baseado principalmente em ovos fritos na manteiga e azeitonas. Tudo, vale ressaltar, acompanhado de muita pimenta. Na hora do almoço, não dispensava aquela linguicinha. Na verdade, “aquelas”, já que curtia a iguaria em grande quantidade.

Ok, mas à noite rolava uma trégua estomacal, certo? Errado: chef pessoal do general Bonaparte a partir de 1805, o cozinheiro Denis Dunant contou que o patrão curtia uma sopinha de feijão com legumes um pouco antes de se retirar para aquele soninho merecido.

Parece normal, mas a parte assustadora vem agora: o caldo da inocente sopinha era grosso num nível em que a colher que Napoleão utilizava para comer ficava na vertical no meio do prato, imóvel, sem apresentar qualquer risco de tombar sobre a comida.

Aliás, ainda falando sobre Dunant, muitos não atribuem a ele a produção do prato mais adorado pelo imperador, o famoso Frango à Marengo. Isso porque o cozinheiro ainda não estaria na folha de pagamento de Napoleão na época em que o conflito que deu nome ao prato foi efetuado.

Travada no Norte da Itália, em 14 de junho de 1800, a Batalha de Marengo serviu como mais uma prova do brilhantismo militar do guloso estrategista. Na ocasião, mesmo em menor número, o exército de Napoleão derrotou as tropas austríacas que dominavam aquela área, num feito que ele, dali para frente, passou a citar como uma de suas mais importantes vitórias.

Aqui, a história se divide: uma versão sugere que o veículo da intendência dos franceses teria se perdido nesse dia, levando em seu interior toda a comida da chefia. O cozinheiro teria fica apavorado com o sumiço, mas, motivado pelo senso de responsabilidade – leia-se medo de morrer –, teria pedido a seus ajudantes que coletassem mantimentos nas cercanias, imaginando a fome de Napoleão, que por sinal, nunca batia seus pratos antes de guerrear, somente depois. A rapaziada rodou a vizinhança e apresentou ao mestre-cuca amedrontado justamente os ingredientes que dariam vida ao prato.

Já a linha histórica que inclui Dunant como criador da receita diz o seguinte: após a Batalha de Marengo, Napoleão, ele mesmo, em carne, osso e larica monstruosa, fez o pedido de comida ao cozinheiro, que tão logo se apressou em transmitir aos soldados a necessidade de buscar mantimentos no território recém-conquistado. Depois de um tempo, eis que chegam às mãos de Dunant alguns ingredientes, destacando-se ovos, tomates, alho, azeite e frango.

Tal qual um candidato de uma competição gastronômica daqueles tempos, cujo prêmio principal era seguir vivinho da silva, o “chef do chefão” empenhou sua vida na feitura daquele prato e, ao que parece, deu certo. Satisfeito e de barriga cheia, Napoleão teria dito, inclusive, que a partir daquele dia, Dunant faria a mesma receita após cada batalha vencida pelo exército do comandante francês.

Versões à parte, o famoso e imponente Napoleão, estrategista supremo da guerra, sempre retratado de forma impecável nas pinturas, foi literalmente pego pelo estômago no que diz respeito à própria morte, em 5 de maio de 1821.

Inclusive, a clássica pose com as mãos sobre a barriga seria motiva por dores referentes ao câncer no estomago que o vitimou – historiadores também defendem que a dor poderia ser oriunda de um caso de hérnia ou até mesmo de úlcera.

Aparentemente sempre com fome, fosse de conquistas complexas e valorosas ou de comidas simples e calóricas, Napoleão, feito um “Seu Boneco” de sua época – personagem de Lug de Paula no humorístico brasileiro “Escolinha do Professor Raimundo” –, foi para a galera pela última vez.

Suas últimas palavras, documentadas num testamento que data de abril de 1821, falam de partir cedo deste mundo, culpando os ingleses por isso. “Minha morte é prematura. O oligopólio inglês e seu assassino contratado me assassinaram”.

Na hora h, no fechar de olhos desta vida, não há registros sobre uma derradeira frase de Napoleão. Ainda assim, aqui no balcão de apostas do Desventuras na História, já lancei meu palpite: Y a-t-il un poulet marengo au paradis? E morreu.


Em mais um episódio do podcast ‘Desventuras na História’, o professor de História Vítor Soares, criador do podcast 'História em Meia Hora' apresenta de forma descontraída a respeito dessa e outras curiosidades da trajetória de Napoleão.  

No 'Desventuras na História', você também pode conferir edições a respeito de Maria Antonieta,Dante Alighieri, Alexandre, O Grande, Gengis Khan e Dom Pedro I.

Abaixo, você confere o episódio 'Os amores de Napoleão Bonaparte':