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Mabel Fierz: A brasileira ‘responsável’ pelo sucesso de George Orwell

Muito além de incentivadora, a gaúcha também foi íntima do escritor

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 20/02/2022, às 09h00 - Atualizado em 04/03/2022, às 18h30

O escritor George Orwell
O escritor George Orwell - Getty Images

Entre 1922 e 1927, Eric Arthur Blair foi integrante da Polícia Imperial da Birmânia, cargo que lhe trouxe uma estabilidade respeitável. Porém, nos cinco anos seguintes, Blair retornou à Inglaterra, onde passou a viver em Southwold, no leste do país. 

Por lá, estabeleceu laços com amigos e sobrevivia de ocupações sub-remuneradas, visto que não teve mais um emprego fixo. Entre pintor de aquarelas e coletor de lúpulo, Eric Arthur foi incentivado a se tornar escritor. 

O escritor George Orwell/ Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Em 1933, publica seu primeiro livro ‘Na Pior em Paris e Londres’, assinando a obra como a alcunha que viria a se tornar referência na literatura mundial: George Orwell. O que poucos sabem, porém, é que tal decisão só aconteceu por causa de uma brasileira. 

Mabel Fierz: Amiga e amada

Em agosto de 1930, a gaúcha Mabel Lilian Sinclair Fierz passeava com seu marido, Francis Fierz, quando avistou um jovem que fazia pinturas na beira da praia. O encontro, pouco tempos depois, iniciaria uma amizade que mudaria para sempre a história da literatura. 

"Francis e Mabel Fierz eram da América do Sul. Tinham uma casa em Hampstead Garden Suburb e ambos eram muito cultos. Francis era um amante de Dickens; Mabel, uma mulher vivaz e opiniática que gostava da companhia de jovens artistas, acreditava que tinha um olho para o talento e a determinação para trazê-lo à tona", descreve Gordon Bowker em ‘Inside George Orwell: A Biography’, publicado em 2003. 

Mabel, que escrevia resenhas literárias, é vista por muitos pesquisadores como uma figura maternal para Orwell. Porém, segundo a biografia ‘Orwell: Wintry Conscience of a Generation’ (2000), de Jeff Meyers, ela era muito mais que isso: Fierz teria sido sua amante. 

Francis, Mebel e Fay Fierz/ Crédito: Arquivo Pessoal 

A afirmação, conforme explica Meyers, tem como fontes os próprios filhos de Mabel: Fay e Adrian. Na obra, o biógrafo descreve Mabel como filha de pais ingleses, nascida, em 1890, “no Rio Grande do Sul, no Brasil”.

“Mabel Robinson Fierz foi a figura feminina mais importante das três que Blair encontrou em Southwold. Havia nascido em 1890, os pais eram ingleses, no Rio Grande do Sul, Brasil. Sabia português e falava inglês com certo sotaque, havia recebido aulas particulares em casa e chegou à Inglaterra em 1908, quando tinha 17 anos”, disse o escritor. 

Jeff Meyers também aponta que a gaúcha foi educada em casa e que só conheceu a terra natal de seus progenitores em 1908, quando tinha 17 anos. Em solo tupiniquim, Mabel teria sido criada sob uma doutrina Católica — que era minoritária na Inglaterra, dominada por anglicanos. 

O autor também apresenta Francis como brasileiro, segundo informações de um censo inglês de 1911. Desta forma, Bowker os descreve como “sul-americanos” que se casaram em Londres no ano de 1919. 

Intelectual de esquerda

Conforme aponta o biógrafo, os filhos de Mabel a descreveram como uma mulher cativante e de personalidade viva. Além do mais, eles apontaram que a mãe tinha interesses intelectuais que coincidiam com a esquerda.

Esse fator, aliás, teria sido de suma importância para se interessar por Orwell, um jovem que havia virado às costas para a ‘máquina capitalista’ em prol de conhecer mais afundo como viviam as classes mais miseráveis da Inglaterra. 

Segundo o filho de Mabel, a mãe assumiu, durante seus últimos anos de vida, que nutriu, por um certo tempo, um romance com Orwell. Conforme relata Meyers, o caso era tão restrito e reservado que Francis Fierz preferiu não tomar conhecimento sobre o assunto. 

Apoio à Orwell

Na obra ‘The Unknown Orwell: Orwell, the Transformation’, de Peter Stansky e William Miller Abrahams, publicada em 1974, os autores apontam que Mabel também tentou intervir na relação entre George Orwelle seu pai, Richard Blair

Ex-funcionário público, Richard não gostou nenhum pouco quando o filho deixou o serviço imperial para se aventurar na vida artística.

“Ela fez o melhor que pôde, especialmente após conhecer Orwell, para ser mediadora entre pai e filho, ainda que sem resultados visíveis", apontam Abrahams e Stansky

Cena do jogo Orwell's Animal Farm, inspirado na obra de Orwell/ Crédito: Getty Images

Em setembro de 1931, Orwell tentava emplacar sua primeira obra, que havia ganho o título provisório de ‘Diário de um Lavador de Pratos’. Porém, o livro acabou sendo recusado por Jonathan Cape

No fim do mesmo ano, uma cópia foi enviada ao poeta T.S. Elliot, que era editor da Faber & Faber. Segundo apontam Peter e William, todos esses processos tiveram a intermediação de Mabel que, embora não tivesse lido um texto sequer de Orwell, admirava seu espírito intelectual. 

T.S. Elliot, porém, também rejeitou a publicação pouco tempo depois. Àquela altura, George Orwell já havia desacreditado de seu talento e havia deixado o manuscrito para que Mabel o descartasse. A mulher, porém, resolveu ler a obra e se encantou com o que viu. 

A cartada seguinte dela seria oferecer a obra ao agente literário Leonard Moore, insistindo que ele lesse o livro antes de mais nada. A estratégia deu certo e, em 1933, ‘Na Pior em Paris e Londres’ foi publicado. 

Tempos depois, o nome de George Orwell passaria a ser reconhecido como um dos melhores cronistas da cultura inglesa do século 20, segundo o The Economist. ‘Na Pior em Paris e Londres’ possui uma página de dedicatória a Francis e Mabel Fierz, falecidos, respectivamente, em 1979 e 1990. Os dois estão enterrados no cemitério municipal de Surrey, um condado no sudoeste da Inglaterra.


Pedro, herói de Portugal

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