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Militares venezuelanos gays relatam homofobia e perseguição na Força Armada

"O comandante dessa unidade me dizia que tinha nojo de maricas”, relata capitão da Guarda Nacional

Fabio Previdelli Publicado em 20/04/2022, às 16h07 - Atualizado em 05/05/2022, às 09h20

Fotografia meramente ilustrativa
Fotografia meramente ilustrativa - Getty Images

"É mais grave ser gay do que ser corrupto", desabafa o capitão da Guarda Nacional venezuelana de 36 anos, que pediu para ser identificado apenas como José. "Há militares corruptos, ladrões, narco-traficantes, com procedimentos que os sancionam e seguem trabalhando como se nada tivesse acontecido".

O militar aponta que, durante anos, a pressão em torno de sua sexualidade era tamanha que uma região de sua cabeça começou a sofrer com a perda de cabelo. "Era tamanha a pressão que fazia cair o meu cabelo".

Os relatos de José não são únicos. Embora tivesse um expediente limpo na Força Armada venezuelana, o tenente Rafael foi julgado e expulso por ser homessexual. A orientação sexual, inclusive, lhe fez passar por episódio de perseguição, discriminação e humilhações.

Conforme aponta matéria da AFP, a homossexualidade é tratada como "atos contra a natureza" no meio militar, o que pode levar oficiais a serem presos por até três anos e serem desonrados de seus cargos. 

No país, o Código Orgânico da Justiça Militar vigente obriga militares homossexuais a se esconderem, mesmo após passar por diversas reformas — sendo a mais recente delas em setembro de 2021 —; apesar dos inúmeros pedidos feitos por ativistas ao Parlamento.

Violação sistemática de Direitos Humanos

Por conta dos protestos, a Força Armada venezuelana sofreu diversas acusações de violação dos Direitos Humanos, embora o órgão negue quaisquer acusações. 

Mas as marcas são evidentes. ”[A] primeira pergunta que te fazem na entrevista de ingresso é qual é sua orientação sexual: homossexual, bissexual ou heterossexual? Se não responde que é heterossexual está descartado, ali começa o primeiro filtro", diz Rafael à AFP. O tenente do Exército foi expulso após 37 anos.

José viveu pesadelo parecido. Em 2017, foi investigado por "um grupo grande de militares para determinar quem era gay". Sua situação piorava pois não seguia requisitos básicos para ascender às patentes mais altas: como ser casado e ter filhos.

O capitão aponta que, para salvarem suas carreiras, muitos militares homossexuais se submetiam ao casamento de fachada. Ele se negou, visto que mantinha uma relação com outro homem. Por conta disso, ficou detido por quatro dias. "Foram os piores quatro dias da minha vida", diz com os olhos marejados. "Você tem noiva?", a pergunta lhe foi feita à exaustão.

No último dia da investigação me fizeram o teste de polígrafo, me prenderam em um quarto, me conectaram a umas máquinas, praticamente sem roupa, conectado com fios nos dedos, nas mãos. Me perguntaram o mais íntimo".

"Como vamos ter aqui um maricas?'', foi uma das perguntas que mais ouviu de militares que tentavam obrigá-lo a assinar um documento reconhecendo sua orientação sexual. "Como não tiveram uma prova contundente (...) se dedicaram a me humilhar. Por conta disso, jamais foi autorizado a comandar tropas. 

Além do tempo preso em um galpão, ouvia os mais diferentes insultos de outros companheiros. "O comandante dessa unidade me dizia que tinha nojo de maricas, que não me queria perto".


O 'Desventuras na História' segue uma nova maneira de levar a História para o público, mas sem deixar para trás os fatos importantes. A ideia é transmitir o conteúdo, seja qual ele for, de forma mais íntima, como numa conversa.

Abaixo, você confere o episódio 'Conquistador nato: a saga de Alexandre, o Grande.