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As várias identidades de Cleópatra ao longo da História

Cleópatra foi uma figura histórica que ao longo do tempo recebeu uma série de interpretações diferentes a respeito de quem ela era

Victor Alexandre Publicado em 13/12/2021, às 17h44 - Atualizado às 17h45

Diferentes representações de Cleópatra
Diferentes representações de Cleópatra - Divulgação e Wikimedia Commons, Domínio Público

Mesmo que durante toda uma vida, determinado personagem trabalhe para ser lembrado na história com alguma característica marcante ou ponto positivo, quem define como essa figura será estudada serão as pessoas do futuro. Pode parecer um pouco cruel, mas é a verdade.

Cleópatra VII, a última rainha do Egito era uma líder extremamente competente, falava mais de línguas, fez acordos políticos e comerciais, e garantiu a sobrevivência do seu reino enquanto um novo império estava surgindo, o Império Romano.

Mesmo que ela tivesse sido essa importante líder, em geral, não foram essas características que mais alimentaram os debates a respeito de sua figura ao longo da história. Como e por que isso aconteceu é o que vamos descobrir agora!

Por que Cleópatra chama tanta atenção?

Não é uma tarefa fácil explicar porque algo chama nossa atenção. Quando falamos de história esse padrão se repete. Algum filme, livro ou até desenho infantil podem aguçar o nosso interesse sobre determinado assunto. É provável que muito da curiosidade que as pessoas têm a respeito da figura da Cleópatra seja causado por produções cinematográficas.

Pelo menos desde 1912 a rainha Cleópatra é retratada no cinema. Neste ano, quem recebeu a missão de interpretá-la foi a atriz Helen Gardner, mas quem imortalizou a imagem da rainha nos cinemas foi Elizabeth Taylor, no épico Cleópatra, de 1963.

Porém, independente de quando e quem tenha interpretado a rainha, existe um padrão em todas essas produções artísticas: a Cleópatra e o próprio Egito são retratados como um lugar exótico. Uma riqueza esbanjadora, animais e banquetes grandiosos eram parte do retrato que os cineastas faziam do Egito sob liderança de Cleópatra.

O pesquisador Robert Stam diz o seguinte sobre esse tipo de representação: “Em tais filmes, a arquitetura monumental, o detalhe doméstico e os banquetes quase pornográficos refletem uma obsessão com a abundância material do Oriente Antigo.”

O que Stam deixa claro em sua pesquisa é que a forma que Cleópatra foi retratada nos cinemas, não necessariamente segue um padrão a respeito da “Cleópatra Histórica”, e sim aquilo que determinada época de pensamento pensava sobre ela. É baseado em algumas dessas interpretações da rainha que vemos surgir diversos estudos que tentam reconstruir quem foi Cleópatra VII.

Origem, beleza, pele e legado de Cleópatra

“Cada época, pode-se dizer, tem sua própria Cleópatra, a ponto de se poder estudar o pensamento e discursos de uma época através de suas fantasias sobre Cleópatra”, foi o que disse a antropóloga Ella Shohat ao escrever um artigo focado apenas nas representações da cleópatra ao longo do século XIX e XX.

Mesmo antes de existir o cinema, a rainha egípcia já havia se tornado um ícone que estava no imaginário popular. Através da circulação de gravuras, cartões postais, livros e contos, histórias sobre os feitos e sobre sua personalidade circulavam o mundo.

Nesse período da história, quando emergia um pensamento de formação das identidades nacionais, muito se pensava a respeito da origem da Cleópatra. Ela era egípcia, grega ou macedônia? Responder essa pergunta tinha como objetivo legitimar toda uma identidade nacional em torno de Cleópatra e seu legado.

Se ela fosse considerada grega, poderia dizer que ela era uma continuidade do legado ocidental da história, mas se ela fosse egípcia? A visão sobre Cleópatra continuaria a mesma? Independente de quais sejam as respostas, os debates sobre a origem da Cleópatra ainda existem. A mais nova polêmica se deu quando escolheram a atriz Gal Gadot, que tem origem judaica, para representar a rainha egípcia no novo filme que está sendo produzido.

Em montagem, busto de Cleópatra ao lado de cena do filme Mulher-Maravilha /Crédito: Divulgação

 

Por outro lado, existe também o intenso debate a respeito da cor da pele de Cleópatra. É verdade que o ponto de partida desses estudos são as representações cinematográficas feitas sobre ela. Praticamente em todos os filmes as atrizes têm características europeias, de pele branca e olhos claros, muito diferente da mistura entre traços egípcios, gregos e persas que provavelmente Cleópatra tinha. Se você quiser aprender mais sobre as pesquisas dentro desse tema, você pode clicar aqui.

Além desses debates, existe também um mais recente. O Egito sob a liderança de Cleópatra é parte da história europeia ou da história africana? Esse tipo de debate se dá por uma linha de pensamento chamada Afrocentrismo, um importante campo de pesquisa que tenta resgatar elementos da cultura de países do continente africano que se perderam após o período de neocolonização dos séculos XIX e XX.

Mesmo que limitado e até um pouco atrasado, as noções de “Oriente contra Ocidente, África contra Europa, e Negro contra Branco” continuam a movimentar os debates a respeito de diversos temas, comenta Shohat. A pesquisadora ainda conclui dizendo que é como se “estabelecer que ela foi negra, africana e egípcia, de um lado, ou que foi branca, greco-macedônia e europeia, de outro – é visto como um tento para cada um dos lados nas “guerras culturais”.

A figura da Cleópatra é um ótimo exemplo de que a história, enquanto disciplina acadêmica e científica, é construída baseada nas interpretações e nos debates que cada geração coloca sobre o passado. Nenhum passado está tão distante que não possa ser debatido, reinterpretado e colocado à mesa para fazermos uma série de perguntas novas.

 
 
 
 
 
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