Testeira

A genética é racista e sexista se analisarmos pelo prisma da preferência de alguns e as possibilidades de escolha

O legado de James Watson - que descobriu o DNA junto com Francis Crick, Maurice Wilkins e Rosalind Franklin - está em risco devido aos comentários reafirmados pelo biólogo norte-americano

Fabiano de Abreu* Publicado em 17/10/2021, às 08h00

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Imagem de Schäferle do Pixabay

No novo documentário pela PBS, James Watson de 90 anos de idade, afirma sua visão já antes declarada de que os negros são menos inteligentes que os brancos. “Há uma diferença na média entre negros e brancos nos testes de QI”, disse Watson no filme American Masters: Decoding Watson , lançado em 2 de janeiro. “Eu diria que a diferença é genética”.

Sua afirmação valeu seu emprego no Cold Spring Harbor Laboratory em Nova York, onde Watson foi diretor de 1968 a 1994.  Watson foi o ganhador do Prêmio Nobel 1962 com Medalha de Ouro Lomonossov em 94, Medalha Presidencial da Liberdade em 77, Prêmio Albert Lasker de Pesquisa Médica Básica em 1960, Prêmio John J. Carty em 1971, Medalha Copley em 93, Medalha Nacional de Ciências em 97, Prêmio Internacional da Fundação Gairdner em 2002, entre muitos outros prêmios até a data do seu primeiro comentário, que valeram indicações para outros prêmios para a sua coleção.

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James Watson /Crédito: Getty Images

O laboratório Cold Spring chegou a remover os títulos honorários de Watson dizendo que seus pontos de vista não tem apoio da ciência nem do laboratório. Em 2007, Watson comenta com um repórter britânico que estava triste sobre a África porque "todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que sua inteligência é a mesma que a nossa - enquanto todos os testes dizem que não realmente”.

Esse comentário  levou Watson a emitir um pedido público de desculpas e o Cold Spring Harbor Laboratory a suspender suas responsabilidades administrativas. Em 2014, Watson se tornou o primeiro ganhador do Nobel a vender seu prêmio porque perdeu tudo, exceto sua renda acadêmica, após ser demitido dos conselhos de empresas. Ele esperava que a venda do prêmio (por US $ 4,1 milhões) o ajudasse a "reingressar na vida pública".

Não apenas esses comentários de Watson, visto como racistas por muitos, ganharam repercussão e rejeição: Em 1997, Watson supostamente argumentou em uma entrevista no Sunday Telegraph que as mulheres deveriam ter permissão para abortar fetos que carregavam um “gene gay”, caso algum fosse descoberto. Os comentários provocaram uma reação de ativistas anti-aborto e da comunidade LGBTQ.

Em resposta, ele disse que  apenas havia falado sobre a história de uma que sentia que sua vida havia sido arruinada porque seu filho era homossexual e ela nunca teria netos. De acordo com ele,  simplesmente foi dito que as mulheres nessa situação deveriam ter a opção de abortar ou não e não que fetos descobertos com um gene gay deveriam ser abortados.

Já em 2000, durante uma palestra na University of California Berkeley, Watson compartilhou sua crença de que pessoas magras são mais infelizes do que pessoas maiores e, portanto, trabalhadoras.

Ele também disse: “Sempre que você entrevista pessoas gordas, você se sente mal, porque sabe que não vai contratá-las”, de acordo com o San Francisco Chronicle. Na mesma palestra, relatou o Chronicle , Watson comentou sobre a ligação entre a exposição ao sol (e a cor mais escura da pele) e as proezas sexuais:

“É por isso que você tem amantes latinos. Você nunca ouviu falar de um amante inglês. Apenas um paciente inglês. ” Os comentários chocaram o público, irritaram os alunos e levaram os professores da universidade a afirmar que Watson havia “ultrapassado os limites”.

Em 2003, em uma entrevista documental chamada DNA , que foi ao ar no Channel 4 no Reino Unido, Watson fez um pequeno comentário sobre a edição de genes para a beleza: “As pessoas dizem que seria terrível se tornássemos todas as garotas bonitas. Acho que seria ótimo”.

No mesmo documentário, ele sugere que a estupidez é uma doença a ser abolida. “Os 10 por cento mais baixos que realmente têm dificuldade, mesmo na escola primária, qual é a causa disso? Muitas pessoas gostariam de dizer: 'Bem, pobreza, coisas assim.' Provavelmente não é. Então, eu gostaria de me livrar disso, para ajudar os 10 por cento mais baixos." Os comentários provocaram uma reação da comunidade científica , levando um professor de genética a chamar as opiniões de Watson de “malucas".

No ano de 2007,  Watson começou a circular na mídia com seu livro recentemente lançado, Avoid Boring People: Lessons From a Life in Science - e se meteu em problemas novamente. Ele disse ao Times de Londres que estava "intrinsecamente sombrio sobre a perspectiva da África" porque "todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que sua inteligência é a mesma que a nossa - enquanto todos os testes dizem que não".

Ele negou ter feito essa observação, dizendo que não tinha base científica. Mas ele também disse que, embora as pessoas desejassem que todos os humanos fossem iguais, "as pessoas que têm de lidar com funcionários negros acham que isso não é verdade".

Esses comentários levaram o Cold Spring Harbor Laboratory a despedir Watson's de seu posto de chanceler da instituição e liberá-lo de suas funções administrativas - mas não conseguiu romper os laços. Watson ainda tinha um cargo e outros títulos, incluindo professor emérito.

No mesmo ano, em uma entrevista à Esquire , Watson disse que "algum anti-semitismo é justificado”. Ele continuou: “Assim como algum sentimento anti-irlandês é justificado. Se você não puder ser criticado, isso é muito perigoso.”

Na mesma entrevista, ele perguntou: “Por que nem todos são tão inteligentes quanto os judeus Ashkenazi?” e sugeriu que pessoas ricas deveriam ser pagas para ter filhos porque “se houver alguma correlação entre sucesso e genes, o QI cairá se as pessoas bem-sucedidas não tiverem filhos”.

Os comentários mais uma vez provocaram indignação e membros da comunidade científica expressaram repulsa pelas observações de Watson. Em 2012, sobre as mulheres na ciência, ele disse no EuroScience Open Forum em Dublin : “Acho que ter todas essas mulheres por perto torna tudo mais divertido para os homens, mas elas provavelmente são menos eficazes”.

Por fim, em 2019, Watson afirmou que “Há uma diferença na média entre negros e brancos nos testes de QI, eu diria que a diferença é genética”, disse ele no documentário da PBS American Masters: Decoding Watson. Os comentários de Watson, é o pensamento de muitas pessoas mesmo nos dias atuais.

O cientista tem suas convicções baseado em seus conhecimentos, mas sem comprovação científica, são meras opiniões que precisam ser analisadas em silêncio até que se possa tornar público. Os países africanos apresentam um QI mais baixo, assim como os negros em sua grande maioria, mas fatores ambientais climáticos, assim como alimentação, cultura, interferem nessa progressão.

Também generalizar é algo complexo, há negros de QI alto, mas tratando de uma estatística, temos que analisar as razões para as consequências. Isso coloca também em pauta o quanto a manipulação do DNA pode ser perigoso para o preconceito já que, pessoas com melhor condição financeira, podem manipular os “tipos" de filhos que poderão vir.

Poder escolher cor de cabelo, olhos, cor de pele, assim como probabilidades menores de doenças, separam pessoas em suas individualidades. Anões, pessoas com Síndrome de Down, entre qualquer diferença, como poderiam ser vistos por aqueles que optam pela manipulação genética? James Watson é um exemplo do que poderá vir a acontecer, que já se reflete atualmente.

Evoluímos do acaso, do caso e da causa mediante a nossa interferência e, por ela, vamos evoluir para um padrão perigoso e turbulento, que até moldar-se a uma nova modalidade, muitos sofrerão. Lembrando os filósofos gregos e suas convicções, que deu início ao processo de conhecimento e evolução intelectual, é como Santos-Dumont em sua profunda tristeza ao ver seus aviões sendo usados para matar pessoas, o que pensaria Plotino, sobre ao que se deu esta evolução.

Antes de qualquer fabricação, temos que pensar na ética e moral precursora sofística, de forma empática, sobre as consequências para os outros, não esquecendo que também genético, é nossa interação humana e necessidade do bem estar do outro, para o nosso próprio bem estar.

Temos que analisar as diferenças, entender a razão, e agir de forma com que elas não causem prejuízo, adaptando assim a capacidade à uma competência que sirva a este comboio social.  Afinal, melhor um negro a correr nas olimpíadas que um branco, melhor uma mulher gorda simpática que uma magra arrogante, melhor um homem feito divertido que um bonito narcisista, melhor um anão engraçado que um alto sem graça, melhor um portador de Síndrome de Down como amigo que não te rouba, de um sem a síndrome que te roube e , assim por diante, de acordo com o ponto de vista universal, é a diferença que faz a diferença, pois se fôssemos todos iguais, seria sem graça.


Biografia resumida do colunista Dr. Fabiano de Abreu Rodrigues

PhD, neurocientista, mestre psicanalista, biólogo, historiador, antropólogo, com formações também em neuropsicologia, psicologia, neurolinguística, neuroplasticidade, inteligência artificial, neurociência aplicada à aprendizagem, filosofia, jornalismo e formação profissional em nutrição clínica - Diretor do Centro de Pesquisas e Análises Heráclito; Chefe do Departamento de Ciências e Tecnologia da Logos University International, UniLogos; Membro da Federação Européia de Neurociências e da Sociedade Brasileira e Portuguesa de Neurociências. Universidades em destaque: Logos University International, UniLogos, Nova de Lisboa, Faveni, edX Harvard, Universidad de Madrid.


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