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O humor do corpo foi o estímulo para grandes nomes do passado buscarem a razão na alma

Muitos foram os nomes que vivenciaram essa intensa saga

Coluna - Fabiano de Abreu, neurocientista Publicado em 18/04/2021, às 01h00

René Descartes
René Descartes - Wikimedia Commons

A compreensão de como funciona a mente seria a resposta para problemas com ela relacionados e que podem, consequentemente, resultar em problemas físicos.

No nosso caminho pela busca da razão, temos que chegar à matéria que determina onde fica a alma.

É interessante como a participação de cada um dos nomes da história, que tem como precursor René Descartes, foi necessária para todas as descobertas e para alcançarmos o patamar de conhecimento que temos nos dias de hoje.

Em ordem decrescente na linha cronológica humana, filósofos e profissionais da saúde eram incentivados uns pelos outros. Enquanto um descobria o outro aprimorava e redescobria, incentivando e remodelando a realidade do funcionamento dos componentes da cabeça e do corpo, seja em humano ou nos animais.

Se mil anos não é o suficiente para descobrirmos toda a verdade, é graças à vontade e ao incentivo de alguns estudiosos que vamos fazendo avanços. O tempo não limita o conhecimento e não é impedimento. Se forem necessários um milhão de anos para concluirmos o conhecimento que resulta na nossa alma, o faremos, uns dando seguimento aos trabalhos dos demais.

O dualismo mente-corpo é uma visão na filosofia da mente em que os fenómenos mentais não são físicos ou que a mente e o corpo são distintos e separáveis. Descartes foi o principal responsável por esta ideia de que o indivíduo é uma espécie de alma no corpo, o que diz respeito ao mental seria simplesmente definido como o oposto do material, sem modificar qualitativamente tais categorias, daí a dificuldade desta doutrina oficial em explicar a conexão entre mente e corpo.

Descartes pode ser incluído no rol dos precursores da neuropsicologia pela via de relação entre filosofia psicológica e fisiologia. Mesmo com o risco de ser queimado vivo pela igreja como aconteceu com Giordano Bruno, Descartes a temer a morte, pediu para que logo fosse publicado o seu primeiro livro, um tratado sobre ótica que desafiava o geocentrismo.

No seu último livro, As paixões da alma, todos os movimentos dos músculos, assim como todos os sentidos, dependem dos nervos, que são como pequenos fios ou como pequenos tubos que procedem, todos, do cérebro, e contêm, como ele, certo ar ou vento muito sutil que chamamos espíritos animais.

Existem filósofos que optaram pela lógica, argumentando que não se pode, em principio, excluir a possibilidade de que haja uma substância física que corresponda à natureza da mente ou de uma suposta alma.

O cartesianismo, movimento intelectual suscitado pelo pensamento de Descartes durante os séculos XVII e XVIII, é classificado como o princípio do pensamento burguês a ser aprimorado por Hegel e assim, sucessivamente por outros grandes nomes da história da neuropsicologia.

A frase do título é baseada na correspondência entre Descartes e a Princesa Elisabeth da Boêmia, que ocorreu entre os anos de 1643 e 1649. Observa-se na carta um modo de suprimir essas carências.

Levantaremos, como hipótese central, a ideia de que a correspondência com Elisabeth foi contexto formal privilegiado para a elaboração de determinados conteúdos da filosofia prática do autor, nomeadamente de sua Medicina, Moral e Política.

Em suas teorias das noções primitivas e em sua metáfora da árvore da filosofia com o emprego da noção primitiva da união em que, por meio dos sentidos ou da vida e das observações comuns, que temas relativos à constituição humana podem ser abordados sem serem reduzidos ao seu aspeto puramente mental ou físico, tal como faz o Tratado das Paixões.

A troca de cartas entre eles, continha esta ideia de cobrar uma Medicina capaz de fornecer técnicas para retardar o envelhecimento e consequentemente a morte. Por outro lado, é necessário não valorizar tanto a vida, com a certeza de que algo grandioso nos aguarda.

Nisto reside a importância da Moral, que fundamentará a felicidade na indiferença e resistência aos eventos externos; priorizando o aspeto imortal do homem, isto é, sua alma, a partir de sua vontade infinita.

Todo o esforço da filosofia das cartas trocadas entre Descartes e Elizabeth é a busca do que seria uma espécie de equilíbrio saudável entre as perspectivas a respeito da vida e da morte. O projeto da filosofia prática cartesiana é fundamentalmente um projeto de equilíbrio.

Nasce então a meta da neuropsicologia em que se faz necessário a descoberta das possíveis conclusões e nunca aceitar nada como verdadeiro à primeira vista. Fazer vários experimentos e dividir o problema em quantas partes for possível; analisar os resultados e pensar de forma ordenada; pegar as conclusões do passo um e, se possível, chegar a uma conclusão através da lógica prestando atenção nos detalhes.

A contribuição de Descartes com a sua metodologia foi essencial para a constante busca criteriosa do conhecimento verdadeiro a partir das ciências, servindo de estímulo para outros grandes nomes da nossa história.


Sobre o autor

Fabiano de Abreu Rodrigues é um jornalista com Mestrado e Doutorado em Ciências da Saúde nas áreas de Neurociências e Psicologia pela universidade EBWU nos Estados Unidos e na Université Libre des Sciences de l'Homme de Paris. Ainda na área da neurociência, pós-graduação na Universidade Faveni do Brasil em neurociência da aprendizagem cognitiva e neurolinguística e Especialização em propriedade elétricas dos neurônios e regiões cerebrais na Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Pós-Graduação em Neuropsicologia pela Cognos de Portugal, Mestre em Psicanálise pelo Instituto e Faculdade Gaio, membro da Unesco e Neuropsicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise Clínica. Especialização em Nutrição Clínica e Riscos Psicossociais pela TrainingHouse de Portugal e Filosofia na Universidade de Madrid e Carlos III na Espanha. 

Integrante da SPN - Sociedade Portuguesa de Neurociências – 814, da SBNEC - Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento – 6028488 e da FENS - Federation of European Neuroscience Societies - PT30079 e membro da Mensa, sociedade de pessoas de alto QI com sede na Inglaterra.


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