Testeira

Qual a melhor maneira de conseguir a imortalidade?

Existem pontos fortes e fracos das três possibilidades promissoras estudadas na atualidade

Coluna - Fabiano de Abreu, neurocientista Publicado em 05/04/2021, às 16h13

Cena do filme O Homem Bicentenário (1999)
Cena do filme O Homem Bicentenário (1999) - Divulgação

Gosto sempre de dizer aos amigos que todos deveriam se preocupar em deixar um legado. Afinal, a vida perde muito do seu sentido quando não nos empenhamos em fazer a diferença de alguma forma (nem que seja por meio de um mérito apenas com finalidade de alimentar o próprio orgulho).

No meu ponto de vista, viver sem ser bem visto é aceitar morrer como indiferente. E mesmo com essa vontade de aproveitar o máximo da vida, e talvez, justamente por conta dela, me entristece imaginar que, em um dia incerto, a morte colocará fim a todos os meus esforços.

Por isso, sou um dos neurocientistas instigados em encontrar na inteligência artificial uma solução para sermos eternos. Mas o imortalizar por si só não basta. Esse processo tem que ser pensado e colocado em prática de maneira inteligente para que não traga consequências desastrosas.

Para alegria das pessoas que, assim como eu, são entusiastas da imortalidade humana, o sonho está cada vez mais próximo. Isso porque a neurociência está explorando a eficácia na transferência de mente, por meio de estudos recorrentes sobre a base física da memória.

A seguir, analisarei pontos fortes e fracos das três possibilidades mais promissoras estudadas na atualidade: a criogenia, o congelamento do cérebro e transporte de memórias humanas para a máquina.

Criogenia

No caso da criogenia, o sangue é drenado do corpo e substituído por um líquido crioprotetor.

A substância é usada para proteger o tecido biológico de danos de congelamento, como cristais de gelo que causam danos irreparáveis nas células do organismo. Depois, o cadáver é submetido a temperaturas inferiores a -150º C e armazenado em um tanque de nitrogênio líquido onde permanece de cabeça para baixo, como precaução para o cérebro não sofrer danos caso haja vazamento no reservatório.

A criogenia já é utilizada, com sucesso, na preservação de embriões e órgãos humanos. Mas no caso da imortalidade, quando temos os engramas de memórias de toda nossa vida já formatados em nossos neurônios, o processo teria que se iniciar enquanto o humano à ser imortalizado ainda está vivo, constituindo, portanto, o primeiro empecilho da técnica, já que essa ação não é permitido na maioria dos países do mundo.

O outro fator que dificulta a criogenia é a necessidade de monitoramento para saber quando o indivíduo vai morrer, já que após a morte não há como recuperar as memórias. O ideal é que uma equipe esteja presente durante a fase final da vida para iniciar o processo logo após a morte.

É preciso pressa, pois, sem oxigenação as células neurológicas não duram mais do que cinco minutos. A última dificuldade envolvendo a criogenia está em saber o momento certo de reativar o cérebro, como descongelá-lo sem danificar sua estrutura. As chances do ser ficar desconectado com disfunção neuronal após sua volta é demasiadamente grande.

Ou seja, atualmente conseguimos preservar, mas ainda não é possível reavivar uma pessoa.

Cópia do DNA

A cópia do DNA é uma técnica ainda mais complexa estudada para atingir a imortalidade. Sem delongas, aponto que seu principal impedimento está na limitação de memórias.

Com ela, pode-se ter o indício de personalidade, mas não o seu molde. Não haveria como ter acesso às memórias amplas de toda uma vida. Uma vida sem memória não é uma vida sequencial.

Portanto, podemos dizer que sem conseguir preservar o recurso de memória, se trataria de um novo indivíduo ao invés de um indivíduo imortalizado. No máximo, uma imortalidade parcial, já que muitos aspectos se perderão no processo.

Armazenamento de memória

Aqui, a imortalidade se daria por uma técnica que diz respeito a noção de upload da sua consciência e memórias para um computador. Em resumo, significa que uma pessoa poderia transformar sua personalidade, memória e essência em dados de computador.

A ideia é muito interessante, fazer um upload de toda a sua memória e, bingo! Está de volta no futuro. Mas não é tão simples assim. Precisamos entender que nossa personalidade é a consequência de todo um molde de memória, genética, cultura, experiências sensoriais, clima e N fatores que nos fazem ser quem somos. Trata-se de fenômenos microscópicos e quânticos.

A subjetividade que releva a mente, memórias emocionais, é o maior desafio na inteligência artificial. Cada detalhe da vida, cada pingo de chuva que cai na sua testa, transcreve reações que ficam armazenadas derivadas dos sentidos e se os sentidos não forem os mesmos, não será igual, ou seja, não é você.

De que adianta trazer nossas memórias de volta se não sentirmos a emoção de tê-las?


Sobre o autor

Fabiano de Abreu Rodrigues é um jornalista com Mestrado e Doutorado em Ciências da Saúde nas áreas de Neurociências e Psicologia pela universidade EBWU nos Estados Unidos e na Université Libre des Sciences de l'Homme de Paris. Ainda na área da neurociência, pós-graduação na Universidade Faveni do Brasil em neurociência da aprendizagem cognitiva e neurolinguística e Especialização em propriedade elétricas dos neurônios e regiões cerebrais na Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Pós-Graduação em Neuropsicologia pela Cognos de Portugal, Mestre em Psicanálise pelo Instituto e Faculdade Gaio, membro da Unesco e Neuropsicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise Clínica. Especialização em Nutrição Clínica e Riscos Psicossociais pela TrainingHouse de Portugal e Filosofia na Universidade de Madrid e Carlos III na Espanha. 

Integrante da SPN - Sociedade Portuguesa de Neurociências – 814, da SBNEC - Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento – 6028488 e da FENS - Federation of European Neuroscience Societies - PT30079 e membro da Mensa, sociedade de pessoas de alto QI com sede na Inglaterra.


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