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Com este quadro, a pintora Artemisia Gentileschi vingou-se de seu estuprador

O ardente desejo por vingança inspirou um dos mais expressivos quadros do Período Barroco

Fabio Marton Publicado em 05/02/2019, às 06h00

Judite, por Artemisia Gentileschi
Judite, por Artemisia Gentileschi - Wikimedia Commons

A injustiça sempre foi muito comum quando se tratava de artistas mulheres, e isso foi o que aconteceu com Artemisia Gentileschi. Em vida, ela teve um status único, a primeira mulher a ser aceita na Academia de Belas Artes de Florença. Mas, pelas gerações que se seguiram, passou a ser considerada uma mera curiosidade, uma aberração. Nenhum cavalheiro amante das artes ousaria comparar uma mulher a seus contemporâneos, gigantes como Caravaggio, El Greco e Rubens.

Quando seus críticos eram generosos, mencionavam que era impossível imaginar que uma mulher havia pintado aquilo. Quando não, tratavam na como uma megera sociopata, por colocar mulheres, inclusive ela mesma, nesses papéis tão violentos.

Ela só seria resgatada da obscuridade na década de 1970, pelas feministas. A princípio, pelo interesse por sua vida – uma vítima de estupro, nunca justiçada, que enfrentou todo tipo de preconceito para prosperar num ofício tido como exclusivamente masculino. Mas logo também por sua arte, que, ficou evidente, tinha uma assinatura própria, um ponto de vista que nenhum pintor masculino poderia expor.

Judite é um tema popular entre pintores. Mas, em sua visceral obra-prima – muito mais violenta que outras versões –, Artemisia pôs, literal e figurativamente, a si própria na arte.

O sangue que Artemisia queria ver correr na vida era de Agostinho Tassi, que ela transplantou para a figura de Holofernes. Ele havia estuprado a pintora. Em 1612, foi condenado não só por isso como por planejar matar a esposa, cometer incesto com sua cunhada e tentar roubar as obras do pai de Artemisia. Seria preso, mas teria julgamento anulado no ano seguinte (não teria mudado nada se tivesse acontecido no século 21).

Segundo o Livro de Judite, Holofernes, o general, estava lá por uma ordem do arrogante Nabucodonosor, que queria forçar todos os povos da região a se aliarem a ele contra o rei dos medos (império asiático). Sua arrogância, luxúria e fraqueza por vinho contrastam comas virtudes da heroína judite, que era casta - ela nunca se casaria novamente. 

Judite era uma viúva atraente da vila de Betúlia, que estava no caminho da invasão assíria a israel. Ela foi até o campo inimigo e flertou como general Holofernes, ganhando sua confiança. Numa noite, quando estava bêbado, entrou em sua tenda e, com a ajuda de uma serva, o decapitou, levando a cabeça para a cidade, expondo-a contra a covardia dos homens, que queriam se render. 

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Artemisia Judite com seu próprio rosto, realizando uma fantasia de justiça contra seu grande inimigo: o homem, seu estuprador. 

Autorretrato de Artemisia Wikimedia Commons

A cena foi pintada múltiplas vezes, mas nenhuma delas expressa a brutal fisicidade da versão de Artemisia. Nela, as mulheres mostram o esforço para degolar o inimigo, restringindo-o, com ele lutando de volta. Compare com esta versão de Caravaggio, feita 15 anos antes:

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A obra de Lucas Cranach, o velho (1529) também retrata a decapitação de Holofernes.

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É claro que não poderíamos esquecer da obra Judit I, de Gustav Klimt (1901), mais uma a retratar a pintura de Artemisia. 

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