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Em imagens: o bacanal em Pompeia

As festividades para o deus do vinho não eram em nada como as pessoas imaginam

Redação Publicado em 06/11/2019, às 08h00

Detalhe do mural da Vila dos Mistérios
Detalhe do mural da Vila dos Mistérios - Wikimedia Commons

Bacanais, as festas para o deus do vinho Baco, tradicionalmente eram celebrados em 16 e 17 de março — ou celebradas: a palavra bacanal, algo adequadamente, admite dois gêneros.

Esses rituais entraram para a imaginação popular como grandes orgias públicas. Mas isso é fruto de calúnias que datam de bem antes do Cristianismo. Já em 186 a.C., a reputação dos devotos de Baco era tão ruim que a República Romana tentou enquadrar o culto, criando uma lei que basicamente proibia os rituais. Comentando sobre a proibição, o historiador Tito Lívio, do século 1, afirmou que havia de estupros de crianças a canibalismo e sacrifício humano nos bacanais. Lívio não é considerado hoje uma fonte fiel. Mas, felizmente, temos outra versão.

No sul da Itália, os rituais dionisíacos continuaram a ocorrer em segredo. Pompeia era uma dessas cidades. Os afrescos na Vila dos Mistérios datam do começo do século 1 e parecem ter adornado a sala dos devotos de Baco por décadas, até o fim trágico da cidade pela erupção do Vesúvio, em 79. 

Os murais na retratam em detalhes e em sequência o que parece ter sido um ritual de iniciação de uma sacerdotisa ao mistério dionisíaco, um culto exotérico cujos detalhes iam muito além do sexual. 

Vila dos Mistérios / Crédito: Wikimedia Commons

 

Essa é a interpretação do descobridor do arqueólogo Amedeo Maiuri, chefe da missão que escavou a casa com os murais na década de 1920. E é a mais aceita hoje. A explicação concorrente é que trata-se de um casamento de uma devota de Baco. 

A seguir, o ritual retratado na Vila dos Mistérios.


1) Liberando os espíritos

 Crédito: Wikimedia Commons

 

A mulher à esquerda puxa um pano púrpura — cor que, na época, vinha de um animal marinho raro e era caríssima. Isso revela uma bandeja, enquanto ela recebe vinho em um copo em sua outra mão. Era o ritual de libação, oferecer álcool aos deuses. O que, cristianizado, virou o popular dar uma para o santo.

No centro, Sileno e um fauno aparecem tocando instrumentos musicais. A música era uma parte central nos mistérios dionisíacos. De forma similar ao que acontece nos rituais afro-brasileiros, as pessoas dançavam com a cabeça para trás freneticamente, entrando em transe e, acreditavam os fieis, incorporando entidades.

À direita, uma ninfa dá de mamar a um cabrito. O cabrito é um dos símbolos para Baco. A cena é uma típica ilustração da ideia de arcádia, a natureza intocada onde viviam ninfas, faunos e outras entidades. E isso tem a ver com o propósito dos rituais dionisíacos: revelar a própria natureza, livre das inibições da sociedade.


2) O homenageado

 Crédito: Wikimedia Commons

 

A imagem popular de Baco é um homem velho e gordinho. Isso é fruto de uma confusão histórica, ampliada pelos cristãos desde a Renascença. O gordinho — à esquerda — é Sileno, o cômico e irreverente professor de Baco. 

Sileno acompanhou Baco em suas andanças pelo mundo dos mortais, em histórias como as da bênção do rei Midas. Para os devotos, Baco era um jovem bastante atraente e em plena forma.

Baco é a figura atlética no centro, intoxicado e acolhido por Sêmele, sua mãe. À direita, discípulas prostradas para a última parte.

Mulheres são as protagonistas do ritual. Nenhum homem não mitológico é retratado. Isso é apontado por historiadores como a provável razão das calúnias. 

Romanos como Lívio tinham uma moral sexual rígida e patriarcal. Bacanais, dominados por mulheres e estrangeiros, eram considerados uma quebra radical dos valores. E essa era precisamente a ideia, a liberação das restrições sociais através do vinho, música e dança, a subversão da normalidade. 


3) Dança e pavor

 Crédito: Wikimedia Commons

 

O mural é uma espécie de história em quadrinhos, mostrando a sacerdotisa em várias fases de seus rituais de iniciação. Começa em bebedeira, no meio há choro, pavor, nudez e dança. A mulher nua no centro claramente está danaçando, pois está batendo címbalos sobre com as mãos. Finalmente, à direita, a sacerdotiza é entronada e dignificada (ou está pronta para casar, na interpretação alternativa). 

Em lugar nenhum do mural há sexo. Se havia sexo em bacanais, como acusavam seus detratores, não aparece na Vila dos Mistérios. O culto a Baco não era só a respeito de vinho, desejo e alegria, mas também medo, vida e morte, e aceitar a própria natureza animal. Os discípulos enxergavam um profundo sentido de morte e vida no culto, com alguns identificando Dionísio como outro nome para ninguém menos que Hades, o deus do pós-vida.

Para os romanos típicos, não devotos, o culto a Baco/Dionísio foi misturado ao do deus Líber, a Liberalia, que acontecia em 17 de março. Uma celebração pública e mais simples de uma sexualidade masculina, com desfiles de falos pelas ruas, num clima de Carnaval.


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Pompeia: A vida de uma cidade romana, Mary Beard, 2016

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Pompeia, Alex Butterworth e Ray Laurence, 2007

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Os Últimos Dias de Pompéia, Edward Bulwer-Lytton, 2005

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