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Bronx em chamas

Especulação imobiliária causou destruição cataclísmica em Nova York

Redação AH Publicado em 13/11/2018, às 13h00

A paisagem de guerra no distrito empobrecido de Nova York
Perla de Leon/ Divulgação

Parece uma cena de guerra, mas é só vandalismo – bem pago e em escala industrial. Foram os incêndios do sul do Bronx, com partes da região perdendo até 97% de seus prédios entre 1970 e 1980. Um dos piores desastres de planejamento urbano da História.

Formado por vários bairros, O Bronx (sempre com o artigo no começo) é um dos cinco distritos de Nova York – os outros são Manhattan, Brooklyn, Queens e Staten Island. Até a década de 1960, o sul do Bronx era uma área de classe média, habitada em mais de 50% por judeus. Com a construção de uma via expressa entre 1955 e 1963, a região foi isolada e os imóveis nas imediações se desvalorizaram brutalmente. O perfil étnico rapidamente mudou da classe média branca, que fugiu da decadência, para negros e latinos pobres, que foram morar nos imóveis vagos. Com aluguéis menores, os proprietários pararam de fazer manutenção, causando rápida decadência urbana.

Como as propriedades se tornaram invendáveis, os senhorios recorreram à sabotagem: eles pagavam gangues de adolescentes para incendiar seus próprios prédios e conseguir o dinheiro do seguro. Muitas vezes, sem dar qualquer aviso aos moradores, que, se sobrevivessem, perdiam tudo, aumentando ainda mais a pobreza crítica da região. A fotógrafa Perla de Leon, autora desta imagem, foi testemunha do medo e da insegurança que as crianças e suas famílias viviam todos os dias quando dava aula em uma escola do bairro. Ela relembra o relato de um aluno: “Nós dormíamos de tênis, para poder sair rápido no caso de nossa casa pegar fogo”.

Por volta de 1977 eram dúzias de incêndios por dia – os bombeiros não davam conta e as seguradoras não conseguiam fazer perícia para descobrir a causa criminosa do fogo, sendo obrigadas a pagar. Essa praça de guerra seria o berço do hip hop, uma expressão não só dos jovens sem esperança mas das terríveis condições urbanas em que viviam.

Hoje o bairro passa por um processo de gentrificação, atraindo jovens de classe média – e, com a subida dos aluguéis, expulsando as minorias pobres para outros lugares.