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Kafka: O menino triste

Imagem do escritor na infância é culpa da técnica da época

Redação AH Publicado em 19/12/2018, às 13h00

O pequeno Kafka: melancolia ou mobiliário?
O pequeno Kafka: melancolia ou mobiliário? - Reprodução

A fotografia acima é quase um paradoxo. A infância, a fase da felicidade e dos sorrisos para a maioria das pessoas, é apresentada aqui como uma tristeza infinita. O olhar do menino é perdido. Tudo ao seu redor é artificial. Quando se descobre que o garoto na imagem é o futuro escritor Franz Kafka, parece que tudo volta ao normal.

Dois grandes pensadores se debruçaram sobre a foto: Walter Benjamin, um dos expoentes da Escola de Frankfurt, e o semiologista francês Roland Barthes. “Seus olhos imensamente tristes dominam a paisagem”, registra Benjamin.

Kafka tinha cerca de 6 anos quando entrou no estúdio para, ainda segundo as palavras de Benjamin, fazer “um retrato extremamente comovente de sua pobre, breve infância”. Tudo na imagem é uma ofensa às crianças. O chapéu gigantesco, a roupa apertada, as plantas no fundo – e o apoio de cotovelo.

A questão é que a tecnologia usada nas câmeras de estúdio no século 19 exigiam demais dos retratados. Era preciso uma grande exposição para compensar a pouca sensibilidade dos negativos. E as pessoas eram submetidas a um longo tempo de imobilidade enquanto a câmera registrava o “instantâneo”. Qualquer criança, não só o jovem Kafka, se aborreceria em tomar parte de uma atividade tão estática e artificial – que, afinal, legou à posteridade uma rara imagem da infância do artista.