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As prostitutas judias no Brasil

Por quase um século, fugitivas da Europa viveram às margens da sociedade brasileira - e deixaram sua marca na linguagem popular

Fábio Varsano Publicado em 10/01/2019, às 06h00

Algumas das polacas, retratadas pelo fotógrafo Augusto Malta
Reprodução/ Augusto Malta

As ruas de grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro acostumaram-se a receber um grupo de mulheres que, por quase um século, prostituiu-se. Nascidas no Leste Europeu – e, por isso, conhecidas aqui como "polacas" –, elas eram judias, pobres, sem dote para um bom casamento e quase sempre analfabetas.

Saíram de seus países fugidas, com medo das ondas de antissemitismo. Sem perspectivas, acabaram recrutadas por cafetões. O relato mais antigo da chegada das polacas por aqui, segundo a historiadora Beatriz Kushnir, autora de Baile de Máscaras, data de 1867.

O documento menciona a chegada ao porto do Rio de 104 "meretrizes estrangeiras" – dessas, 67 ficaram e 37 seguiram para a Argentina. A população masculina brasileira na época era bem maior que a feminina.

História esquecida

O tráfico de escravas brancas virou debate mundial na virada para o século 20. Até que, nos anos 40, começou a declinar. Judeus haviam sido exterminados pelo nazismo no Leste Europeu e os que sobreviveram eram imigrantes refugiados.

No Brasil, as zonas do meretrício do Mangue e da Lapa, no Rio, e do Bom Retiro, em São Paulo, foram extintas nessa época.  A história delas por aqui foi esquecida. Primeiro porque não tinham sucessoras. Depois porque sempre foram discriminadas – inclusive pela sociedade judaica brasileira da época, que não permitia a elas nem um enterro digno.

A maior parte das polacas está enterrada em cemitérios construídos por associações que fundaram no Brasil, como o Cemitério Israelita de Inhaúma, no Rio.

Expressões usadas pelas polacas judias deram origem a palavras hoje muito populares no Brasil. Quando suspeitavam que um cliente tinha doença venérea, diziam ein krenke (“doença”, em iídiche), que acabou se transformando em “encrenca”.

E, quando a polícia dava incertas nos bordéis, elas gritavam sacana ("polícia") – que virou “sacanagem”.