Atentado terrorista em 11 de setembro

As origens do fundamentalismo islâmico contemporâneo estão no Egito, pátria do atual número 1 da Al-Qaeda

Wagner Barreira Publicado em 17/11/2015, às 12h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001
Atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 - divulgação

"Deus é nosso objetivo; o Alcorão, nossa Constituição, o Profeta é nosso líder; a Jihad é nosso caminho e morrer pela glória de Deus é a maior de nossas aspirações."

Lema da Irmandade Muçulmana


Quem viu, ao vivo ou pelas televisões do mundo todo, jamais vai esquecer. Dez anos atrás, as torres do World Trade Center, de Nova York, os prédios mais altos da cidade, despencaram depois de serem atingidas por dois aviões sequestrados por militantes da Al-Qaeda, o grupo fundamentalista islâmico que tem no Ocidente seu maior inimigo. Mas o radicalismo em nome de Alá começou muitos anos antes de as Torres Gêmeas terem sido erguidas. Começou na cidade egípcia de Ismailia, quando o acadêmico e professor Hassan al-Banna e mais 6 operários do Canal de Suez fundaram a Irmandade Muçulmana (IM), em março de 1928. "É da natureza do Islã dominar, e não ser dominado, impor suas leis sobre todas as nações e estender seu poder a todo o planeta", dizia Al-Banna.

O grupo cresceu rápido. Nos anos 1950, tinha 1 milhão de seguidores, num país com 18 milhões de habitantes. Entre os objetivos da Irmandade estavam a construção de escolas e hospitais. Mas havia outra agenda, que justificava o envio de militantes à Palestina do pós-guerra para combater o recém-criado Estado de Israel e o assassinato de autoridades egípcias. "Deus é nosso objetivo; o Alcorão, nossa Constituição, o Profeta (Maomé) é nosso líder; a Jihad (guerra santa) é nosso caminho e morrer pela glória de Deus é a maior de nossas aspirações." Era esse o lema da Irmandade.

E ele foi seguido ao pé da letra. Al-Banna foi assassinado em 1949 e o controle da IM caiu em mãos de radicais. Em janeiro de 1952, em retaliação a um ataque de forças britânicas a um quartel da polícia, a Irmandade coordenou um assalto ao Quarteirão Europeu do Cairo, que destruiu tudo que lembrava o Ocidente na cidade. Mais de 750 prédios ficaram em ruínas, e 20 mil pessoas, sem abrigo. "O Cairo cosmopolita estava morto", registra o jornalista Lawrence Wright em O Vulto das Torres. No mesmo ano, o general Gamal Abdel Nasser, com o apoio da IM, derrubou o rei Faruk. A questão é que Nasser era um nacionalista, não um defensor de um governo islâmico, e passou a reprimir o grupo.

No ano da morte de Al-Banna, o professor Sayyid Qutb, seu futuro sucessor, vivia nos EUA. E ele não gostou do que viu por lá. Uma de suas conclusões: o sexo é inimigo da salvação. "No início dos anos 1960, Qutb pregava uma guerra total contra todos os que não apoiassem as ideias do grupo", diz a historidora Isabelle Christine Somma de Castro, que estuda a Sociedade dos Irmãos Muçulmanos, o nome oficial da IM. Qutb foi enforcado em 1966. Um dos integrantes da Irmandade nessa época era o médico Ayman al-Zawahiri, de uma família de classe média alta egípcia. Para escapar da repressão do governo, ele buscou refúgio na Arábia Saudita. Ligou-se à Al-Qaeda e hoje, depois da morte de Osama bin-Laden, em 2 de maio, tornou-se seu líder.

Para o professor da UFRJ Francisco Carlos Teixeira da Silva, a primavera árabe, o movimento de oposição em países muçulmanos, trouxe uma nova medida. "A onda islamizante dos anos 1980 e 90 já passou. A maioria prefere abandonar o integrismo por uma distinção clara entre religião e política", afirma. "Os protestos em Túnis e Cairo são modernos e não diferem de ações que derrubaram ditaduras no Ocidente. A IM e o clero integrista não conduziram, e por vezes não apoiaram, o movimento popular."