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Israel, 70 anos: Duas visões

Os israelenses hoje celebram 70 anos da fundação de seu país. Para um lado, um sonho de quase 2 mil anos; para outro, nada menos que o desastre

quinta 19 abril, 2018
Ao por do sol
Ao por do sol Foto:Shutterstock

Se existe uma lição filosófica inconfundível na criação do Estado de Israel, é esta: o significado de um fato histórico depende do olho de quem o vê. Para boa parte do mundo (incluindo a maioria dos judeus ao redor do planeta - mas nem todos) a fundação de Israel foi um feito heroico, uma proeza épica, a culminância de um sonho milenar, que inflamou o coração de gerações e gerações de hebreus desde os tempos da Diáspora. Para os árabes palestinos, no entanto, foi uma catástrofe. Até hoje, eles relembram o ano de 1948 como El-Nakba - ou "a desgraça".

A versão israelense

Celebrações em 1948 Getty Images

Espalhados pelo mundo desde os tempos do Império Romano, os judeus mantiveram vivas sua cultura e religião e nunca deixaram de sonhar com o retorno à Terra Santa. "Durante mais de 3,7 mil anos, eles mantiveram o vínculo espiritual com sua pátria histórica", escreve o historiador Mitchell G. Bard em Mitos e Fatos - A Verdade sobre o Conflito Árabe e Israelense, obra que mostra a versão oficial de Israel para as origens da briga.

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O sonho do regresso ganhou ares de necessidade política na segunda metade do século 19. O antissemitismo estava crescendo e perseguições multiplicavam-se pela Europa. Por volta de 1890, um grupo de intelectuais europeus de origem hebraica decidiu que seu povo só poderia sobreviver, se pudesse governar a si mesmo - ou seja, criando um país. O movimento ganhou o nome de sionismo (em homenagem a Sião, um dos antigos nomes de Jerusalém) e teve sua figura de proa no judeu austro-húngaro Theodor Herzl (1860-1904), que hoje é um herói quase mítico para os israelenses. Foi Herzl quem lançou a semente que mais tarde germinaria em Israel. No livro O Estado Judeu, de 1896, ele propôs a criação de um país soberano, governado e habitado por judeus, na antiga Terra Santa - que os judeus chamavam de Eretz Israel, ou Terra de Israel, e os árabes de Filistin ou Palestina.

Em 1897, na cidade suíça de Basiléia, os expoentes do sionismo promoveram seu primeiro congresso e criaram a Organização Mundial Sionista, que passou a patrocinar e incentivar a emigração judaica para a Palestina. A ideia de reerguer a antiga Israel das cinzas do passado espalhou-se pelas comunidades judaicas ao redor do mundo com uma labareda idealista. Muitos judeus religiosos acreditavam que a Terra Santa lhes pertencia por decreto divino - afinal de contas, segundo o Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia, que os cristãos chamam de Pentateuco), Deus passara a escritura de todo o território para Abraão. Outros tinham aspirações mais práticas do que teológicas: queriam ser livres e escapar da Europa o mais rápido possível. O sionismo também foi inflamado pela força crescente dos nacionalismos regionais e a ideia de que todos os povos tinham direito à autodeterminação, que se espalhou pela Europa a partir de 1850.

No final do século 19, havia cerca de 20 mil judeus na Palestina, cujos ancestrais haviam conseguido driblar a expulsão romana e conviver com os árabes ao longo de séculos. Após a ascensão do regime nazista em 1933, perseguindo judeus não só em casa, mas em todos os territórios conquistados, o número aumentaria vertiginosamente. Mais de meio milhão de judeus desembarcaram na região, vindos principalmente da Europa - muitos deles fugindo dos nazistas.

Recém-chegados à Palestina, os judeus fundaram comunidades de agricultores de feitio socialista (os kibutz) e passaram a lutar pela criação de seu Estado. A princípio negociaram e depois compraram briga com os britânicos, que na época faziam um jogo duplo, ora comprometendo-se com os interesses sionistas, ora fazendo promessas de independência total aos árabes. A partir de 1945, militantes sionistas passaram a atacar as tropas de ocupação, realizando inclusive atentados terroristas. Outra frente de batalha foi contra os árabes da Palestina, que reagiram com violência à chegada dos imigrantes.A violência continuou a crescer, até que, em 1947, a Inglaterra resolveu tirar o pé desse barril de pólvora. O governo britânico anunciou que encerraria sua presença militar e deixaria que árabes e judeus resolvessem seu destino. Naquele mesmo ano, a Organização das Nações Unidas decidiu que a melhor maneira de decidir o impasse era dividir a antiga província otomana em dois pedaços. Em uma assembléia presidida pelo diplomata gaúcho Osvaldo Aranha, a ONU instituiu o Plano de Partilha: 55% da região ficaria com os judeus, e 45% com os árabes. Em 14 de maio de 1948, os sionistas, liderados pelo legendário Davi Ben Gurion, fundaram o Estado de Israel, com capital em Tel Aviv, na fatia concedida pela ONU.

Imediatamente, todos os países árabes vizinhos declararam guerra e invadiram a região (veja mais abaixo). Judeus contra-atacaram e tomaram territórios reservados aos palestinos, sob a justificativa que, por não reconhecê-los, eram uma ameaça à sua existência. Expulsos ou fugidos da guerra, esses se tornariam os refugiados palestinos - que foram recolhidos, mas não integrados pelos países vizinhos, confinados a campos por décadas e décadas. Quanto aos palestinos que ficaram em Israel, esses são os "árabes israelenses", com cidadania plena, mas numa situação humilhante - vez por outra têm que ouvir dos "falcões" que são uma ameaça ao Estado, com planos para movê-los para os territórios da Autoridade Palestina, por medo que se tornem maioria e "descaracterizem" a natureza judia do Estado. Eles preferem chamar a si próprios de "palestinos". 

Ao contrário do que o mundo esperava, a Partilha não terminou com a disputa - apenas a agravou. Nas décadas seguintes, Israel iria se envolver em uma série de guerras contra seus vizinhos. Para os sionistas, a culpa foi dos árabes, que não aceitaram a divisão da Palestina e tentaram destruir o estado de Israel. "Ficou claro que era impossível uma solução política para o conflito por um fato simples: os árabes não aceitavam a existência de um estado judeu na Palestina, enquanto que os sionistas jamais se contentariam com menos do que isso", escreve Bard. 

Já a história contada pelos árabes é bem diferente.

A versão palestina

Refugiados árabes em 1948 Reuters

No século 19, quando propagava a ideia da migração em massa para o Oriente Médio, o movimento sionista cunhou um slogan famoso: "a Palestina é uma terra sem povo para um povo sem terra". A ideia de que o local estava vazio, à espera de colonos judeus, deixava os árabes palestinos furiosos. "Muitos sionistas ignoravam o fato de que a Palestina era habitada por mais de meio milhão de árabes no início do século 20 - e que, para eles, aquela terra era o seu lar", diz o relatório Origens e Desenvolvimento do Problema Palestino, produzido por especialistas e observadores da ONU na década de 80.

Para os palestinos, a imigração maciça de judeus era uma invasão colonialista. "Eles não tinham muitos problemas com os judeus naturais da Palestina, que lá estavam havia séculos e tinham vínculos culturais com seus vizinhos árabes. Mas aqueles que vinham da Europa, com aparência e costumes europeus, eram vistos como colonizadores estrangeiros", diz Paulo Vicentini, especialista em relações internacionais e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Além do mais, nem todos os judeus nascidos na Palestina eram sionistas - ao passo que todos os asquenazes (judeus vindos da Europa) estavam lá com o firme intento de criar um estado. Dividir a região em dois pedaços, pensavam os árabes, equivalia a entregar metade do país a forasteiros. Esses sionistas aproveitaram a pobreza dos habitantes nativos e sua relativa situação privilegiada para comprar suas terras e criar zonas exclusivas para eles próprios, como a cidade de Tel-Aviv. 
 

O maior medo dos palestinos era perder suas terras, já que a maior parte deles vivia da agricultura. Temiam que milhares de famílias tivessem de abandonar suas casas e vilas para dar lugar aos colonos judeus. Muitos desconfiavam que os líderes sionistas não se contentariam com metade da Palestina e planejassem, em segredo, conquistar toda a Terra Santa. "Os sionistas sabiam que o território concedido a Israel pela ONU não era grande o bastante para acolher todos os judeus", diz Vicentini. Mesmo havendo sionistas dispostos a ficar só nos 55% acertados pela ONU e a acender o narguilé da paz, a evolução dos eventos acabou descambando para uma ladeira trágica, e o pior dos medos árabes virou realidade.

Para os palestinos, a partilha da ONU tinha um feitio absurdo. Primeiro, achavam a divisão desproporcional: mais da metade da região foi dada ao grupo minoritário, que ainda por cima era formado principalmente por imigrantes (os sionistas respondem que a vantagem territorial era ilusória: boa parte das terras de Israel era desértica). Outro ultraje aos olhos árabes: os territórios dos palestinos estavam picotados, com três fatias separadas umas das outras. A população era de 800 mil árabes, com 10 mil judeus espalhados em vilas dispersas - já na porção que ficou para Israel, havia entre 397 mil e 497 mil árabes, contra 500 mil a 538 mil judeus. "Era óbvio que os sionistas deveriam aceitar uma eventual maioria de árabes em Israel ou expulsá-los do país. Não havia outra escolha", escreve o historiador Michael Palumbo em The Palestinian Catastrophe ("A Catástrofe Palestina").

A partilha aprovada pela ONU tinha um pequeno detalhe que não costuma ser lembrado pelos sionistas: ela exigia a concordância de ambos os lados. Israel podia estar feliz em ficar com sua faixa, mas deve estar claro a esta altura o que o outro lado pensava. 

Logo após a criação de Israel, os vizinhos árabes resolveram entrar na briga e cometeram o que muitos historiadores até hoje consideram um erro estratégico: mandaram a diplomacia às favas e fizeram soar as trombetas da batalha. "Todos os caminhos que tentamos para a paz fracassaram. Não nos resta nada além da guerra. Terei a honra e o prazer de salvar a Palestina", anunciou Abdullah, rei da Jordânia, em 26 de abril de 1948. Um mês depois, exércitos de cinco países árabes (Líbano, Iraque, Jordânia, Síria e Egito) empunharam suas metralhadoras e marcharam contra o inimigo recém-nascido. Começava, oficialmente, a primeira guerra entre árabes e judeus. Mas o ataque iniciado pelo rei da Jordânia e seus aliados de nada serviu para ajudar os primos palestinos. Ao contrário: apenas selou sua ruína.

Ligações perigosas

Em 1920 e 1936, duas grandes revoltas árabes aconteceram contra tanto o domínio britânico quanto a migração dos judeus. Por trás delas estava Mohammed Amin al-Husseini - o Grande Mufti de Jerusalém, líder da comunidade islâmica sunita. Do fim da primeira revolta até a segunda, era um considerado um aliado pelos britânicos, mas suas ações e seu discurso de aniquilação fizessem que se mudasse para a Alemanha nazista - onde foi bem recebido e serviu como ideólogo e capelão para as membros islâmicos da SS, recrutados na Bósnia. Al-Husseini também vinha a ser o tio de Yasser Arafat, que por toda sua vida defendeu seu legado como um pioneiro da causa palestina, negando que tivesse se convertido ao nazismo.

Ramon Botifa


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