Notícias Nazismo

A Cruz de Ferro é um símbolo nazista?

Polêmica lançada por coleção da grife Lança Perfume fez muita gente perguntar: será a cruz o mesmo que a suástica?

domingo 22 abril, 2018
Medalha alemã do século 19
Medalha alemã do século 19 Foto:Shutterstock

Notícias Relacionadas

A polêmica começou semana passada. A grife Lança Perfume, de Santa Catarina, lançou uma coleção com que a internet identificou como símbolos nazistas, ainda que tenham negado veementemente e falado em Marlene Dietrich e a República de Weimar. Não havia suásticas, mas uma profusão de outro símbolo: a Cruz de Ferro.

E a pergunta é: será que usar a cruz é o mesmo que ostentar uma suástica? Seria ela um símbolo nazista?

Se você perguntar aos neonazistas, a resposta provavelmente é: “sim”. Ou, ao menos, não faltam imagens deles desfilando com ela, acompanhada ou não pela suástica:

Neonazistas em manifestação recente Getty Images

Mas, se você perguntar aos alemães — principalmente aos militares — terá uma resposta bem diferente:

Eurofighter Typhoon da aeronáutica alemã Wikimedia Commons

Pois é, a Cruz de Ferro segue na ativa, como insígnia das diversas armas da Bündeswehr, as forças armadas da Alemanha democrática. 

O fato é que o símbolo é muito anterior ao nazismo. A medalha física surgiu em 1813, durante as Guerras Napoleônicas, no reino da Prússia. Foi herdada pela Alemanha unificada em 1870 e usada amplamente na Primeira Guerra. Sua inspiração foi a cruz dos Cavaleiros Teutônicos, que moveram cruzadas contra os pagãos do Mar Báltico (e vários cristãos inconvenientes no caminho). 

Cavaleiros teutônicos em ação Reprodução

Na Primeira Guerra, a medalha tornou-se a insígnia da Alemanha, estampada em veículos terrestres e aéreos. Em março de 1918, foi modificada para a forma reta, porque a tradicional era quase um alvo: dava visibilidade demais aos aviões, uma vantagem ao inimigo.

Fokker DVIII de 1918 com a nova insígnia reta  Wikimedia Commons

Essa forma seria mantida no período nazista :

Wikimedia Commons

E a medalha, reinstaurada em 1939, ganhou uma suástica no meio:

Wikimedia Commons

11 anos após o fim da guerra, em 1957, o governo da Alemanha Ocidental ordenou a troca das cruzes de ferro dadas no período nazista por versões novas, sem a suástica. As versões originais acabaram caindo nas mãos de colecionadores. E aí começa outra parte da história: seu uso pela contracultura.

Nos anos 60, a Cruz de Ferro foi adotada por motoclubes. Junto com ela vieram elmos ao estilo alemão (o icônicopickelhaube). E, sim, suásticas.

Cena de The Wild Angels (1966) Reprodução

A ideia era chocar os “quadrados”, a sociedade normal. Nos anos 70, punks também usaram suásticas como provocação. Nada podia ser mais detestável à geração que lutara na Segunda Guerra.

Com neonazistas de verdade entrando em evidência, a suástica se tornou exclusiva deles. Quanto à cruz, ela ficou. Se você perguntar aos bikers, aos skatistas, aos fãs da kultura kustomaos fãs da banda Motörhead — várias subculturas, enfim, que adotaram a Cruz de Ferro — ela não tem nada a ver com nazistas.

Talvez a palavra final possa ficar com o lado mais afetado. A Liga Antidifamação, criada por judeus americanos para denunciar o neonazismo e episódios antissemitas, abordou a questão se a Cruz de Ferro é um símbolo ódio. Eis o que disseram:

O uso da Cruz de Ferro num contexto não racista proliferou enormemente nos Estados Unidos, ao ponto em que uma Cruz isolada (isto é, sem uma suástica sobreposta ou acompanhada por outros símbolos de ódio) não pode ser determinada como um símbolo de ódio. Cuidado deve ser tomado para interpretar corretamente este símbolo em qualquer contexto em que seja encontrado.

Tudo é, assim, uma questão de contexto.

E, enfim, chegando à polêmica da grife Lança Perfume, o contexto das cruzes em roupas comuns foi entre outros modelos na coleção:

Reprodução

Não somos especialistas em moda, mas o casaco à direita não parece inspirado no Império Alemão, na Bündeswehr ou em motoclubes. A internet notou outros figurinos mais parecidos. Ninguém está chamando a grife de neonazista, mas o contexto, definitivamente, não leva a uma interpretação inofensiva. 

Fábio Marton

Leia Mais:

Receba em Casa

Vídeos

Mais Lidas

  1. 1 Crianças que nasceram como resultado do horrível programa Há 82 anos, nazistas começavam seu repugnante programa de ...
  2. 2 Os quatro milênios da Babilônia
  3. 3 Uma tempestade chamada Pagu
  4. 4 Inquisição: A fé e fogo
  5. 5 Marginália: As alucinadas ilustrações dos livros medievais