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Após entrevistar um porta-voz do Talibã, jornalista deixa o Afeganistão

Aos 24 anos, Beheshta Arghand marcou a história do país no dia 17 de agosto, quando conversou com um representante do grupo

Pamela Malva Publicado em 30/08/2021, às 21h00

Imagem de Beheshta Arghand durante seu programa
Imagem de Beheshta Arghand durante seu programa - Divulgação/ Vídeo/ TOLO

Logo depois que o Talibã voltou ao poder no Afeganistão, a jornalista e âncoraBeheshta Arghand entrou para a história do país, ao se tornar a primeira mulher a entrevistar um representante do grupo em rede nacional. Tendo protagonizado notícias no mundo todo, entretanto, ela acabou deixando sua nação na última terça-feira, 24.

Aos 24 anos, Beheshta fazia parte da equipe de jornalistas da TOLO, uma rede de notícias afegã. Em entrevista ao CNN Business através do WhatsApp, a âncora explicou que apresentava o programa há um mês e 20 dias antes da volta do Talibã.

“Deixei o país porque, como milhões de pessoas, eu temo o Talibã”, explicou a jornalista, ainda em entrevista ao veículo. Para Saad Mohseni, o proprietário da TOLO, o caso da âncora representa a atual situação dos profissionais no Afeganistão.

“Quase todos os nossos repórteres e jornalistas conhecidos deixaram o país”, narrou o homem à CNN. “Temos trabalhado como loucos para substituí-los por novas pessoas. Temos o duplo desafio de tirá-los [do país] e manter a operação em andamento.”

Entrevistas marcantes

Em coluna do Washington Post, Mohseni lembrou que a entrevista feita por Beheshta em 17 de agosto foi “a primeira vez na história do Afeganistão que um representante do Talibã apareceu ao vivo em um estúdio de TV sentado em frente a uma apresentadora”.

Segundo a jornalista, ela sentiu necessidade de fazer a entrevista “pelas mulheres afegãs”, por mais difícil que fosse o encontro. “Eu disse a mim mesma: ‘Uma de nós deve começar. Se ficarmos em nossas casas ou não formos aos nossos escritórios, eles dirão que as senhoras não querem trabalhar’”, narrou Arghand.

Mas eu disse a mim mesma: ‘Comece a trabalhar'”, lembrou a jornalista. “E eu disse ao membro do Talibã: ‘Queremos nossos direitos. Queremos trabalhar. Queremos – devemos – estar na sociedade. Este é o nosso direito’.”

Dois dias depois da entrevista, Beheshta marcou a história do Afeganistão mais uma vez, ao conversar com a ativista Malala Yousafzai. Segundo a TOLO, o encontro entre as mulheres foi a primeira vez que a jovem foi entrevistada na TV afegã.

Pouco tempo depois, a jornalista entrou em contato com a ativista mais uma vez, agora com o objetivo de procurar ajuda. Assim, Beheshta saiu do Afeganistão em um voo da Força Aérea do Qatar, acompanhada por diversos membros de sua família.

Por fim, ainda em entrevista à CNN Business, a jornalista afirmou que deseja voltar para seu país um dia. “Se o Talibã fizer o que eles disseram — o que eles prometeram — e a situação melhorar, e eu souber que estou a salvo e não existir ameaça contra mim, eu voltarei para meu país e trabalharei para meu país. Para o meu povo”, pontuou.