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A Bíblia dos Escravos: um livro de manipulação mental e fake news

Produzido no século XIX, o livro serviu para que missionários britânicos convertessem escravizados ao cristianismo

Joseane Pereira Publicado em 08/04/2019, às 11h21

A Bíblia dos Escravos
A Bíblia dos Escravos - Reprodução

No início do século 19, o Império Britânico ocupava ilhas do Caribe, transformando-as em grandes campos de algodão. Para isso, participavam do lucrativo tráfico de escravizados, que gerava mais lucro do que os próprios algodões e transferia milhares de pessoas de seus locais de origem para a ilha.

Um controverso e eficaz método de manipulação dos escravizados era a conversão religiosa. E algo que poucos sabem é que a própria Bíblia era manipulada para estimular a conversão, o que comprova-se a partir do raro exemplar que está sendo exibido no Museu da Bíblia em Washington, DC, desde novembro de 2017. 

Poderoso dispositivo de controle mental utilizado pelos missionários britânicos, a rara Bíblia é um empréstimo da Universidade de Fisk em Nashville, Tennessee, e de acordo com a Universidade "há apenas três exemplares desta Bíblia. O exemplar em amostra em Washington é a única cópia nos Estados Unidos."

Contra-capa do livro / Reprodução

 

Livro Editado

Em nossa sociedade, o termo "fake news" descreve não apenas a divulgação de fatos imprecisos, mas também a omissão de fatos essenciais para formar uma visão equilibrada de qualquer história. A Bíblia dos Escravos é um documento tão editado que qualquer história que poderia inspirar os escravizados a se rebelarem, como o livro do Êxodo em que Deus afirma "deixe meu povo ir", foi completamente omitida de modo a que ouvir as histórias não levaria a nenhuma "atitude perigosa". Entre os versos omitidos está esse:

"Não há judeu ou grego; não há escravo ou livre; não há homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus". Gálatas 3:28

E não se trata de editores que apenas mudam uma palavra aqui e outra lá: eles alteraram completamente toda a estrutura do livro sagrado cristão. Estimativas indicam que cerca de 90% do Antigo Testamento e 50% do Novo Testamento estão faltando. Em termos de conteúdo legível, enquanto uma Bíblia Protestante tem 1.189 capítulos, a Bíblia dos escravizados tem apenas 232! E pesquisadores da universidade Fisk afirmam que os versos não foram apenas omitidos do livro, mas palavras e frases específicas foram priorizadas para estimular uma submissão aos senhores. 

Por exemplo, em Efésios 6:5: "Servos, obedeçam aqueles que são seus senhores de acordo com a carne, com medo e tremor, na singeleza de seu coração, como em Cristo."

Brad Braxton, diretor do Centro para o Estudo da Vida Religiosa Afro-Americana de NMAAHC, disse: "Esta relíquia religiosa nos obriga a lidar com uma questão atemporal: em nossas interpretações da Bíblia, o resultado final é sempre a libertação ou dominação".