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Bolsonaro tentou interferir na bula dos remédios de cloroquina, denuncia Mandetta

O ex-ministro afirmou que participara de reunião em que o presidente tentou violar o texto médico

André Nogueira Publicado em 21/05/2020, às 13h14

Jair Bolsonaro e Luiz Mandetta
Jair Bolsonaro e Luiz Mandetta - Divulgação

Segundo o ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, a Presidência da República, liderada pelo capitão da reserva Jair Bolsonaro, teria tentado interferir no texto da bula médica dos remédios baseados na hidroxicloroquina, que o governo insiste em defender.

De acordo com o profissional, Bolsonaro pretendia incluir nas recomendações do medicamento a Covid-19, fato que não tem aval científico. A denúncia ocorreu logo após o Governo Federal protocolar a indicação do remédio aos pacientes da doença que toma o mundo.

Em entrevista à Globo News, Mandetta afirmou que a recomendação do presidente está “distante do razoável”.

"O presidente se assessorava ou se cercava de outros profissionais médicos. Eu me lembro de quando, no final de um dia de reunião de conselho ministerial, me pediram para entrar numa sala e estavam lá um médico anestesista e uma médica imunologista, que estavam com a redação de um provável ou futuro, ou alguma coisa do gênero, um decreto presidencial”, revelou.

“E a ideia que eles tinham era de alterar a bula do medicamento na ANVISA, colocando na bula indicação para covid-19". O também ex-deputado se desligou ao governo depois da campanha de Bolsonaro em favor do medicamento e contra a quarentena, sem maiores explicações, indo completamente contra as recomendações das instituições científicas e da OMS.

Luiz Henrique Mandetta / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ele ainda colocou que "O próprio presidente da ANVISA se assustou com aquele caminho, disse que não poderia concordar. Eu simplesmente disse que aquilo não era uma coisa séria e que eu não iria continuar naquilo dali, que o palco daquela discussão tem que ser no Conselho Federal de Medicina. Então, é lá que esse debate tem que se dar. Não adianta fazer um debate de uma pessoa que seja especialista na área que for, com um presidente da República que não é médico. A disparidade de armas, já que a frase está tão em voga, é muito difícil".

A insistência de Bolsonaro no apoio ao medicamento, que possui possíveis efeitos colaterais que causam paradas cardíacas, começou quando Donald Trump iniciou uma campanha em favor do remédio, cuja produção é lucrativa ao estadunidense.