Carta “caliente” de esposa de Mao causa indignação entre chineses

A interpretação do texto por uma pop star na TV chinesa deixou muitos espectadores revoltados com a “banalização”

sexta 13 abril, 2018
Mao, o bem-amado
Mao, o bem-amado Foto:Getty Images/Pixabay

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Quinta-feira passada (5 de abril), a cantora e atriz Han Xue (também conhecida como Cecilia Han) apareceu diante dos chineses em horário nobre. Ela tinha o seguinte a dizer:

“ Eu quero beijar seus olhos, sua boca, sua testa e sua cabeça cem vezes, você é meu e pertence a mim. Minha morte não é nada, eu espero que Runzhi obtenha sucesso em sua revolução”

Runzhi era o nome de cortesia, tradicional apelido oficial, de Mao Zedong*, o pai-fundador da China Comunista. O texto era parte de uma carta foi escrita por sua primeira esposa, Yang Kaihui, interpretada com coração pela sex symbol no programa Xinzhongguo, "Confie na China". O programa, que estreou em março passado, se propõe a ler correspondências pessoais de 100 figuras, mulheres e homens, fundadoras do Partido Comuinista Chinês. A ideia é, conforme o produtor afirmou ao Global Times (jornal estatal chinês), mostrar seu "lado humanitário".

A interpretação sensual da íntima correspondência deixou alguns chineses furiosos. Usuários das redes sociais chinesas sentiram que a interpretação banalizava a figura do líder e manifestaram sua ira patriótica. Em um caso citado pelo New York Times, um usuário atendendo por Yunfeiyang2046 disse ter sido doloroso assitir ao episódio, que o fez perder o sono:

“ No lugar de lembrar os mártires, defender sua dignidade e herdar seu espírito, vocês estão alimentando fofocas e usando a oportunidade para ganhar espectadores e audiência”

Figuras de Mao ainda adornam prédios públicos (notavelmente na Cidade Proibida), na casa das pessoas mais velhas e em santinhos em carteiras dos taxistas, para dar sorte. Ainda que bem menos que no passado, ele é venerado de forma quase religiosa como o fundador do regime. A muitos chineses, humanizá-lo é como rebaixar um semideus a nosso patamar. Ou essa é a teoria de Doroty Sanger, sinóloga da Universidade da Califórnia, que declarou ao NYT: “Pode ser que as pessoas que estão protestando [contra] algo [ser retratado] sobre a vida pessoa pessoal de Mao se opõem a essa trivialização dele, por fazê-lo parecer humano”. 

A carta tem algo de melancólica quando se conhece sua história. Data de 1929, um ano antes de Yang Kaihui terminar executada pelo Kuonmitang, o Exército nacionalista, inimigos figadais dos comunistas, que terminariam pro se estabelecer no Taiwan. Mao teve quatro esposas, mas Yang Kaihui é considerada seu amor verdadeiro, pela qual escreveu poemas.

Seria de derreter o coração se Mao não fosse possivelmente o maior assassino em massa de todos os tempos.


* NOTA: O nome mais usado no Brasil, Mao Tse-Tung, vem da romanização Wades Giles, criada para a língua inglesa no século 19 e sendo progressivamente abandonada. Zedong é a forma em Pinyim, a romanização oficial da própria China, criada por chineses. 

Fábio Marton

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