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Carta de 2.400 anos elucida evolução do rito da Páscoa

O documento, enviado de Jerusalém ao Egito, revela como os judeus comemoravam a festividade

André Nogueira Publicado em 29/04/2020, às 10h03

Carta de Elefantina
Carta de Elefantina - Museu Egípcio de Berlim

Um novo estudo sobre um documento importante da história judaica revelou a evolução do ritual da Páscoa na antiguidade. Trata-se de uma carta escrita em Jerusalém, por um funcionário chamado Hananyah, e direcionada aos judeus da ilha de Elefantina, extremo sul do Egito, quando o império caía na dominação persa. Este é o  relato mais antigo do ritual, e foi encontrado há um século em meio a um arquivo fragmentário na ilha do Nilo.

De acordo com a leitura do documento de 2.400 anos, o rito da Pessach (Páscoa) não era formalizado no período, mas atuavam como referências de formas litúrgicas: “Conte 14 [dias em Nisan] e no [crepúsculo?] No dia 14 [do crepúsculo observe Pessach?] Do 15º ao 21º dia de [Nisan] observe a festa dos pães ázimos, coma pães ázimos por sete dias. Não trabalhe nos dias 15 e 21 do Nisan... Não beba... E tudo o que é fermento entra nos seus quartos e fecha-se entre esses dias.”

Pão ázimo não leva fermento e faz referência ao Êxodo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Haggai Misgav, da Universidade Hebraica de Jerusalém, defende que esses são indícios de que os judeus de Elefantina deviam se dedicar exclusivamente a Deus, sacrificando seus cotidianos a Yahweh, pois os ritos de Páscoa eram exclusivos a Jerusalém e aos templos, não sendo realizados em casa desde as reformas de Josias.

No entanto, é evidente que a capital não era o único local com templos judaicos, principalmente após a invasão babilônica e a destruição do Primeiro Templo (Elefantina tinha, por exemplo, mais de um).

Com isso, considera-se que os judeus chegaram à Elefantina antes da noção de centralização do culto judaico por Josias. "É bem possível que eles tivessem uma tradição sob a qual os templos pudessem ser construídos fora de Jerusalém", afirma Aren Maeir, da Universidade de Bar-Ilan ao Hareetz. “Eles tinham costumes diferentes”. Para ele, os documentos da ilha mostram formas alternativas de abordar o campo ritualístico entre os judeus.

Josias teria estabelecido uma série de normas com uma reforma política e religiosa / Crédito: Wikimedia Commons

 

Para tanto, é necessário pensar que a Carta de Elefantina não foi solicitada pelos habitantes de lá - indicaria que o ritual não teria sido realizado ainda na época. Ao contrário, ela teria sido enviada espontaneamente, considerando que o templo judaico local teria sido destruído pelos egípcios, e só seria reconstruído anos depois.

Por fim, resume-se a evolução do ritual da Pascoa com a frase de Maeir: "Acho que houve outros tipos de judaísmo durante o período persa". Ou seja, antes do cânone, a liturgia não era o centro do desenvolvimento dessa forma de expressão da fé.