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Carta perdida de Galileu revela tentativa de amenizar suas “heresias”

Documento, achado após séculos, revela uma edição para tornar suas ideias mais aceitáveis à Inquisição

sexta 19 outubro, 2018
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gali Foto:AH / Marcelo Braga

Enquanto vasculhava os arquivos da Royal Society, em Londres, Salvatore Ricciardo, um historiador da Universidade de Bergamo, Itália, encontrou um rascunho da carta original onde Galileu Galilei declarara apoio às ideias do astrônomo polonês Nicolau Copérnico, segundo as quais a Terra e os demais planetas giravam em torno do Sol, e não o contrário. Datada de dezembro de 1613, essa carta seria parte de seu processo pela Inquisição, que terminou com sua prisão perpétua domiciliar, em 1633. 

Como o escrito original nunca foi encontrado, os historiadores não conseguiram afirmar se a tal carta havia sido manipulada para denegrir a imagem de Galileu – algo que o próprio alegara. Agora o professor Ricciardo pode ter solucionado o mistério.

Na época, duas versões da correspondência foram recebidas. O primeiro documento, que causou polêmica, data de 1613. Foi enviada pelo astrônomo para o matemático Benedetto Castelli, em Pisa. De alguma forma, a carta caiu nas mãos do padre dominicano Niccolò Lorini, que entregou para a Inquisição. Nessa carta, o astrônomo dizia que a Bíblia não podia ser levada ao pé da letra, porque fora simplificada pelos escribas para o público comum, e que padres não tem competência para julgar questões científicas. E – o mais central de tudo – dizia que o modelo heliocêntrico de Copérnico era compatível com a Bíblia. 

A carta encontrada Salvatore Ricciardo

Em 1615, Galileu enviou um novo escrito, dessa vez para Piero Dini, um clérigo em Roma, onde explicava que a versão que o Vaticano tinha em mãos provavelmente fora adulterada. Enviou então uma nova carta, similar a primeira, mas com linguagem amenizada. O material foi arquivado pela Igreja  - ou seja, a tentativa de Galileu de se livrar da Inquisição fora em vão.

A correspondência encontrada ficou perdida por séculos. O texto contém inúmeras correções, realizadas numa tentativa de eliminar palavras que colocassem a Igreja Católica contra a parede e o fizessem ser visto como um herege. Um exemplo, é o trecho que critica as passagens bíblicas usadas como argumento pela Igreja. No lugar de "falsas", Galileu riscou e corrigiu para "parecem diferentes da verdade.”

"Eu pensei, 'eu não posso acreditar que eu descobri a carta que todos os historiadores pensavam estar perdida", diz Ricciardo a Nature. "Parecia ainda mais incrível porque a carta não estava em uma biblioteca obscura, mas na biblioteca da Royal Society."

Thiago Lincolins


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